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Archive for setembro \25\UTC 2010

Em 1929, Simone de Beauvoir prestou o exame da agrégation em Filosofia (um concurso para admissão de novos professores no sistema público de ensino da França). Todos os candidatos passavam por uma bateria de avaliações: a elaboração de uma dissertação (a de Simone foi sobre Leibniz), um exame oral e a prova escrita, que naquele ano teve como tema “Liberdade e Contingência”.

Jean-Paul Sartre também fez o exame da agrégation em 1929. Mais velho do que Simone, ele fora reprovado no exame anterior na prova escrita, o que para toda a Sorbonne foi uma surpresa. Sartre sempre foi reconhecidamente “mais do que inteligente” e tinha dons de sedutor. Não deveria ser difícil para ele convencer os examinadores.

Em 1929, ambos foram aprovados. Sartre, em primeiro lugar. Simone, em segundo. Só que o feito dela era ainda mais impressionante para os “sorbonnianos”. Afinal, Sartre era um “repetente” e Simone, a mais jovem estudante a obter a agrégation até então.

Esses fatos podem parecer fofocas sobre o casal mais polêmico e incompreendido (ouso dizer também, invejado) do século XX. Mas sempre penso que não. Gosto de imaginar que, depois da prova daquele dia, como quaisquer estudantes de Filosofia, inteligentes e exaustos, lá foram os dois, amigos recentes, beber em um café e comentar o exame. O que haviam escrito? Por quê? Com base em que reflexões e pensadores? Ali eles começavam a trilhar juntos uma rota intelectual e afetiva que compartilharam em pensamento e vida.

Todos os escritos de Sartre são um diálogo com o paradoxo e a complementaridade entre Liberdade e Contingência. Pura Contingência cair aquele tema na prova. Mas diante dela, os dois filósofos se encontraram com a questão que os acompanhou em tudo o que escreveram.

Sartre foi exaustivo nas reflexões filosóficas sobre o tema. Simone o retoma em textos literários e ensaios. Tenho a impressão de que Simone traz as reflexões filosóficas ao nível de todos nós, ela abre o acesso ao debate que, em Sartre, é mais hermético. E acho que isso, vindo de uma filósofa, é manifestação de genialidade.

Para o existencialismo, a Contingência é a condição humana. Existimos na Contingência e a Liberdade consiste em transcendê-la, desenvolvendo nossas possibilidades.

Liberdade é ação, não algo dado, alguma dádiva que cai sobre nós e nos permite fazer tudo o que queremos. Haverá sempre uma Contingência – família, condição social, momento histórico – para nos impedir de fazer tudo o que queremos. E as inúmeras possibilidades de ação vão se reduzir a duas, três, dez que sejam. Em O Existencialismo é um Humanismo (download do pdf), Sartre explica isso de modo bem claro.

A Liberdade existencialista consiste em escolher comprometer-se com o mundo, sempre considerando como mais importante não aquilo que as Contingências fazem do indivíduo, mas o que ele pode fazer de si mesmo. A Contingência condiciona, mas não determina o que podemos ser. Portanto, somos livres, irremediavelmente livres. Essa é a dificuldade. Se a Contingência fosse apenas o fim da Liberdade, estaríamos para sempre escravizados pelo mundo e não haveria angústia, porque não teríamos escolha. A Liberdade é angústia porque implica em escolha.

Não sou filósofa e, por isso, esse é só um aperitivo limitado sobre o tema. Para pensar a Liberdade e a Contingência pela literatura, uma opção é ler a trilogia Os Caminhos da Liberdade ou o romance A Náusea, de Sartre. Mas melhor ainda é ler os romances de Simone.

Em Todos os Homens são Mortais (esgotado, mas você acha em sebos), ela cria um personagem imortal. Ele passa pela história, pela vida sem fim, enfrentando esse dilema entre Liberdade e Contingência. Ele sobrevive a tudo. Não há guerra, não há tragédia, não há dor de amor capaz de aniquilá-lo. A Contingência não o afeta. Ele é absolutamente livre. Ou será que não? Vou deixar o fim da história para você descobrir.

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Uma jovem que conheço, de 20 e alguns anos, quis saber de mim: “Por que ler Simone de Beauvoir nos dias de hoje?” Entendi que nessa pergunta estavam implícitas outras questões: “já que o feminismo já fez suas conquistas e já fracassou em muitos outros pontos, por que ler algo datado?”.  Talvez, algo mais simples: “será que todas as questões que ela coloca não estão ultrapassadas?”.

Na hora, pega de surpresa, disse apenas que, para entender o que as feministas de hoje dizem, é preciso ler Beauvoir. Uma resposta  óbvia.

O certo é que esse não é o principal motivo, nem o melhor, para ler Simone de Beauvoir hoje. Há muitos motivos melhores. Por exemplo: o fato de Simone, em suas memórias (Memórias de uma Moça Bem-ComportadaA Força da Idade, A Força das Coisas, Balanço Final) construir um verdadeiro testemunho da vida das mulheres em uma época de profundas transformações sociais (entre e pós-guerras) e de se expor em todas as suas fragilidades, revelando seu lado burguês, mimado, dependente. Simone, portanto, não pretende ser o que não é, e ler uma obra biográfica tão honesta é, em si, uma experiência fascinante.

Outro motivo: em toda sua obra, Simone reflete sobre a questão “Liberdade é compromisso”. Ninguém mais do que ela (nem Sartre) foi tão fundo nessa afirmação inquietante que confunde e amedronta “nos dias de hoje” mais do que no passado. Além disso, em seus livros Simone dá voz a três gerações de mulheres: a sua, a de sua mãe e a de suas alunas e amigas mais jovens. Por isso, muitas vezes ler Simone é entender o que nos liga a nossas mães, avós, filhas, sobrinhas…

Mas o principal motivo para ler Simone hoje, creio eu, é que ninguém como ela falou sobre a construção da mulher como “Outro”. E a categoria do “Outro” é essencial na cultura ocidental em qualquer tempo. Vivemos e nos reconhecemos em oposição ao Outro. Guerreamos e amamos por nossa relação com o Outro. Pensamos e agimos em reação ao Outro. E o Outro é aquele que é diferente sendo igual, que é inimigo estando dentro de mim, que é amigo sendo o meu oposto, mas sobretudo, que me coloca em perigo e alerta constantes. O Outro sou eu, também.

É sobre o Outro que falamos quando falamos de negros, judeus, ciganos, pobres, ricos, terroristas, filantropos, homens e mulheres. Ao mostrar como se construiu a mulher como Outro, Simone nos ajuda a pensar sobre como construímos tantos Outros em nosso cotidiano, ao longo da história, por meio de nossa cultura. Nenhuma questão é mais atual do que essa. (Considero esse o principal motivo pelo qual os homens também devem ler Beauvoir.)

Simone era uma escritora múltipla. Era filósofa, mas na boa tradição do pensamento francês, era também uma pensadora da cultura e da sociedade de sua época. Era romancista. Memorialista. Feminista. Então, cada faceta da escritora merece uma análise especial (já estou rascunhando novos posts).

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