Feeds:
Posts
Comentários

Archive for novembro \25\UTC 2010

Hoje, Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres, é o momento  para lembrar e defender todas as mulheres que foram e são vítimas de violência física ou psicológica por um fato simples: aprenderam, ao longo da vida familiar, escolar e social a serem mulheres. Sim, porque, segundo Simone de Beauvoir não nascemos mulheres, mas nos tornamos mulheres ao aprendermos comportamentos, formas de pensar e de agir em função de nosso gênero.

Quando Simone de Beauvoir nos diz que nos tornamos mulheres, ela fala de um processo que é moldado por uma violência oculta. Uma violência que se apresenta sob a forma de mitificação do “universo feminino”, da “feminilidade” e do “maternal”. Uma violência que se esconde sob palavras bonitas como “altruísmo”, “generosidade”, “sinceridade”, “dedicação”, “docilidade”, “passividade” e tantas outras que, ao mesmo tempo que escondem, naturalizam a violência contra a mulher. Uma violência que aprisiona a mulher na condição de “carinhosa”, “amorosa”…

Em O Segundo Sexo (pdf), Simone mostra como a identificação da mulher com tudo o que é singelo, pacífico, generoso, dócil e altruísta é, na verdade, uma forma de desautorizar completamente a autonomia feminina. É também um modo de destruir a capacidade da mulher se proteger de uma violência que mutila corpos e almas, que destrói sonhos e projetos de vida e que enreda famílias inteiras em um ciclo repetitivo: mães e filhas apanham (para dizer o mínimo) de pais e dos irmãos. Estes se tornarão pais um dia e espancarão, violentarão, humilharão suas esposas e filhas, ensinando às novas gerações que “se tornar mulher” é se submeter calada à violência, não se defender, não reagir e não denunciar.

As mulheres passam infância e adolescência, ainda hoje, aprendendo que sua existência se constrói para o homem e que devem ser carinhosas, submissas, atraentes para eles. Qualquer ação que possam tomar a favor de si mesmas e de sua integridade é considerada feia, máscula, reprovável. Enquanto as meninas estão lidando com uma infinidade de interdições, cujo objetivo é “domar” sua agressividade, os meninos estão sendo incitados a “não levar desaforo para casa”, “a defenderem sua honra”, a “pagarem na mesma moeda”… Ou, como diz Simone em O Segundo Sexo:

A mulher não tem geralmente acesso ao universo da violência; nunca passou pela prova que o rapaz enfrentou e superou através das brigas da infância e da adolescência: ser uma coisa de carne sobre a qual outro pode dominar; e agora ela é empunhada, arrastada a um corpo-a-corpo em que o homem leva a melhor; não tem mais a liberdade de sonhar, de recuar, de manobrar: está entregue ao macho que dispõe dela. (p. 121 de O Segundo Sexo, Volume 2 do pdf acima)

Os discursos repetitivos para homens e mulheres todas conhecemos. Mesmo que em nossas casas não tenham sido reproduzidos, são lugares-comuns de uma cultura machista que, de forma oculta e perniciosa, faz da mulher o alvo naturalizado da violência.

Contra toda afronta, contra toda tentativa de reduzi-lo a objeto, tem o homem o recurso de bater, de se expor aos golpes: não se deixa transcender por outrem, reencontra-se no seio de sua subjetividade. A violência é a prova autêntica da adesão de cada um a si mesmo, a suas paixões, a sua própria vontade, recusá-la radicalmente é recusar-se toda verdade objetiva, é encerrar-se numa subjetividade abstrata; uma cólera, uma revolta que não passam pelos músculos são coisas imaginárias. (p. 69, Volume 2)

Os homens aprendem a solucionar conflitos pela violência e as mulheres aprendem que a violência “é feia” e é “natural” apenas nos homens. E assim, eles são legitimados na posição de agressores e as mulheres, na posição de vítimas.

Neste dia pela eliminação da violência contra a mulher, talvez valha a pena questionarmos a reprodução dessa lógica no cotidiano, nos discursos, nas imagens, nas ações judiciais que desautorizam até mesmo o que está na lei, como acontece em casos de desrespeito à lei Maria da Penha.

Enquanto essa lógica persistir, a violência – seja ela física, sexual, psicológica, moral ou simbólica – contra a mulher também continuará existindo, se reproduzindo, mutilando, destruindo e matando.

___________

As blogueiras feministas estão empenhadas a discutir formas, causas e consequências da violência contra a mulher. Participe do debate, conheça os múltiplos fatores que fazem com que essa violência persista e insista.

___________
Saiba mais e mobilize-se: Diga não á violência contra a mulher – coloque seu nome na lista da UNIFEM Say no To Violence Against Women. No mesmo site você encontra fatos e números sobre a violência contra a mulher em todo o mundo e informações sobre o Dia da Ação Global contra o Militarismo e a Violência contra a Mulher, que acontece em 29 de novembro. A imagem acima eu emprestei do site de um post no site da Anistia Internacional.

Anúncios

Read Full Post »

Semana passada, entre uma correria e outra, passando por um sebo do Centro de São Paulo, vi um exemplar novinho de A Força das Coisas, terceiro volume da biografia de Simone de Beauvoir. É o livro em que ela revela a fase mais conturbada de sua vida, a pesquisa e elaboração de O Segundo Sexo, a perseguição que sofreu depois de publicado o livro, as viagens que fez à China, à Rússia, aos EUA, ao Brasil… Também os detalhes da França do pós-guerra e seus romances mais polêmicos

O livro estava novinho e pensei: “vou levar”. A edição que comprei está esgotada, é de 1995. Mas a nova edição, de 2010, também já se esgotou. Como já tenho o livro, decidi: vou sorteá-lo entre os seguidores de @Beauvoiriana no Twitter. Para concorrer, basta se tornar um seguidor e dar RT na mensagem da promoção.

O sorteio será realizado em 30/11/2010 pelo site http://sorteiospt.com e o livro será enviado pelo correio. Boa sorte!

Read Full Post »

Olga [aluna de Simone em Rouen, que mais tarde entraria para a rede de relações do casal Beauvoir-Sartre] mantinha-me a par de sua vida; falava-me de seus camaradas e perguntou-se de uma feita o que queria dizer ao certo judeu. Respondi com autoridade: “Não existe judeu; há apenas homens.” Ela contou-me mais tarde o êxito que tivera ao entrar no quarto do violinista [um dos amigos judeus de Olga, então com aproximadamente 17 anos] declarando: “Vocês não existem, meus amigos, foi minha professora de filosofia que disse.” Em numerosos pontos eu era – Sartre também, embora em  grau menor – deploravelmente abstrata. Conhecia a realidade das classes sociais, mas por reação contra as ideologias de meu pai, protestava quando me falavam de francês, de alemão, de judeu:  só existiam pessoas, singulares. Tinha razão de recusar o essencialismo. Já sabia a que abusos arrastavam noções como as de alma eslava, caráter judaico, mentalidade primitiva, eterno feminino. Mas o universalismo a que me ligava impelia-me para longe da realidade. O que me faltava era a ideia de “situação” que, só ela, permite definir concretamente conjuntos humanos sem os escravizar a uma fatalidade intemporal. Mas ninguém então [em termos teóricos], em se saindo da luta de classes, me fornecia isso.

Simone relata no trecho acima (trecho de A Força da Idade, pp 168-169, Nova Fronteira, 2010) o episódio, que aconteceu em 1935, e que já revelava a força do antissemitismo na Europa antes da Segunda Guerra Mundial. Aos 27 anos, ela não tinha uma forte percepção da política e buscava adaptar o pouco que conhecia pelos jornais a sua visão universalista do mundo e da liberdade. Naquele momento ela  percebeu que ao conceito de “essência” precisava contrapor o de “situação”, para poder refletir sobre a condição dos grupos, das minorias, e sobre o preconceito (em geral justificado pela ideia de uma essência inerente a alguns grupos).

Read Full Post »

Amor e liberdade. Os ideais que inspiraram o amor entre Simone de Beauvoir (1908-1986) e Jean-Paul Sartre (1905-1980) não poderiam ser mais românticos. Ainda que, provavelmente, eles não gostassem de ouvir isso.

Não digo isso para ofender ou desautorizar a mais comentada e mal-falada história de amor do século 20. Apenas acredito que, ao fugirem dos estereótipos, expectativas e padrões, eles construíram um grande sonho, e há algo mais romântico do que viver um sonho? Se amor pleno e liberdade absoluta são duas grandes utopias, o projeto do casal de unir esses dois ideais numa relação afetiva foi um desafio a todos os valores de sua época. Eles venceram o desafio.

Muito se disse sobre o casal durante os últimos 80 anos, e muito mais se especulou. O livro Tête-à-Tête (de Hazel Rowley, Objetiva), publicado no Brasil em 2006, é o primeiro relato detalhado dessa história que procura se ater aos fatos e desvendar as especulações. Para escrevê-lo, a biógrafa mergulhou na correspondência do casal, nos diários, ensaios e romances que ambos escreveram e em cada carta, cada entrelinha, descobriu que, na juventude, Simone e Sartre formavam apenas mais um casal apaixonado. Do início do “namoro” à morte de Sartre, eles nunca deixaram de se amar, embora a atração física e o sexo talvez nunca tenham sido o centro dessa relação.

Menos paixão e mais audácia talvez tenha sido a receita de Simone e Jean-Paul. Um amor que já partiu de uma premissa corajosa: a de que existem amores necessários e outros, contingentes. Entre Simone e Jean-Paul, o que havia era um amor necessário. Dele, não poderiam escapar. Quanto aos amores contingentes, eles não queriam deixá-los escapar.

O pacto de compromisso que firmaram entre si era, em tudo, o oposto do casamento. A primeira regra: falar tudo um ao outro. Tudo sobre si mesmos. Tudo sobre os outros. Principalmente sobre os sentimentos que tinham pelos outros, mesmo que isso significasse crises de ciúme, demonstrações mútuas de desinteresse e tédio, dores provocadas pela dependência, conflitos. Segunda regra: a dedicação completa de um ao outro, apoio mútuo, mesmo nos momentos em que discordavam.

Uma relação íntima
Na prática, eles estavam juntos, mas nunca se casaram (embora tenham chegado muito próximo de se casarem com outras pessoas); respeitavam-se, mas nunca deixaram de causar constrangimentos e sofrimentos um ao outro em nome de sua liberdade; declaravam-se apaixonados até a morte, mas tiveram vários amantes, alguns deles em comum (o que significa que pelo menos um deles – até onde o livro consegue chegar, apenas Simone – se envolveu em casos homossexuais).

A Europa do entre guerras e das relações formais, dos casamentos por interesse e da luta de classes não estava preparada para aceitar toda essa ousadia amorosa. Em uma sociedade em que Simone era uma das raras professoras de Filosofia, em que as mulheres não podiam entrar desacompanhadas em um café, e em que o casamento era um imperativo, os dois chocaram a todos. Para amenizar o choque, dizia-se que eles viviam uma “relação aberta”, eufemismo para o que era entendido como pura promiscuidade.

É um erro comum dizer que eles viviam uma “relação aberta”. Um erro que talvez demonstre que ainda hoje não é fácil conceber e aceitar uma relação como a deles. O que eles viviam era uma relação íntima e secreta, cuja dinâmica só podemos remotamente vislumbrar. O resto fica por conta das fantasias de cada geração.

Hazel Rowley revela que eles viviam uma união rara que superava o amor e resvalava para a construção de um pensamento filosófico consistente e desafiador: o existencialismo. Queriam mostrar para o mundo que a liberdade é, sim, o valor principal da existência e que a partir dela, homens e mulheres constroem suas histórias, como indivíduos, como casais, como seres políticos. Cada um de nós é resultado das próprias escolhas e responsável por elas, como mostra Sartre em seus escritos filosóficos, entre eles O Existencialismo é um Humanismo (1946, pdf aqui).

Talvez, mais do que a história de amor, tenha sido essa completa aceitação da liberdade e a vivência livre levada ao limite que tenha chocado à Europa e que choque a muitas pessoas ainda hoje. Em cada uma de suas escolhas, Sartre e Beauvoir foram completamente livres, mesmo que isso significasse enfrentar todos os demônios internos e a condenação da sociedade. Mesmo que isso significasse errar e mais à frente, assumir o erro.

O “rival” de Sartre

De todas as escolhas que fizeram no amor, talvez a mais polêmica e incompreendida tenha sido a recusa de Simone de Beauvoir em se casar com o escritor norte-americano Nelson Algren. Eles se conheceram em 1947, na primeira viagem de Simone aos EUA, e se apaixonaram. O amor era intenso e correspondido. Jean-Paul tinha uma amante por quem também estava envolvido. Qual o obstáculo para o casamento?

Simone não tinha dúvidas de que, entre todas as pessoas com quem se envolveu, Nelson era o único que poderia ser amado por ela tanto quanto Sartre. Entretanto, disse a Algren que não poderia trair o compromisso que tinha com Sartre e recusou o pedido de casamento.

Até hoje, ela é incompreendida por essa recusa. Como sacrificar uma paixão por uma relação em que já não havia sexo, envolvimento amoroso, romantismo? Muitos leem nessa decisão de Simone uma submissão a Jean-Paul Sartre. Outros consideram que, ao abrir mão do casamento, ela traiu o amor de Algren. Há ainda os que dizem que seu “existencialismo” a impedia de viver uma relação afetiva cheia de romantismo.

As cartas de Simone a Nelson provam que ela era romântica e apaixonada. Mas não quis subordinar sua liberdade a outra pessoa, ao modo tradicional de viver um romance. E sempre me pergunto se existe maior romantismo do que abrir mão de tudo para viver um amor fora dos padrões e das tradições.

É bem provável que Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, em seus tempos de juventude, me desprezassem por dizer que seu amor era romântico. Sua maturidade foi toda dedicada a reafirmar os valores que pregou, mas também a uma autocrítica sem piedade. Ela tinha consciência de que muitas das atitudes que adotou, com ou sem Sartre, eram os mesmos velhos valores da sociedade burguesa, apenas vestidos com as roupas da ousadia e da juventude.

*Quis escrever sobre o amor de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre depois de ver o filme José e Pilar de Miguel Gonçalves Mendes. Os casais são totalmente diferentes, e talvez por isso essa vontade. O título é uma subversão do ensaio mais famoso de Jean-Paul Sartre. Uma leitura deliciosa.

Read Full Post »

%d blogueiros gostam disto: