Hoje, Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres, é o momento para lembrar e defender todas as mulheres que foram e são vítimas de violência física ou psicológica por um fato simples: aprenderam, ao longo da vida familiar, escolar e social a serem mulheres. Sim, porque, segundo Simone de Beauvoir não nascemos mulheres, mas nos tornamos mulheres ao aprendermos comportamentos, formas de pensar e de agir em função de nosso gênero.
Quando Simone de Beauvoir nos diz que nos tornamos mulheres, ela fala de um processo que é moldado por uma violência oculta. Uma violência que se apresenta sob a forma de mitificação do “universo feminino”, da “feminilidade” e do “maternal”. Uma violência que se esconde sob palavras bonitas como “altruísmo”, “generosidade”, “sinceridade”, “dedicação”, “docilidade”, “passividade” e tantas outras que, ao mesmo tempo que escondem, naturalizam a violência contra a mulher. Uma violência que aprisiona a mulher na condição de “carinhosa”, “amorosa”…
Em O Segundo Sexo (pdf), Simone mostra como a identificação da mulher com tudo o que é singelo, pacífico, generoso, dócil e altruísta é, na verdade, uma forma de desautorizar completamente a autonomia feminina. É também um modo de destruir a capacidade da mulher se proteger de uma violência que mutila corpos e almas, que destrói sonhos e projetos de vida e que enreda famílias inteiras em um ciclo repetitivo: mães e filhas apanham (para dizer o mínimo) de pais e dos irmãos. Estes se tornarão pais um dia e espancarão, violentarão, humilharão suas esposas e filhas, ensinando às novas gerações que “se tornar mulher” é se submeter calada à violência, não se defender, não reagir e não denunciar.
As mulheres passam infância e adolescência, ainda hoje, aprendendo que sua existência se constrói para o homem e que devem ser carinhosas, submissas, atraentes para eles. Qualquer ação que possam tomar a favor de si mesmas e de sua integridade é considerada feia, máscula, reprovável. Enquanto as meninas estão lidando com uma infinidade de interdições, cujo objetivo é “domar” sua agressividade, os meninos estão sendo incitados a “não levar desaforo para casa”, “a defenderem sua honra”, a “pagarem na mesma moeda”… Ou, como diz Simone em O Segundo Sexo:
A mulher não tem geralmente acesso ao universo da violência; nunca passou pela prova que o rapaz enfrentou e superou através das brigas da infância e da adolescência: ser uma coisa de carne sobre a qual outro pode dominar; e agora ela é empunhada, arrastada a um corpo-a-corpo em que o homem leva a melhor; não tem mais a liberdade de sonhar, de recuar, de manobrar: está entregue ao macho que dispõe dela. (p. 121 de O Segundo Sexo, Volume 2 do pdf acima)
Os discursos repetitivos para homens e mulheres todas conhecemos. Mesmo que em nossas casas não tenham sido reproduzidos, são lugares-comuns de uma cultura machista que, de forma oculta e perniciosa, faz da mulher o alvo naturalizado da violência.
Contra toda afronta, contra toda tentativa de reduzi-lo a objeto, tem o homem o recurso de bater, de se expor aos golpes: não se deixa transcender por outrem, reencontra-se no seio de sua subjetividade. A violência é a prova autêntica da adesão de cada um a si mesmo, a suas paixões, a sua própria vontade, recusá-la radicalmente é recusar-se toda verdade objetiva, é encerrar-se numa subjetividade abstrata; uma cólera, uma revolta que não passam pelos músculos são coisas imaginárias. (p. 69, Volume 2)
Os homens aprendem a solucionar conflitos pela violência e as mulheres aprendem que a violência “é feia” e é “natural” apenas nos homens. E assim, eles são legitimados na posição de agressores e as mulheres, na posição de vítimas.
Neste dia pela eliminação da violência contra a mulher, talvez valha a pena questionarmos a reprodução dessa lógica no cotidiano, nos discursos, nas imagens, nas ações judiciais que desautorizam até mesmo o que está na lei, como acontece em casos de desrespeito à lei Maria da Penha.
Enquanto essa lógica persistir, a violência – seja ela física, sexual, psicológica, moral ou simbólica – contra a mulher também continuará existindo, se reproduzindo, mutilando, destruindo e matando.
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As blogueiras feministas estão empenhadas a discutir formas, causas e consequências da violência contra a mulher. Participe do debate, conheça os múltiplos fatores que fazem com que essa violência persista e insista.
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Saiba mais e mobilize-se: Diga não á violência contra a mulher – coloque seu nome na lista da UNIFEM Say no To Violence Against Women. No mesmo site você encontra fatos e números sobre a violência contra a mulher em todo o mundo e informações sobre o Dia da Ação Global contra o Militarismo e a Violência contra a Mulher, que acontece em 29 de novembro. A imagem acima eu emprestei do site de um post no site da Anistia Internacional.


Muito bem Beauvoriana!!!! O trabalho de formiguinha seu e de muitas outras intelectuais com certeza irá frutificar um dia.
Oi, Tere!
Obrigada. Todas as mulheres, na verdade, estão nessa luta
Bjs
B
[...] Beauvoiriana: A violência oculta [...]
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