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Archive for janeiro \28\UTC 2011

Uma das grandes forças deste documentário de 2007, dirigido por Virginie Linhart, é mostrar por que o livro O Segundo Sexo é também dirigido aos homens, não apenas às mulheres. O vídeo, em cinco partes, traz entrevistas com conhecidas estudiosas da obra de Simone de Beauvoir na França, como Élisabeth Badinter e Danièle Sallenave, além de contar em detalhes como o fato de ela ter escrito o livro foi uma superação individual do determinismo de classe e de gênero. Em francês, com legendas em espanhol, o documentário é ainda mais profundo do que os vídeos que postei anteriormente. (Na verdade, muitos dos trechos daqueles vídeos foram tirados daqui.)

 

 

Nesta segunda parte, gostei particularmente de descobrir que o filósofo François Noudelmann pensa o mesmo que eu sobre a velha história de Jean-Paul Sartre ter sido aprovado em primeiro lugar na agrégation de 1929 e Simone de Beauvoir, em segundo. O trecho está bem no início do vídeo, que também traz Sylvie Le Bon de Beauvoir, a filha adotiva de Simone, comentando uma frase deste trecho de A Força da Idade, sobre o amor com Sartre.

 

 

No trecho abaixo, destaque para o amor de Simone e Nelson Algren (do qual falei um pouco neste texto) e o engano de algumas interpretações que tentam reduzir toda a vida da escritora e filósofa ao que ela manifestou em suas cartas para ele.

 

 

No quarto vídeo, Judith Butler comenta a tradução inglesa do livro:

 

 

Na quinta parte, destaque para a análise de Élisabeth Badinter.

 

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Esta é a primeira foto do casal Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre. Foi feita em 1929 e pode-se dizer que a fotógrafa é a própria Simone, já que essa era uma das atrações da feira de Porte d'Orleans nos anos 1920: o fotografado atirava em um alvo que, quando atingido, disparava a máquina fotográfica. Como recompensa pelo desempenho, as pessoas ganhavam a foto. Voilà!

Muito se especula sobre as relações amorosas entre Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre. Há quem compreenda, há quem critique, há quem inveje, há quem nunca conseguirá entender, há quem não tente, porque o caráter único desse amor desestabiliza todas as certezas e todas as ideias feitas sobre os relacionamentos.

Eu tenho minha opinião. Mas acho que o melhor, mesmo, é deixar Simone contar essa história aqui. Em A Força da Idade, ela revela como, em 1929, pouco depois de eles se conhecerem, Sartre fora designado para cumprir o serviço militar em Tours, a 200 quilômetros de Paris, a partir do ano seguinte, por 18 meses. Depois, ele havia solicitado um posto como professor de francês no Japão, onde, se aceito, ficaria dois anos.

O resto da história, nas palavras de Simone:

‘Entre nós’, explicava-me [Sartre] utilizando o vocabulário que lhe era caro, ‘trata-se de um amor necessário: convém que conheçamos também amores contingentes’. Éramos de uma mesma espécie e nossa compreensão duraria tanto quanto nós mesmos, mas ela não podia suprir as riquezas efêmeras dos encontros com seres diferentes; como consentiríamos deliberadamente em ignorar a gama dos espantos, das saudades, dos remorsos, dos prazeres que éramos também capazes de sentir? Refletimos longamente sobre isso durante nossos passeios. Uma tarde, com os Nizan, fôramos ver, no Champs-Élysées, Tempestade sobre a Ásia e, depois de os termos deixado, descêramos a pé até os jardins do Carrousel. Sentamos num banco de pedra ao lado de uma das alas do Louvre. Como encosto havia uma balaustrada separada do muro por um espaço estreito: nessa gaiola, um gato miava; como se metera ali dentro? E era grande demais para sair. A noite caía e uma mulher aproximou-se com um saco de papel nas mãos: tirou de dentro restos de comida e os deu ao gato, acariciando-o com ternura. Foi nesse momento que Sartre propôs: ‘Façamos um contrato de dois anos.’ Eu podia arranjar-me em Paris durante esses dois anos e viveríamos na intimidade mais estreita possível. Depois, ele me aconselhava a solicitar, eu também, uma situação no estrangeiro. Ficaríamos separados dois ou três anos e voltaríamos a nos encontrar em algum lugar do mundo, em Atenas, por exemplo, para retomar durante um tempo mais ou menos longo uma vida mais ou menos em comum. Nunca seríamos estranhos um ao outro, nunca um de nós apelaria ao outro em vão, e nada prevaleceria sobre essa aliança; mas era preciso que não degenerasse em constrangimento, em hábito; devíamos preservá-la por todos os meios desse apodrecimento. Aquiesci. A separação que Sartre encarava não deixava de me assustar, mas esboçava-se ao longe, e eu adotara como regra não me preocupar com problemas antecipados; contudo, à medida que o medo me assaltava, eu o encarava como uma fraqueza e esforçava-me por diminui-lo; o que me ajudava é que já comprovara a solidez das palavras de Sartre. Com ele, um projeto não era conversa fiada, e sim um momento de realidade. Se me dissesse um dia: ‘Encontro-a daqui a vinte e dois meses, exatamente às dezessete horas, na Acrópole’, poderia estar certa de que o encontraria na Acrópole às dezessete horas exatamente vinte e dois meses depois. De um modo mais geral, sabia que nenhuma desgraça vinda da parte dele me ocorreria, a não ser que morresse antes de mim.

Quanto às liberdades que nos tínhamos teoricamente concedido, não se tratava em absoluto de usá-las durante o período do ‘contrato’; entendíamos entregar-nos sem reticência e sem partilha à novidade de nossa história. Fizemos outro pacto: não somente nenhum de nós nunca mentiria ao outro, como também não lhe esconderia nada.

(…)

Enfim, nenhuma máxima atemporal impõe a todos os casais uma perfeita translucidez: cabe aos interessados decidirem que gênero de acordo desejam atingir; não têm nem direitos nem deveres a priori. Na minha adolescência, eu afirmava o contrário: inclinava-me demasiado a pensar que o que valia para mim valia para todos.

Hoje, em compensação, irrito-me quando terceiros aprovam ou censuram as relações que estabelecemos, sem levar em conta a particularidade que as explica ou justifica: esses sinais gêmeos em nossas frontes. A fraternidade que soldou nossas vidas tornava supérfluos e irrisórios todos os laços que teríamos podido forjar. Para que, por exemplo, morarmos sob o mesmo teto se o mundo era nossa propriedade comum? E por que recear distâncias entre nós que nunca poderiam nos separar?

A Força da Idade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010. pp.29-31

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Estes vídeos do programa Arquivo N, da Globonews, são preciosos. Não apenas por contar a história, recuperar fotos, reproduzir trechos obrigatórios de O Segundo Sexo e retratar a importância e a má recepção que teve o livro.

O programa reuniu vários trechos de entrevistas concedidas por Simone de Beauvoir na França, imagens raras e cenas de uma conversa/entrevista que ela fez com Sartre. Acho que os vídeos só pecam por apresentar uma análise superficial de O Segundo Sexo e por reproduzir uma reportagem da TV francesa de 1971 totalmente ideológica.

Mas, antes de pensar nisso, vejam com que desapego Simone reconta sua história, a mesma que ela registrou em seus livros de memórias. E, principalmente, aproveitem a  oportunidade de ver Simone de Beauvoir e de ouvir sua voz. É emocionante.

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Se um dia eu pudesse conversar com Simone de Beauvoir – e quem visita o blog já percebeu que essa não é uma ideia que me passe pela cabeça raramente –, eu teria uma longa conversa com ela sobre Veneza. É que Simone não gostava de Veneza tanto quanto de outras cidades e chega a dar a entender em A Força da Idade, que preferia Nápoles. Justo Veneza, a cidade de onde eu vim e a cidade para onde eu vou, o lugar onde não sou estrangeira… E se eu falasse de Veneza para Simone acho que falaria assim bonito como fez Borges, na tentativa de convencê-la de que aquele lugar é especial.

Canal Grande, Veneza. Foto: Beauvoiriana.

No ano de 1933, Simone e Sartre visitaram a Itália pela primeira vez. Passaram por Roma, Milão e Veneza, que Sartre gostou muito mais do que Simone. Ele, inclusive, tem um belo livro com a cidade como cenário, O Sequestrado de Veneza, e outro, inacabado, que começou a escrever lá. Talvez Simone não gostasse tanto de Veneza porque a cidade não lhe trazia só boas lembranças. A chegada, pela primeira vez, à cidade, foi marcante:

Saindo da estação, olhei com estupor os viajantes que davam aos gondoleiros o endereço do hotel, iam instalar-se, abrir as malas, arranjar-se. Eu esperava que essa ponderação nunca fizesse parte de seu quinhão. Largamos a bagagem no depósito e andamos horas, vimos Veneza com esse olhar que nunca mais se torna a ter: o primeiro. Pela primeira vez contemplamos a Crucificação, de Tintoretto. Foi também em Veneza, perto da ponte do Rialto, que vimos pela primeira vez um agente da SS de camisas pardas; eram diferentes dos pequenos fascistas morenos: muito grandes, de olhos vazios, marchavam a passos duros.
(A Força da Idade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010, p.158.)

Estação de trem de veneza. Foto: Beauvoiriana.

A Segunda Guerra se anunciava e a visão do agente da SS era apenas um dos sinais disso. Em 1935, entretanto, eles voltaram a Veneza, e foi quando aconteceu a cena mais memorável do casal por lá. Simone estava preocupada porque Sartre não estava bem. Ele sofria alucinações assustadoras. Mas eles queria rever Veneza, e isso rendeu uma bela descrição do amanhecer na cidade escrita por Simone:

Lá ficamos quatro ou cinco dias e decidimos, como dois anos antes em Roma, varar uma noite inteira. Para evitar vínculos e por economia, pagamos o hotel e entregamos o quarto: não tínhamos mais um canto nosso na cidade. Andamos de café em café até fecharem, sentamo-nos nos degraus da praça São Marcos, caminhamos ao longo dos canais. Silêncio total: no largo ouvia-se, através das janelas abertas, a respiração das pessoas que dormiam. Vimos o céu clarear por cima das Fundamente Nuove; entre o cais e o cemitério, barcas largas e chatas deslizavam como sombras pelas águas da laguna; homens gingavam nas proas: traziam legumes e frutas de Murano, de Burano, das ilhas e das praias. Voltamos pelo centro da cidade; nos mercados, à beira do Grande Canal, iniciavam-se os negócios em meio à profusão das melancias, das laranjas, dos peixes, enquanto o dia se firmava; abriram-se os cafés, as ruas se encheram. Fomos, então, arranjar um quarto para dormir. Sartre disse-me mais tarde que durante toda essa noite uma lagosta o seguira.
(A Força da Idade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010, p.274.)

 

Campanário de San Marco à noite. Foto: Beauvoiriana.

Simone e Sartre voltaram ainda a Veneza muitas vezes. Num desses retornos, em junho de 1953, quando viajavam separadamente – Simone estava com Claude Lanzmann -, eles apenas se encontraram na cidade. Em julho de 1973, quando estavam hospedados em hotéis separados, se viam todas as manhãs na Piazza San Marco, depois caminhavam pelo Campo Santo Stefano lentamente e, às vezes, almoçavam juntos no Harry’s Bar.

Sob a Ponte de Rialto em uma manhã de chuva. Foto: Beauvoiriana.

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Se você gostou deste post, talvez também goste do primeiro texto da série “As Cidades de Simone”: Nida, Lituânia.

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Simone de Beauvoir, aos 42 anos. Chicago, 1950. Foto: Art Shay.

Esta foto de Simone de Beauvoir causou polêmica assim que veio a público, em 2005, no livro Tête-à-Tête, de Hazel Rowley. Acredito que pelo motivo óbvio: vemos a imagem com um olhar “informado” pelo feminismo e saturado de imagens de mulheres transformadas em objeto pela exposição de seus corpos nus, modelados para serem vendidos em capas de revista e programas de tevê. E então, imediatamente, enxergamos na foto uma contradição: como compreender que a grande “mentora” do feminismo se exibisse assim?

As teorias que surgiram sobre a foto na época foram as mais mirabolantes. Compararam Simone às garotas da Playboy, o que por si só já é problemático, pois a revista surgiu em 1953 e a foto é de 1950. Outros consideram a foto uma demonstração de que Simone não era tão feminista quanto se dizia, o que é outro argumento deslocado no tempo: em 1950, Simone ainda não era ou se considerava feminista. Ela só aderiu ao feminismo em fins dos anos 1960. Há ainda quem veja na fotografia uma submissão de Simone, mas quem diz isso certamente não não conhece sua relação com a liberdade.

Como esses, outros argumentos tentam utilizar a foto para apontar em Simone uma contradição irreconciliável com o feminismo e com seu próprio pensamento. Entretanto, e para desgosto de quem tenta tirar de Simone alguma base para seu machismo, acho que a história por trás da foto é muito simples.

Primeiro, vamos aos fatos: em 1950 Simone de Beauvoir vivia seu romance com Nelson Algren. O romance se iniciou em 1947, em sua primeira viagem aos Estados Unidos. Logo após o lançamento de O Segundo Sexo (1949), Simone foi duramente criticada, perseguida e caluniada na Europa. Decidiu sair de Paris e visitar Algren, que morava em Chicago, em uma casa que não tinha facilidades tais como chuveiros. Era verão. Uma tarde, ela quase se afogou no lago em que eles costumavam se banhar.

A foto foi feita em um daqueles dias quentes pelo fotógrafo Art Shay, amigo de Algren, que levou Simone à casa de um outro amigo para que ela pudesse tomar um banho. Nessa casa havia uma banheira, luxo supremo e seguro para quem quase morreu nadando.

Sobre aquele instante, o próprio Art Shay escreveu, e a história foi reproduzida por Hazel Rowley no livro: “Ela havia tomado seu banho. Depois, enquanto ela se arrumava na pia, tive um súbito impulso. Ela sabia que eu a havia fotografado, porque ouviu o clique de minha confiável Leica Model F. ‘Homem travesso’, disse ela.” (Art Shay fala mais sobre a foto neste texto.)

Simone não foi totalmente surpreendida pela fotografia. Ela também não se deixou fotografar nua sem protestar. E, mais ainda, Simone não fez da foto uma mercadoria. Era um momento íntimo e alguém que ela conhecia fez uma foto. O que pode haver de contraditório ou errado nisso?

Ela produziu uma foto juntamente com o fotógrafo. Ela, que acabara de escrever e publicar o primeiro volume de um livro sobre a mulher no qual falava sobre sexualidade, sobre o corpo humano, e sobre como a cultura constrói esse corpo moralmente, lançando sobre ele um peso que ele não tem, encerrando-o em uma redoma na qual ele não cabe e à qual ele não se ajusta. Simone desnudou sua vida em palavras em suas memórias. Desnudou seu pensamento em seus ensaios e romances. A foto de Simone nua é apenas a reafirmação de seu corpo e de sua presença no mundo. Até porque são ambos a mesma coisa.

A presença no mundo implica rigorosamente a posição de um corpo que seja a um tempo uma coisa do mundo e um ponto de vista sobre esse mundo: mas não se exige que esse corpo possua tal ou qual estrutura particular.

(O Segundo Sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009. Volume único, primeira parte, pg. 39.)

Creio que é tudo assim, muito simples. Mas dou a essa foto uma interpretação muito particular, atribuindo-lhe uma intencionalidade que ela certamente não tem, mas com a qual me divirto. Imagino Simone dando as costas para um mundo que condena pessoas por seu pensamento, por sua liberdade, e por seus corpos femininos. Ela lhe dá as costas, mas esse mundo não consegue deixar de olhá-la. Porque ela se tornou, em corpo e em pensamento, estonteante para quem vivia ou ainda vive de moralismos, hipocrisias e meias verdades.

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Simone de Beauvoir amava viajar. Sartre também. E muitos pontos altos dos escritos de ambos são relacionados a suas viagens. Em suas memórias, principalmente, mas também em ensaios e nas ambientações de seus romances, eles descrevem diversos lugares que conheceram. Estados Unidos, China, Rússia, Itália, Espanha…

Na juventude, como eles sobreviviam com salários de professores e enfrentaram uma época não muito próspera da economia europeia, viajaram pelo interior da França e pela Espanha, Itália e Alemanha em esquemas econômicos que incluíam acampar, dormir em celeiros, em hotéis de quinta, e até em sacos de dormir, na beira de estradas. Iam de um lugar a outro de trem, de ônibus, de carona, de bicicleta, ou, na falta de melhor opção, a pé. Simone relata todas essas aventuras, das quais ela era bem mais adepta do que Sartre, em A Força da Idade. Depois, quando se tornaram escritores reconhecidos, já podiam fazer algumas pequenas extravagâncias e, além disso, passaram a ser convidados por universidades, governos e instituições políticas de esquerda para palestras e eventos, o que lhes rendeu muitas novas viagens, já com mais conforto, e outros tantos relatos.

Pensando no fascínio de Simone pelas viagens, decidi iniciar a série de posts chamada “As cidades de Simone”. Mas escolhi para iniciar a série uma cidade sobre a qual não conheço ainda nenhum relato de Simone de Beauvoir. Nida, na Lituânia.

Escolhi esse destino apenas porque considero as fotos da viagem lindas. (Sei que Simone fala sobre essa viagem no quarto volume de suas memórias, Balanço Final, que eu ainda não li).

Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre foram convidados pelo governo lituano a visitar o país por uma semana, em 1965. A viagem aconteceu em julho daquele ano. Anexada à União Soviética em 1940, a Lituânia não era exatamente um lugar em que a liberdade de ir e vir era garantida. A viagem de Simone e Sartre foi cuidadosamente preparada e monitorada. Creio que eles só receberam o convite porque eram bastante alinhados, em especial Sartre, com o projeto socialista.

Sartre e Simone foram acompanhados quase 24 horas por dia por um fotógrafo: Antanas Sutkus. As fotos que ele fez da viagem são muito bonitas (no link vocês poderão ver outras imagens, ele é mesmo um grande fotógrafo). Gosto especialmente desta, que mostra Simone, então com 57 anos, descalça, dançando na areia como uma criança.

Pés descalços e liberdade. Foto: Antanas Sutkus, 1965

Segundo a revista Lithuania in the World, que entrevistou Sutkus, Sartre era lacônico e Simone de Beauvoir, cordial e calorosa. O fotógrafo também revelou que teve uma preocupação especial em retratar os dois intelectuais de um modo genuíno, que revelasse aspectos da psicologia de cada um. Particularmente, acho que ele fez isso muito bem.

Os intelectuais de Paris, desajeitados nas dunas de Nida. Foto: Antanas Sutkus, 1965.

Nida é uma cidade de praia, com belas dunas, e os cosmopolitas Simone e Sartre são vistos nas fotos, ao mesmo tempo, como totalmente deslocados do ambiente e encantados com ele. Sutkus contou à revista lituana que Sartre comparou a cidade com o paraíso e disse: “Esta é a primeira vez que caminho sobre as nuvens”.

Pegadas na areia. Foto: Antanas Sutkus, 1965.

A intérprete deles na viagem era Lena Zonina, agente secreta russa, com quem Sartre teve um romance na época. Ela aparece na foto abaixo ao lado de Simone. Ainda segundo o relato de Sutkus, durante toda a viagem, Zonina parecia querer imitar as roupas e o jeito de Simone [vejam a foto abaixo e decidam], e evitava ser fotografada com o casal. Mas para quem adoraria relatos de cenas de ciúmes entre ambas, uma decepção: elas se davam bem.

Sartre, Zonina e Simone na chegada ao aeroporto de Vilnius. Foto: Antanas Sutkus, 1965.

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Depois de reler Memórias de uma Moça Bem-Comportada, mergulhei na releitura do segundo volume da autobiografia de Simone de Beauvoir. A Força da Idade, publicado originalmente em 1960, é, para mim, uma das obras mais interessantes e intensas da autora, pelas reflexões sobre a relação entre o indivíduo e a sociedade. Esse aspecto da obra é uma consequência natural do período da vida de Simone que o livro retrata.

O ano de 1929, no qual Simone interrompe Memórias e inicia A Força da Idade foi um ano de consolidação de uma etapa de sua vida: a estudante, aspirante a escritora, cercada dos colegas da Sorbonne, ainda vivendo na casa dos pais, dependente deles financeiramente, deixa de existir. Ela iniciara seu relacionamento com Sartre. Aprovada no exame de agrégation, Simone tinha agora a perspectiva de se sustentar e, enquanto isso não acontecia, ela e Sartre tinham uma pequena herança dele para gastar. Mas a aprovação também significava o fim de sua antiga rede de relações, da companhia de seus amigos e colegas, cada um seguindo um destino diferente, e muitos deles saindo de Paris.

Nos braços do mundo

Por todas essas transformações, a protagonista de Memórias de uma Moça Bem-Comportada ficou para traz. No primeiro volume das memórias, Simone nos conta seus sonhos de menina e de jovem, dedica-se a explorar o desabrochar de seu desejo de deixar sua marca no mundo escrevendo. Em um tom pessoal e, por vezes, nostálgico, ela nos fala de suas leituras, amizades, da descoberta do amor e da sexualidade, de suas angústias. Ali desvendamos os caminhos percorridos pela menina que, aos 13 anos, decidiu que seria escritora.

Em A Força da Idade, essa moça deixa de ser essa estudante bem-comportada para se jogar no mundo, nas viagens, na descoberta de uma nova maneira de amar, nas suas primeiras aulas, na admiração das alunas, na formação de sua primeira tríade amorosa (entre ela, Sartre e Olga Kosakiewicz). No livro, reencontramos Simone para acompanhá-la não apenas em suas lembranças, mas em uma jornada: seu amadurecimento pessoal e, principalmente, intelectual. E essa jornada começa com uma linda descrição de sua chegada à cidade de Marseille, em 1931, para onde foi nomeada em sua primeira colocação como professora de filosofia. A descrição começa revelando que aquele era um momento de mudança:

Lembro-me de minha chegada a Marseille como se ela houvesse assinalado em minha história um caminho inteiramente novo. (A Força da Idade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010, p. 94.)

A partir desse momento da leitura do livro, nos transformamos em testemunhas da vida de Simone, não apenas em leitores de suas memórias. Ela relata, com profunda honestidade intelectual, a transformação de Simone e Jean-Paul, aspirantes a intelectuais, burgueses e alienados, nos intelectuais engajados Simone de Beauvoir e Sartre. Revisitamos os planos e projetos intelectuais de ambos, as leituras e novas ideias que começavam a elaborar, o encantamento de Sartre com a Fenomenologia, escola filosófica que abriu seu olhar para as questões que elaborou depois no Existencialismo.

Contexto histórico

Esse processo, que já seria interessante por si só, torna-se ainda mais complexo, cheio de nuances e revelações para o leitor porque acontece em determinadas condições históricas: os desdobramentos da crise econômica de 1929, iniciada nos EUA e que afetou a economia de todos os grandes países, a Guerra Civil Espanhola e a ascensão do nazismo na Europa. Visitamos a história sob o olhar de Simone – e, em alguns momentos, de Sartre – e aos poucos entendemos como as forças políticas se organizavam na direção da Segunda Guerra Mundial.

A transformação de Sartre e Simone em intelectuais engajados não é determinada apenas pela guerra. Múltiplos fatores contribuem para isso: o amadurecimento pessoal, o trabalho, o contato com outras correntes de pensamento, as novas relações com pessoas alinhadas com o comunismo, a percepção de como a política afeta a vida cotidiana, o contato com a realidade da classe trabalhadora. Em um dos trechos marcantes, Simone relata seu horror ao visitar uma indústria e perceber ali a degradação das operárias.

A segunda parte do livro é toda dedicada ao período de 1939 a 1944. E é então que o livro cresce em intensidade. Inicialmente contra a guerra, Simone começa concebê-la, assim como Sartre, como a única arma para derrotar o fascismo. O conflito é inevitável e os dias que antecedem 1º de setembro de 1939 são tensos, incertos, angustiantes.

Guerra e luta

Declarada a guerra, todas as emoções e reflexões se tornam mais exacerbadas. Sartre é convocado. Os parceiros se separam e a angústia aumenta: sem notícias, Simone espera e sofre. A separação de Sartre, a insegurança, a fuga de Paris ocupada e o retorno, a sobrevivência sob a ocupação, o reencontro com Sartre, o racionamento e as dificuldades econômicas, a morte de amigos… O relato que Simone nos faz da guerra é um verdadeiro registro histórico, rico em detalhes, fatos, experiências. Tudo isso sem deixar de lado muitas curiosidades sobre momentos aparentemente irrelevantes do cotidiano, como por que começou a usar turbantes, como desenvolveu seus talentos de cozinheira, como os títulos de seus livros e das obras de Sartre foram escolhidos.

É durante os anos de guerra que Simone vive também uma luta interna, que culmina com a escrita e a publicação de seu primeiro romance: A Convidada (1943).

A descrição que a autora faz do processo de criação e de sua relação com a literatura em A Força da Idade é reveladora e instigante. Simone analisa seus próprios textos da época, reflete sobre o que, em 1960, considera as forças e as fragilidades de seus escritos e faz ainda observações sobre como sua autobiografia pode ser mal interpretada por seus críticos. [Um dos trechos dessas observações você pode ler aqui.]

Rico em detalhes e descrições do modo de vida de Simone e Sartre entre 1929 e 1945, o livro mistura narrativa de fatos cotidianos e relatos de viagens, dos costumes dos intelectuais franceses de esquerda da época e das redes de relações que estabeleciam entre si com belíssimas reflexões sobre a guerra, as relações humanas, o amor, a amizade, o modelo de relacionamento que ela e Sartre construíram, a paz, a literatura e a morte.

Para quem espera encontrar no livro tudo o que Simone viveu naqueles anos, entretanto, fica uma advertência da própria autora, anunciada já no Prólogo:

(…) não pretendo dizer tudo. Contei minha infância e minha juventude sem nada omitir; mas se pude sem embaraço nem demasiada indiscrição pôr a nu meu longínquo passado, não experimento em relação à minha idade adulta o mesmo desapego, não disponho da mesma liberdade. Não se trata aqui de tagarelar acerca de mim mesma e de meus amigos; não gosto de intrigas. Deixarei resolutamente na sombra muitas coisas. (A Força da Idade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010, p. 12.)

Um dos aspectos do período que Simone deixa na sombra: o relacionamento amoroso entre ela, Sartre e Bianca Bienenfeld (ou Bianca Lamblin). Mas essa é uma história para um outro post.

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