Simone de Beauvoir amava viajar. Sartre também. E muitos pontos altos dos escritos de ambos são relacionados a suas viagens. Em suas memórias, principalmente, mas também em ensaios e nas ambientações de seus romances, eles descrevem diversos lugares que conheceram. Estados Unidos, China, Rússia, Itália, Espanha…
Na juventude, como eles sobreviviam com salários de professores e enfrentaram uma época não muito próspera da economia europeia, viajaram pelo interior da França e pela Espanha, Itália e Alemanha em esquemas econômicos que incluíam acampar, dormir em celeiros, em hotéis de quinta, e até em sacos de dormir, na beira de estradas. Iam de um lugar a outro de trem, de ônibus, de carona, de bicicleta, ou, na falta de melhor opção, a pé. Simone relata todas essas aventuras, das quais ela era bem mais adepta do que Sartre, em A Força da Idade. Depois, quando se tornaram escritores reconhecidos, já podiam fazer algumas pequenas extravagâncias e, além disso, passaram a ser convidados por universidades, governos e instituições políticas de esquerda para palestras e eventos, o que lhes rendeu muitas novas viagens, já com mais conforto, e outros tantos relatos.
Pensando no fascínio de Simone pelas viagens, decidi iniciar a série de posts chamada “As cidades de Simone”. Mas escolhi para iniciar a série uma cidade sobre a qual não conheço ainda nenhum relato de Simone de Beauvoir. Nida, na Lituânia.
Escolhi esse destino apenas porque considero as fotos da viagem lindas. (Sei que Simone fala sobre essa viagem no quarto volume de suas memórias, Balanço Final, que eu ainda não li).
Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre foram convidados pelo governo lituano a visitar o país por uma semana, em 1965. A viagem aconteceu em julho daquele ano. Anexada à União Soviética em 1940, a Lituânia não era exatamente um lugar em que a liberdade de ir e vir era garantida. A viagem de Simone e Sartre foi cuidadosamente preparada e monitorada. Creio que eles só receberam o convite porque eram bastante alinhados, em especial Sartre, com o projeto socialista.
Sartre e Simone foram acompanhados quase 24 horas por dia por um fotógrafo: Antanas Sutkus. As fotos que ele fez da viagem são muito bonitas (no link vocês poderão ver outras imagens, ele é mesmo um grande fotógrafo). Gosto especialmente desta, que mostra Simone, então com 57 anos, descalça, dançando na areia como uma criança.
Segundo a revista Lithuania in the World, que entrevistou Sutkus, Sartre era lacônico e Simone de Beauvoir, cordial e calorosa. O fotógrafo também revelou que teve uma preocupação especial em retratar os dois intelectuais de um modo genuíno, que revelasse aspectos da psicologia de cada um. Particularmente, acho que ele fez isso muito bem.
Nida é uma cidade de praia, com belas dunas, e os cosmopolitas Simone e Sartre são vistos nas fotos, ao mesmo tempo, como totalmente deslocados do ambiente e encantados com ele. Sutkus contou à revista lituana que Sartre comparou a cidade com o paraíso e disse: “Esta é a primeira vez que caminho sobre as nuvens”.
A intérprete deles na viagem era Lena Zonina, agente secreta russa, com quem Sartre teve um romance na época. Ela aparece na foto abaixo ao lado de Simone. Ainda segundo o relato de Sutkus, durante toda a viagem, Zonina parecia querer imitar as roupas e o jeito de Simone [vejam a foto abaixo e decidam], e evitava ser fotografada com o casal. Mas para quem adoraria relatos de cenas de ciúmes entre ambas, uma decepção: elas se davam bem.





Cheguei pensar que Lena era Simone, pelo olhar lançado a Sartre. Belíssimo posts, belíssima ideia, belíssimas fotos selecionadas. Sempre de muito bom gosto.
Obrigada! É que as fotos ajudaram hehe. De fato, ela tem um olhar apaixonado para Sartre e é o ponto alto da foto, além de ela parecer um reflexo de Simone no espelho, apesar de eu achar a Simone mais bonita
O post está super bem escrito e gostoso de acompanhar. Fiquei impressionada com a astúcia dos dois ao viajarem com o espírito totalmente desnudo, livre para o mundo. Incrível mesmo. Quanto a Zonina, é realmente perceptível a admiração dela por Simone e sua paixão por Sartre. O olhar diz tudo. Ouvi dizer que ela sofreu muito quando sartre a deixou. O vínculo, ao que me parece, mesmo sendo o intelectual, era com a Simone. Ah! Belas fotos mesmo. ; ) Boas escolhas.
Oi, Isabel! Muito obrigada pela visita e pelo comentário.
Sim, você tem razão. Zonina era muito apaixonada por Sartre, mas como ele mesmo dizia, há o amor necessário e os amores contingentes. Simone era o necessário. A ligação entre eles era a base que os sustentava.