A utilização estratégica da questão do aborto na campanha presidencial de 2010 me fez adiantar este post. Achei pertinente falar sobre Simone de Beauvoir e esse tema, porque ela foi uma das principais intelectuais do século XX a enfrentá-lo publicamente. Além disso, tenho certeza de que minha posição a favor da descriminalização do aborto (meus motivos estão aqui) foi construída de forma consciente porque muito cedo tive contato com as ideias de Simone.
Em 5 abril de 1971, o Nouvel Observateur publicou um manifesto assinado por Simone de Beauvoir que ficou conhecido como o “Manifesto das 343”. No documento, ela, Marguerite Duras, Françoise Sagan, Catherine Deneuve e Jeanne Moreau, entre outras, admitiam ter feito aborto ilegal e exigiam que o governo francês garantisse às mulheres o direito à contracepção gratuita e ao aborto legal. O documento foi um escândalo, as mulheres que ousaram colocar seu nome ali foram humilhadas e destratadas publicamente. De Simone, diziam: “a mulher que fez mais de 100 abortos”.
Simone nunca fez um aborto, garante sua filha adotiva, Sylvie Le Bon, em diversas entrevistas. Mas a questão, obviamente, não era essa. O documento pretendia pressionar o governo francês, obrigá-lo a encarar que o aborto acontecia livremente, sem que o Estado tomasse nenhuma atitude. Com mulheres tão famosas assumindo o suposto “crime”, o que as autoridades poderiam fazer? Uma coisa era certa: não poderiam mais ignorar o debate. Assinar o documento, naquele momento, era defender mais de um milhão de mulheres francesas que faziam abortos ilegais a cada ano, muitas delas morrendo (exatamente como acontece hoje no Brasil, 40 anos depois). O aborto foi legalizado na França em 1974, mas só na década de 1980 passou a ser possível pelo sistema público de saúde do país.
Mesmo antes do manifesto, Simone e Sartre jamais foram alheios à questão. Em O Sangue dos Outros (de 1945), Simone coloca uma de suas personagens diante do dilema. Na trilogia Os Caminhos da Liberdade (1945 a 1949), Sartre faz seu personagem masculino se posicionar diante do mesmo problema: sua namorada está grávida e ele deseja o aborto. E ela?
No livro, Simone mostra com sensibilidade como a mulher se encontra dividida diante de uma gravidez não desejada. A situação é ambígua, o peso moral da decisão é paralisante. Para uma mulher a quem o aborto se apresenta como uma solução, a experiência é de angústia. Vêm à tona o paradoxo e a complementaridade entre contingência e liberdade (post anterior). A contingência é representada por sua condição social, sua classe, sua fé, sua família. A liberdade, pela decisão.
No livro O Segundo Sexo (faça download do volume 1 e do volume 2), Simone vai muito além. Ela mostra como o controle do aborto é o controle da sexualidade da mulher. O terror de engravidar (lembremos que a pílula ainda não existia, em 1949) fazia com que muitas mulheres só se iniciassem sexualmente após o casamento. Além disso, a criminalização do aborto era (e é) instrumento de dominação, assim como o mito do amor materno. Exigir que uma mulher tenha um filho que ela não deseja, não pode criar, e talvez não esteja disposta ou capacitada para amar, é tirar dela o poder de decisão sobre sua vida. Como ao homem é dado esse poder, é também negar a igualdade.
Simone lembra que o aborto também é uma estratégia de dominação de classe: se a classe trabalhadora não tem acesso a ele, se reproduz mais, a mão de obra disponível é mais numerosa, os salários são mais baixos, a possibilidade de ascensão e as oportunidades, menores. Nega-se, assim, a possibilidade de igualdade de direitos das mulheres ricas e pobres.
Ela também mostra que transformar o aborto em crime é uma forma de impor à mulher um sofrimento desumano. Se ela opta pelo aborto, tem de suportar sozinha o peso de ser uma “criminosa”. Se opta por ter um filho que não deseja, carrega a culpa e a carga afetiva negativa dessa relação por toda a vida. Proibir o aborto, portanto, é aprisionar a mulher na condição de culpada. Culpada pela lei e pela sociedade por cometer um “crime”; culpada por si mesma e pela família por não desejar um filho. Em uma sociedade que construiu o mito de que toda mulher tem a oferecer – e deve oferecer – seu amor a um filho, essa culpa é muito grande. A mulher que não pode, não quer ou não tem filhos fica subjugada pela ideia de que “é da natureza da mulher ter filhos”.
Lendo Simone aprendi que criminalizar o aborto é uma maneira de reproduzir e sustentar a desigualdade entre homens e mulheres e entre ricos e pobres. É reduzir as mulheres à reprodução e negar-lhes oportunidades, sonhos, desejos, projetos, direitos.
Gosto especialmente de uma frase de Simone, do livro Balanço Final, que resume por que as mulheres devem ter seus direitos – todos – preservados e defendidos:
“Eu não acredito que existam qualidades, valores, modos de vida especificamente femininos: seria admitir a existência de uma natureza feminina, quer dizer, aderir a um mito inventado pelos homens para prender as mulheres na sua condição de oprimidas. Não se trata para a mulher de se afirmar como mulher, mas de tornar-se ser humano na sua integridade.”

Muito providencial teu texto. Como sempre, muito bem escrito. Cada vez gosto mais das ideias de Simone de Beauvoir que, infelizmente, nunca fui orientada a ler. Mas essa iniciação está sendo fantástica, instigante. Logo, logo, me atraco em um dos livros.
Obrigada!
Débora, obrigada a você por me ler e comentar. O único perigo de começar a ler Simone é não querer mais parar.
Excelente, como sempre!
Muito obrigado,
B.
Eu que agradeço a leitura, Bárbara. Que bom ter você por aqui.
Querida, brilhante o texto! Concordo plenamente!
Tenho pensado muito em certa corrente que ouvi falar, o “feminismo católico”. Pesquisei em alguns blogs e existem mesmo mulheres católicas que defendem o feminismo. Citam passagens da bíblia em que o homem deve respeitar a mulher e trata-la como igual. Entretanto, não questionam a postura da instituição católica que jamais respeitou isso. Não questionam a posição patriarcal da igreja, a falta de espaço e voz das mulheres, perpertuação de valores machistas, nem questionam a visão de que o padre deve manter o celibato pois a mulher representa o pecado da carne. Discordam de outras feministas se colocando contra a descriminalização do aborto… a lista poderia ser imensa. Feministas fajutas, é só o que consigo pensar.
Estou devorando o segundo sexo pra tentar encontrar respostas.
Sinto falta das nossas conversas, sempre tão esclarecedoras.
Beijos
Ai, Maiara, assim vc me faz chorar! Tb sinto falta das nossas conversas! O catolicismo é uma das maiores forças de opressão da mulher, mas conheça a ong Católicas pelo Direito de Decidir, elas militam pelos direitos das mulheres, criticam toda a posição da igreja e defendem a descriminalização do aborto. beijo grande e obrigada pela visita
[...] do mundo” (que envolve as questões feministas também, já que a mãe dela assina o manifesto das 343). Curiosidade: o filme fez mais bilheteria no Brasil do que na França [...]
[...] Então cliquem aqui e leiam o [...]
Tive o prazer de conhecer a obra de Simone através de Sartre, a quem admiro muito. Mas uma vez que entrei em contato com a obra de Simone através de “Os Mandarins” não parei mais “sentir” o seu trabalho. Penso que me apaixonei! Ela tem uma capacidade fantástica de convencer e encantar. E me apaixonei ainda mais quando soube da sua luta pelos direitos da mulher, da sua luta pelo feminino. Venho de uma família simples, pobre, onde o espancamento moral e factual da mulher por parte dos homens sempre foi uma constante. Os choros, os gritos sempre me assustaram, pior me horrorizavam a ponto de me marcarem profundamente. Penso que por conta disso, tenho um respeito imenso pelas adversidades que a mulher sofre e fico contente por saber de blogs em defesa da mulher (e melhor com um olhar beauvoiriano) é explêndido. Parabéns e continue com esse ótimo trabalho.
Forte Abraço.
Muito obrigada, Marcos, por me contar como conheceu Simone e como ela o ajuda a entender o mundo. Eu adoro saber sobre como ela é recebida por cada pessoa. Mas pode ter certeza de uma coisa, o “espancamento moral e factual” da mulher (expressão sua que eu acho muito apropriada) acontece tanto entre as famílias simples quanto entre as abastadas, onde o dinheiro é ainda mais um elemento de dominação e violência. Apenas, a imagem que se constrói da sociedade, na mídia, principalmente, é a de que esse e muitos outros sofrimentos não chegam ao mundo dos ricos. Chegam, sim! Um grande abraço!
Enquanto estivermos unidas discutindo e refletindo sobre a opressão que nos cerca, estaremos bailando ao som de nossas antecessoras. Salve o blog! Salve a luta! Saúde, Amor e Anarquia!!
Adorei essa saldação: “Saúde, Amor e Anarquia”! Obrigada pela visita, pelo comentário e pela união nessa luta, claro