Uma jovem que conheço, de 20 e alguns anos, quis saber de mim: “Por que ler Simone de Beauvoir nos dias de hoje?” Entendi que nessa pergunta estavam implícitas outras questões: “já que o feminismo já fez suas conquistas e já fracassou em muitos outros pontos, por que ler algo datado?”. Talvez, algo mais simples: “será que todas as questões que ela coloca não estão ultrapassadas?”.
Na hora, pega de surpresa, disse apenas que, para entender o que as feministas de hoje dizem, é preciso ler Beauvoir. Uma resposta óbvia.
O certo é que esse não é o principal motivo, nem o melhor, para ler Simone de Beauvoir hoje. Há muitos motivos melhores. Por exemplo: o fato de Simone, em suas memórias (Memórias de uma Moça Bem-Comportada, A Força da Idade, A Força das Coisas, Balanço Final) construir um verdadeiro testemunho da vida das mulheres em uma época de profundas transformações sociais (entre e pós-guerras) e de se expor em todas as suas fragilidades, revelando seu lado burguês, mimado, dependente. Simone, portanto, não pretende ser o que não é, e ler uma obra biográfica tão honesta é, em si, uma experiência fascinante.
Outro motivo: em toda sua obra, Simone reflete sobre a questão “Liberdade é compromisso”. Ninguém mais do que ela (nem Sartre) foi tão fundo nessa afirmação inquietante que confunde e amedronta “nos dias de hoje” mais do que no passado. Além disso, em seus livros Simone dá voz a três gerações de mulheres: a sua, a de sua mãe e a de suas alunas e amigas mais jovens. Por isso, muitas vezes ler Simone é entender o que nos liga a nossas mães, avós, filhas, sobrinhas…
Mas o principal motivo para ler Simone hoje, creio eu, é que ninguém como ela falou sobre a construção da mulher como “Outro”. E a categoria do “Outro” é essencial na cultura ocidental em qualquer tempo. Vivemos e nos reconhecemos em oposição ao Outro. Guerreamos e amamos por nossa relação com o Outro. Pensamos e agimos em reação ao Outro. E o Outro é aquele que é diferente sendo igual, que é inimigo estando dentro de mim, que é amigo sendo o meu oposto, mas sobretudo, que me coloca em perigo e alerta constantes. O Outro sou eu, também.
É sobre o Outro que falamos quando falamos de negros, judeus, ciganos, pobres, ricos, terroristas, filantropos, homens e mulheres. Ao mostrar como se construiu a mulher como Outro, Simone nos ajuda a pensar sobre como construímos tantos Outros em nosso cotidiano, ao longo da história, por meio de nossa cultura. Nenhuma questão é mais atual do que essa. (Considero esse o principal motivo pelo qual os homens também devem ler Beauvoir.)
Simone era uma escritora múltipla. Era filósofa, mas na boa tradição do pensamento francês, era também uma pensadora da cultura e da sociedade de sua época. Era romancista. Memorialista. Feminista. Então, cada faceta da escritora merece uma análise especial (já estou rascunhando novos posts).

Li. Gostei e conclui: preciso saber mais desta importante escritora feminista. beijos
Beauvoiriana, a foto da Simone me fez lembrar a da Clarice Lispector. As duas imagens têm algo em comum.
É verdade! A janela, o p&b, e o fato de estarem escrevendo. Acho até que na foto elas têm lá pelos seus 30 e vários anos
Obrigada por seus comentários e sua presença sempre fiel por aqui!
Bons motivos!
[...] [1] Ver: (http://avecbeauvoir.wordpress.com/2010/09/13/por-que-ler-simone-de-beauvoir-hoje/) [...]
Não acho que a pergunta “Por que ler Simone de Beauvoir hoje?”se faria presente se realmente a obra de Simone fosse lida, onde fica claro que sua literatura não tem nada de feminista tal qual o termo é concebido.
Vemos citações e mais citações em sua maioria tiradas de “O Segundo Sexo”, reproduções caricaturais da mulher livre e moderna, porém muito se fala (se repete como em um telefone sem fio) e pouco se sabe/lê de fato.
Simone de Beauvoir está lado a lado com Virgina Woolf, Katherine Mansfield, Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector, como também de Sartre, F. Scott Fitzgerald entre outros. Não há dúvida que seu estudo em relação ao “segundo sexo” é de extrema importância, porém sua obra vai muito além disso.
Oi, Rubia,
Claro que nem pretendo esgotar o tema com o blog ou os textos, apenas apresentar a obra dela e discutir. Seria incapaz de esgotar tudo o que Simone representa. Mas o que mais me chama a atenção é que você a coloca ao lado de Virginia Woolf e Katherine Mansfield, o que me agrada muitíssimo, e que também são escritoras pouquíssimo lidas no Brasil. Quanto a ser “feminista”, Simone realmente nunca foi. O que não impede de ter sido, como já escrevi aqui, a mais importante pensadora para os estudos feministas. Só discordo de você ao relacionar o fato de Simone não ser lida porque sua obra não tem nada de feminista. Na verdade, o feminismo é um dos responsáveis, ao se apropriar da obra dela, de colocá-la como uma autora muito específica, o que afasta os leitores dela.
Um abraço.
Ah, sim, claro. Apenas acho cansativo e nulo que a grande maioria das pessoas se limite aos esteriótipos e não leia, de fato, as obras dela.
Desculpe, mas me expressei mal no comentário anterior. Eu quis dizer que além de “O Segundo Sexo”, quase nada se conhece dela. Ela é muito e ao mesmo tempo pouco “lida” justamente por ter se tornado referência feminista.
Como você disse, mesmo não sendo feminista, Simone foi a mais importante pensadora para os estudos feministas, mas acho que para se compreender de fato seu engajamento, liberdade, etc é preciso entender também a relação de dependência e até insatisfação que ela teve com Sartre (lendo os demais livros, autobiografias, cartas). Estou lendo Lettres à Nelson Algren e estou descobrindo uma Simone tal qual a via em muitos de seus personagens, mas que difere completamente do ícone feminista, revolucionária, devoradora de homens (e mulheres), polêmica.
Acho que a Virginia Woof está na “mesma” situação. É pouquíssimo lida aqui, mas muito comentada e citada. Diria até que Clarice tamém passa por isso, mas quanto à ela não posso dizer muito pois li pouco.
Descobri K. Mansfield, de fato, há pouco tempo e fiquei impressionada. Uma pena que ela tenha produzido tão pouco.
Abraços.
Acho que pensamos muito parecido. Eu fico muito feliz em ler sua opinião, porque percebo que compartilhamos muitas ideias. De fato, a Simone que se revela nessas cartas é outra, muito diferente daquela que se construiu no imaginário ocidental. E isso é ótimo, não? Mostra como ela era ainda mais complexa e interessante. Obrigada pelos comentários.
Fico feliz também.
De nada!