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Archive for janeiro \09\UTC 2011

Simone no fim dos anos 1970. Foto: Janine Niépce/Rapho

Em 9 de janeiro de 1908 Simone de Beauvoir nasceu em Paris. Hoje, 103 anos depois, publico aqui uma carta que escrevi para ela em 2010.

Querida Castor,

O trem já estava na plataforma quando cheguei à estação e precisei correr com as malas. Meu plano era escrever para você do café da estação, aproveitar a luz que entrava pelos vitrais do alto da fachada e iluminava as mesas envoltas na fumaça fina e nas vozes preguiçosas das pessoas que aguardavam suas partidas ou a chegada de alguém. Imaginava que isso daria uma atmosfera poética à minha carta. Mas me atrasei e, por isso, escrevo no trem em movimento dentro desse túnel infinito, percurso sem paisagem, sem céu.

Todas as vezes que estive em Paris, mas desta vez em especial, estive à sua procura. Levei flores para você e Sartre no Montparnasse, apesar de minha aversão aos cemitérios. Fui à Biblioteca Nacional, à Sorbonne, a seu apartamento da rue Schoelcher, aos tantos endereços de hotéis em que você morou, ao La Coupole, La Rotonde, Jockey, Dôme… Queria ouvir as conversas que, invariavelmente, passariam pelo seu nome e seus costumes pouco ortodoxos. Passei várias tardes no Café de Flore olhando suas fotos, imaginando você, seu sorriso, seu olhar. Sentava-me numa das mesas com um caderno aberto, caneta na mão para, talvez, colher algumas das suas ideias que, por magia, eventualmente circulassem no ar perfumado de bebida e solidão.

Buscava a Simone que me inspirou nos anos de adolescente a ter “projetos”, a ter disciplina, saber o que queria. Hoje, sou menos segura dos meus desejos do que aos treze anos, quando conheci você, ainda que só por meio das suas palavras nos livros. E aqui, aproveito para agradecer por ter escrito tantos, porque assim você poderá me acompanhar pelo resto de meus dias.

Na verdade, Simone, acho que o que eu buscava nessa visita de tantos dias era tocá-la, materializar essa afeição que tenho por você. Mas falhei. Porque só agora me dou conta: quando lia seus livros, não era você que eu conhecia melhor. Era a mim mesma. Cada uma das histórias, cada aventura, cada episódio, cada reflexão, tudo isso sempre me falou daquilo que eu queria ser, ou não queria, dos meus desejos, das minhas dúvidas. Por isso, muitas vezes, ao percorrer os caminhos que você percorreu, enxergava não só você, mas também a mim. De alguma forma, Castor, você viveu tudo o que eu sonhei viver. E inventou histórias que eu sonhei protagonizar. Por muitas e muitas vezes, me vi idêntica a você ou às mulheres de suas histórias. A Xavière de amores efêmeros e interesses constantes, a Françoise das traições silenciosas e consentidas, a Régine que esperava um olhar que a libertasse do medo de viver, a Elisabeth, a Anne, a Nadine. Histórias que você contou e pelas quais eu descobri muito do mundo, muito de você, e muito de mim mesma.

Tenho muito a lhe falar. Queria contar coisas sobre as mulheres de hoje, sei que você gostaria de saber. Muita coisa mudou, é verdade. Mas eu precisaria que você me ajudasse a pensar sobre o que permanece. Há ainda mulheres que, 60 anos depois de seu Segundo Sexo, acreditam que nascem mulheres e mães e se dilaceram com seus filhos não nascidos. Ainda são vistas nas ruas e na televisão para defender leis que aprisionam gerações a seus corpos e destinos ao acaso de uma gravidez. Ainda ensinam suas filhas a serem mais bem-comportadas e doces do que os meninos, e ainda repetem, porque ouviram, que ginecologistas, professores e líderes homens são mais preparados e competentes. E que as candidatas mulheres não são suficientemente astutas para a política. Ainda há mulheres que não confiam seus corpos a si mesmas, nem suas mentes.

Sei que isso não deixaria você triste, porque você iria me perguntar sobre as coisas boas. E há muitas. Cada vez mais mulheres são candidatas, professoras, escritoras, ginecologistas e líderes. As feministas continuam ativas e cada vez mais. A França teve sua primeira candidata a presidente em 2007. Ela não se elegeu, mas deixou marcas fortes na política. A candidatura recebeu atenção de todo o mundo. Foi pioneira entre os grandes países. A Alemanha tem uma chanceler. Os EUA não conseguiram ainda ter sua primeira mulher candidata, embora tenha havido uma pré-candidata. (Hoje, 9/1/2011, quando publico esta carta que escrevi em janeiro de 2010, aproveito para contar que o Brasil também teve sua primeira candidata a presidente no ano passado. Ela foi eleita, tomou posse há nove dias, e promete honrar a luta pela igualdade.)

Enfim, eu teria muito a dizer. Por hoje, fico por aqui. A carta se alongou. E de todas as coisas que eu queria dizer, a principal guardei para o fim.

Quero agradecer a você por cada ação que teve, por cada palavra que colocou no papel, pelo modo como viveu e refletiu sobre o vivido. Sei que tudo isso me livrou do medo de ser mulher, ou do erro de me acomodar no lugar que o mundo ainda reserva às mulheres. Sei que por ter descoberto você, tenho orgulho de ser mulher. Obrigada por ter existido. E obrigada por ter permanecido em cada palavra que disse ou escreveu. Saiba que em cada uma de suas obras descubro novas ideias e inspirações. Encontro respostas e, principalmente, novas perguntas e motivos para ir adiante em muitas frases suas. E sei que há milhões de mulheres e homens mundo afora que também se sentem assim.

Um beijo, Simone.

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