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Archive for dezembro \08\UTC 2010

O trecho abaixo conclui a primeira parte de A Força da Idade, segundo livro de memórias de Simone de Beauvoir. Após refletir sobre seu amadurecimento intelectual, Simone reconhece sua alienação e se vê desafiada ao engajamento político. Uma mudança provocada pelo início da Segunda Guerra Mundial. Antes de falar sobre a guerra, Simone faz uma análise de si mesma e de sua trajetória de vida dos 20 aos 30 anos e das críticas que recebeu por O Segundo Sexo. Um trecho de honestidade intelectual invejável, que ela escreveu em 1960.

Sei que lendo esta biografia certos críticos vão triunfar: dirão que desmente brutalmente O Segundo Sexo, já o disseram a propósito de minhas memórias. É que não compreenderam meu velho ensaio e talvez mesmo dele falem sem o ter lido. Escrevi porventura algum dia que as mulheres eram homens? Pretendi não ser uma mulher? Meu esforço foi, ao contrário, o de definir em sua particularidade a condição feminina que é minha. Recebi uma educação de moça; terminados meus estudos, minha condição continuou a ser a de uma mulher no seio de uma sociedade em que os sexos contituem duas castas nitidamente separadas. Em numerosas circunstâncias, reagi como a mulher que era.

Por razões que expus precisamente em O Segundo Sexo, as mulheres, mais do que os homens, experimentam a necessidade de um céu por cima da cabeça; não lhes deram essa têmpera que faz os aventureiros, no sentido que Freud dá à palavra; elas hesitam em discutir a fundo o mundo, como hesitam também em aceitá-lo. (…) Viu-se entretanto que eu atribuía pouca importância às condições reais de minha vida: nada travava a minha vontade, pensava. Não negava a minha feminilidade; não a assumia tampouco. Não pensava nela. Tinha as mesmas liberdades e as mesmas responsabilidades que os homens. A maldição que pesa sobre a maior parte das mulheres – a dependência – foi-me poupada. Ganhar a vida não é em si um fim, mas somente assim se alcança uma sólida autonomia interior. (…)

Sei hoje que, para me descrever, devo dizer primeiramente: “Sou uma mulher”; mas minha feminilidade não constituiu para mim nem um incômodo nem um álibi.

Simone de Beauvoir em A Força da Idade, páginas 363-364. Nova Fronteira, 2010.

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