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Archive for maio \20\UTC 2010

Entender a obra e a vida de Simone de Beauvoir não é possível sem pensar sua concepção de ambiguidade. O duplo, o ambíguo, o contraditório, a verdade que tem duas faces. Nada disso é facilmente aceito pela sociedade contemporânea. Drummond tem um poema lindo sobre isso.

Da ideia que Drummond fez poesia, Simone retirou reflexões para toda sua vida e toda sua obra. Tanto para o poeta como para a filósofa, a ambiguidade é fonte de inspiração. Já para o pensamento moderno, baseado na objetividade e na ciência, a ambiguidade é um tormento, o limite do absurdo.

Em Por uma Moral da Ambiguidade, Simone defende que o absurdo nada tem de ambíguo. A ambiguidade, diz ela, é a própria condição humana. É por isso que, apesar de todo fracasso, de todo escândalo, continuamos lutando. A liberdade humana – esse dom tão caro a Simone – é ambígua. Assim, só podemos exercê-la no comprometimento. É na escolha por uma ação, por uma causa, por um caminho, que exercemos ao máximo nossa liberdade. Ambíguo? Pois é mesmo.

A política, a arte, aliteratura, a amizade, a guerra, os laços sociais. Do ponto de vista de Simone, tudo isso só pode ser pensado a partir da ambiguidade que lhes é intrínseca. Afinal, não só a condição humana é ambígua. Tudo o que o homem cria é também gerado sob o signo da ambiguidade.

O amor também é ambíguo. Nada pode nos colocar mais na linha de fronteira entre dois mundos do que a experiência de amar a alguém tanto, ou até mais, do que a nós mesmos. Nessa ambiguidade, Simone jamais foi compreendida. Ela amava Sartre. E sim, tinha ciúme, criava jogos amorosos, sofria. E, ao mesmo tempo, vivia seus amores circunstanciais, mais ou menos profundos, sofridos ou duradouros. Um tipo de amor nunca excluiu o outro. Nenhum desses amores excluía o amor dela por si mesma.

A condição da mulher é outro aspecto em que a ambiguidade domina. Tornando-se mulher sem ter nascido mulher, cada uma de nós precisa fazer escolhas difíceis. Há quem busque e construa uma vida convencional: casamento, filhos, família. Há quem opte pela independência. Há quem opte pela construção da subjetividade sem abrir mão das outras alternativas. Simone não quis ser mãe ou esposa. E foi uma mulher plena. Outras optam por caminhos totalmente diferentes, e também se sentem vivas e realizadas. Lidar com a ambiguidade é saber fazer essas escolhas. Negar a ambiguidade é escolher uma das alternativas sem reconhecer que as demais são igualmente válidas.

Quase sempre, diante das escolhas menos aceitas socialmente, nos escandalizamos. Diante do ambíguo, exigimos uma certeza. Um erro essencial, uma ação de má-fé. Qual é o bom caminho? Qual é a escolha certa? Qual o lado verdadeiro? O que é correto? Qual a opção justa? Qual a melhor solução?

Lidar com o fato de que não há resposta definitiva a essas perguntas nos deixa desamparados. Com nossa moral cristã e para nossa razão cientificista, só funcionamos diante das soluções prontas, das rotas indicadas e sinalizadas.

A moral da ambiguidade não nos ampara, nos dá um método. A solução pronta não existe; o julgamento preconcebido não é ético. A verdade, como no poema de Drummond, não é feita de metades que se complementam. Esse é o cerne da ambiguidade. As escolhas, os julgamentos, as decisões, só podem ser feitos diante de situações concretas. E a opção que fazemos entre uma e outra metade, não significa a negação ou a invalidação do caminho oposto. Essa é a opção moral da ambiguidade. Difícil, incômoda.

O assunto é complexo. Voltarei a ele mais vezes.

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A expressão não tem equivalente em português. Je ne suis pas une femme écrivain/I am not a woman writer. Traduzida para o português, perde-se o sentido da negação parcial mantida nos outros idiomas. E é justamente por essa negação parcial que, em francês e em inglês, a frase expressa uma profunda reflexão.

De que lugar escreve uma mulher? Existe uma escrita feminina? E até que ponto essa hipotética escrita está enraizada nos preconceitos em relação à mulher como intelectual e indivíduo do mundo das letras?

Simone de Beauvoir jamais foi alheia a essas questões. Na verdade, elas sempre impuseram a Simone um dilema. Exatamente por ter contribuído tanto para os estudos sobre as mulheres, e por ter escrito sobre as mulheres, com destaque especial para a composição de suas personagens femininas, Simone sempre foi vista como uma mulher que escrevia. (a woman writer/une femme écrivain).

Assumir tal lugar na sociedade, entretanto, é assumir uma posição inferior? Eis o dilema. Estando a mulher em condições de inferioridade na vida em sociedade – como Simone mostrou e como Virginia Woolf argumentou em Um teto todo seu, obra que Simone admirava – estaria a escritora também em um nível abaixo ao dos escritores? Ao mesmo tempo, exercer a função política do intelectual, que Simone tanto prezava, não significa falar a partir de sua posição, de seu lugar na sociedade? Valem as ideias de uma mulher tanto quanto as de um homem? As questões não param aí. Assumir-se como mulher escritora é assumir-se como diferente das mulheres que não galgaram uma  posição no mundo da reflexão?

O dilema é de difícil solução, e se Simone abriu as portas para a formulação dessas questões, certamente não trouxe, em sua atuação como escritora e filósofa, todas as respostas possíveis. Simone falava do ponto de vista de suas convicções existenciais e políticas. E quando essas convicções exigiam que se posicionasse como mulher, ela o fez. Quando exigiam que se posicionasse como indivíduo, também o fez. Mas a publicação de O Segundo Sexo exigiu, cada vez mais, que ela falasse a partir do ponto de vista de uma mulher intelectual.

As mulheres intelectuais sabem o quanto o gênero pesa sobre suas realizações, sobre o reconhecimento de sua obra e de sua originalidade. O dilema não vai ser resolvido a partir de uma pensadora, de um grupo de mulheres que alcançam sucesso com seus escritos, nem de uma ou duas gerações. O dilema só será resolvido quando a condição da mulher for efetivamente transformada e a igualdade conquistada.

Até lá: é legítimo a qualquer mulher reivindicar seu posto como independente de seu gênero. Eu não sou uma mulher que escreve; eu não sou uma mulher presidente; eu não sou uma mulher executiva; eu não sou uma mulher operária. Eu sou uma pessoa que ocupa na sociedade uma posição qualquer, independentemente de meu gênero.

A genial Cecília Meireles tinha a solução para seu dilema. Ela recusava-se a ser chamada de poetisa (a woman poet/une femme poète). Cecília Meireles era poeta. Igual a qualquer outro poeta.

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