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Archive for agosto \31\UTC 2010

Reli na semana que passou Memórias de uma Moça Bem-Comportada, de Simone de Beauvoir. Pouco mais de 20 anos se passaram desde a primeira vez que li o livro. E o tempo transformou o primeiro volume das memórias de Simone em uma redescoberta.  Na obra, a memorialista Simone relata acontecimentos e sentimentos de sua infância (ela nasceu em 1908) e dos primeiros anos de juventude, até o ano de 1929, data que marcou sua maioridade, seu encontro com Jean-Paul Sartre e a primeira grande perda de sua vida.

Quando li esse livro pela primeira vez, marcou-me a sede de liberdade da jovem Simone, seu desejo e curiosidade pela vida, e sua inocente rebeldia, que consistia quase exclusivamente em mentir para os pais para conseguir sair à noite. Nas “noitadas”, Simone fazia coisas terríveis: frequentava boates, bebia gin fizz, conversava com desconhecidos, caminhava pelos baixos dos viadutos do metrô, onde ganhavam a vida algumas prostitutas de Paris, e ultrapassava os limites do proibido: o bairro de Montparnasse.

O livro marcou minha adolescência e me trouxe, aos 13 anos, a convicção de que apenas duas atitudes na vida eram válidas: alimentar uma infinita paixão pela liberdade e odiar todos os padrões de comportamento burgueses. Simone tornou-se uma das minhas saudáveis obsessões.

Relutei por todo esse tempo a voltar para o livro, porque eu temia me decepcionar. Imaginei que a Simone que eu admiro não resistiria a uma leitura “madura”. Enganei-me profundamente. Agora, 20 anos depois, reencontrei no livro apenas prazer e desafios, nenhuma decepção. E, sobretudo, reencontrei outra Simone (e outra leitora em mim mesma).

Memórias de uma Moça Bem-Comportada destrói a imagem de Simone de Beauvoir como um ídolo. Simone passou para a história como uma revolucionária, uma rebelde, uma iconoclasta, um gênio. Para alguns, como uma mulher imoral, uma “devassa”. Para outros, como uma mulherzinha submissa. E ainda há quem veja nela apenas uma mulher confusa. É muito fácil colocar em seu rosto qualquer uma dessas máscaras. O tempo permite esse julgamento fácil. Simone nasceu há mais de 100 anos, afinal, e o que sabemos do mundo em que ela viveu, exceto o que está nos livros de história?

Nada. Mas podemos saber, por meio da leitura “madura” de suas memórias. Em minha leitura juvenil, eu não percebi que o comportamento burguês que ela criticava era justamente o que tolhe a liberdade. Também não tinha ideia de que as memórias de Simone eram memórias das mulheres de uma época, que ela escrevia não apenas a sua história, mas um testemunho histórico e político. Suas listas de leitura, os detalhes de sua vida cotidiana, suas dúvidas sobre o amor e a sexualidade eram um manifesto filosófico. Mas eu também não sabia disso.

Simone de Beauvoir descreve todas as inseguranças, as confusões, a ingenuidade, a sensação permanente de inadequação de uma mulher em sua época. Mostra como, na sociedade francesa do início do século 20, cada gesto, a cada palavra, cada olhar, cada ínfimo detalhe cotidiano era vigiado. Como as mulheres viviam oprimidas por uma palavra tão pesada e escura quanto uma nuvem carregada: moral.

Tudo, na vida de Simone, se dividia nas categorias de “moral” e “imoral”. Os critérios que definiam os sentidos dessas palavras eram a doutrina religiosa, no caso dela, católica. E a formação da intelectual que marcou sua juventude consistia em uma luta diária contra essas categorias. A moça bem-comportada estava em busca do que existe entre o moral e imoral. Para as mulheres de hoje, existe entre os dois polos uma infinidade de possibilidades. Para Simone e as mulheres de sua época, era um corredor muito estreito.

Voltarei ao livro em novos posts.

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