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Archive for abril \22\UTC 2010

Simone de Beauvoir não era uma mulher. Era várias. Um exemplo: ao mesmo tempo em que era conhecida como uma filósofa de comportamento escandaloso para sua época, de vida desregrada e boêmia, era controlada e organizada em tudo o que fazia.

Durante suas pesquisas para o livro O Segundo Sexo, ela acordava cedo quase todos os dias e enfrentava a fila diante da Bibliothèque nationale de France (BnF), em Paris. Ali, uma legião de pesquisadores e estudantes esperava por um lugar em uma das mesas do prédio e pelo acesso a seus milhares de livros. Simone, então já reconhecida como intelectual, era apenas mais uma dessas pessoas. Simone fazia isso por disciplina e por acreditar que não deveria ter privilégios em relação aos outros usuários da instituição pública.

Simone mantinha uma rotina diária em seus encontros pessoais e em seus trabalhos. Organizava seus dias, semanas e meses para dar conta de tudo a ser feito. (Ela contou um pouco dessa rotina à Paris Review, o trecho em inglês você pode ler aqui.) Para dizer o mínimo, ela tinha uma disciplina de dar inveja.

Também era controlada com dinheiro. E não porque não ligasse para gastar. Ela chegou a dizer que comprar é um prazer profundo. Mas, ao contrário de Sartre, ela sabia investir e guardar dinheiro, o que permitiu a ela comprar um carro, viajar para vários lugares (sem Sartre) e viver uma boa vida burguesa sem sobressaltos.

Tudo isso pode parecer de extrema banalidade quando se fala sobre uma filósofa e ficcionista que foi das maiores do século XX. Mas não é. Simone vivia assim porque assim traduzia em comportamento e ação sua compreensão de felicidade. Para Simone, ser feliz é praticamente uma missão. E uma missão se cumpre como uma luta, com esforço, dedicação, sentido de dever. Ser feliz, assim como ser infeliz, é uma escolha. E a felicidade se constrói. Como? Como um escultor que molda cada detalhe de sua obra em uma pedra. As ferramentas de Simone para talhar a felicidade na matéria bruta que é a vida: os livros, o conhecimento, as pessoas, os amores e, é claro, a escrita.

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