Depois de reler Memórias de uma Moça Bem-Comportada, mergulhei na releitura do segundo volume da autobiografia de Simone de Beauvoir. A Força da Idade, publicado originalmente em 1960, é, para mim, uma das obras mais interessantes e intensas da autora, pelas reflexões sobre a relação entre o indivíduo e a sociedade. Esse aspecto da obra é uma consequência natural do período da vida de Simone que o livro retrata.
O ano de 1929, no qual Simone interrompe Memórias e inicia A Força da Idade foi um ano de consolidação de uma etapa de sua vida: a estudante, aspirante a escritora, cercada dos colegas da Sorbonne, ainda vivendo na casa dos pais, dependente deles financeiramente, deixa de existir. Ela iniciara seu relacionamento com Sartre. Aprovada no exame de agrégation, Simone tinha agora a perspectiva de se sustentar e, enquanto isso não acontecia, ela e Sartre tinham uma pequena herança dele para gastar. Mas a aprovação também significava o fim de sua antiga rede de relações, da companhia de seus amigos e colegas, cada um seguindo um destino diferente, e muitos deles saindo de Paris.
Nos braços do mundo
Por todas essas transformações, a protagonista de Memórias de uma Moça Bem-Comportada ficou para traz. No primeiro volume das memórias, Simone nos conta seus sonhos de menina e de jovem, dedica-se a explorar o desabrochar de seu desejo de deixar sua marca no mundo escrevendo. Em um tom pessoal e, por vezes, nostálgico, ela nos fala de suas leituras, amizades, da descoberta do amor e da sexualidade, de suas angústias. Ali desvendamos os caminhos percorridos pela menina que, aos 13 anos, decidiu que seria escritora.
Em A Força da Idade, essa moça deixa de ser essa estudante bem-comportada para se jogar no mundo, nas viagens, na descoberta de uma nova maneira de amar, nas suas primeiras aulas, na admiração das alunas, na formação de sua primeira tríade amorosa (entre ela, Sartre e Olga Kosakiewicz). No livro, reencontramos Simone para acompanhá-la não apenas em suas lembranças, mas em uma jornada: seu amadurecimento pessoal e, principalmente, intelectual. E essa jornada começa com uma linda descrição de sua chegada à cidade de Marseille, em 1931, para onde foi nomeada em sua primeira colocação como professora de filosofia. A descrição começa revelando que aquele era um momento de mudança:
Lembro-me de minha chegada a Marseille como se ela houvesse assinalado em minha história um caminho inteiramente novo. (A Força da Idade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010, p. 94.)
A partir desse momento da leitura do livro, nos transformamos em testemunhas da vida de Simone, não apenas em leitores de suas memórias. Ela relata, com profunda honestidade intelectual, a transformação de Simone e Jean-Paul, aspirantes a intelectuais, burgueses e alienados, nos intelectuais engajados Simone de Beauvoir e Sartre. Revisitamos os planos e projetos intelectuais de ambos, as leituras e novas ideias que começavam a elaborar, o encantamento de Sartre com a Fenomenologia, escola filosófica que abriu seu olhar para as questões que elaborou depois no Existencialismo.
Contexto histórico
Esse processo, que já seria interessante por si só, torna-se ainda mais complexo, cheio de nuances e revelações para o leitor porque acontece em determinadas condições históricas: os desdobramentos da crise econômica de 1929, iniciada nos EUA e que afetou a economia de todos os grandes países, a Guerra Civil Espanhola e a ascensão do nazismo na Europa. Visitamos a história sob o olhar de Simone – e, em alguns momentos, de Sartre – e aos poucos entendemos como as forças políticas se organizavam na direção da Segunda Guerra Mundial.
A transformação de Sartre e Simone em intelectuais engajados não é determinada apenas pela guerra. Múltiplos fatores contribuem para isso: o amadurecimento pessoal, o trabalho, o contato com outras correntes de pensamento, as novas relações com pessoas alinhadas com o comunismo, a percepção de como a política afeta a vida cotidiana, o contato com a realidade da classe trabalhadora. Em um dos trechos marcantes, Simone relata seu horror ao visitar uma indústria e perceber ali a degradação das operárias.
A segunda parte do livro é toda dedicada ao período de 1939 a 1944. E é então que o livro cresce em intensidade. Inicialmente contra a guerra, Simone começa concebê-la, assim como Sartre, como a única arma para derrotar o fascismo. O conflito é inevitável e os dias que antecedem 1º de setembro de 1939 são tensos, incertos, angustiantes.
Guerra e luta
Declarada a guerra, todas as emoções e reflexões se tornam mais exacerbadas. Sartre é convocado. Os parceiros se separam e a angústia aumenta: sem notícias, Simone espera e sofre. A separação de Sartre, a insegurança, a fuga de Paris ocupada e o retorno, a sobrevivência sob a ocupação, o reencontro com Sartre, o racionamento e as dificuldades econômicas, a morte de amigos… O relato que Simone nos faz da guerra é um verdadeiro registro histórico, rico em detalhes, fatos, experiências. Tudo isso sem deixar de lado muitas curiosidades sobre momentos aparentemente irrelevantes do cotidiano, como por que começou a usar turbantes, como desenvolveu seus talentos de cozinheira, como os títulos de seus livros e das obras de Sartre foram escolhidos.
É durante os anos de guerra que Simone vive também uma luta interna, que culmina com a escrita e a publicação de seu primeiro romance: A Convidada (1943).
A descrição que a autora faz do processo de criação e de sua relação com a literatura em A Força da Idade é reveladora e instigante. Simone analisa seus próprios textos da época, reflete sobre o que, em 1960, considera as forças e as fragilidades de seus escritos e faz ainda observações sobre como sua autobiografia pode ser mal interpretada por seus críticos. [Um dos trechos dessas observações você pode ler aqui.]
Rico em detalhes e descrições do modo de vida de Simone e Sartre entre 1929 e 1945, o livro mistura narrativa de fatos cotidianos e relatos de viagens, dos costumes dos intelectuais franceses de esquerda da época e das redes de relações que estabeleciam entre si com belíssimas reflexões sobre a guerra, as relações humanas, o amor, a amizade, o modelo de relacionamento que ela e Sartre construíram, a paz, a literatura e a morte.
Para quem espera encontrar no livro tudo o que Simone viveu naqueles anos, entretanto, fica uma advertência da própria autora, anunciada já no Prólogo:
(…) não pretendo dizer tudo. Contei minha infância e minha juventude sem nada omitir; mas se pude sem embaraço nem demasiada indiscrição pôr a nu meu longínquo passado, não experimento em relação à minha idade adulta o mesmo desapego, não disponho da mesma liberdade. Não se trata aqui de tagarelar acerca de mim mesma e de meus amigos; não gosto de intrigas. Deixarei resolutamente na sombra muitas coisas. (A Força da Idade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010, p. 12.)
Um dos aspectos do período que Simone deixa na sombra: o relacionamento amoroso entre ela, Sartre e Bianca Bienenfeld (ou Bianca Lamblin). Mas essa é uma história para um outro post.
