Feeds:
Posts
Comentários

Archive for março \08\UTC 2011

O Segundo Sexo é um livro destruidor de mitos. Em cada uma de suas páginas, Simone de Beauvoir dedica todo seu cuidado de pesquisa e sua inteligência a mostrar que a imagem que se contruiu ao longo dos séculos da mulher como símbolo de beleza, de pureza, de perfeição, do bem, da virtude, do amor maternal, da “natureza” acolhedora e benévola não passa de uma armadilha. É com essas palavras que se opera uma das estratégias de dominação: transformar a mulher em algo diferente do humano, mantê-la na condição de outro, aprisioná-la na posição de passividade, evitar sua resistência ao poder que a oprime. A mulher é enredada em uma farsa.

Em troca de sua liberdade, presentearam-na com os tesouros falazes de sua ‘feminilidade’. Balzac descreveu muito bem essa manobra quando aconselhou ao homem que a tratasse como escrava, persuadindo-a de que é rainha.

O Segundo Sexo, volume único. São Paulo: Nova Fronteira, 2010, pp. 923-924.

Por isso, neste Dia Internacional da Mulher, acho que a melhor comemoração é dedicar alguns minutos para uma reflexão. Queremos ser “rainhas” em um mundo de desigualdades? Queremos ficar presas a uma imagem falsamente elogiosa mas, na verdade, violenta, porque destroi nossa liberdade de luta e nossa autonomia sobre nossos corpos e nossas mentes? Deixo aqui alguns parágrafos de outro trecho de O Segundo Sexo em que Simone de Beauvoir nos convida a essa reflexão.

O mito da mulher desempenha um papel considerável na literatura; mas que importância tem na vida quotidiana? Em que medida afeta os costumes e as condutas individuais? Para responder a essas perguntas seria necessário determinar as relações que mantém com a realidade.

Há diversas espécies de mitos. Este, sublimando um aspecto imutável da condição humana que é o “seccionamento” da humanidade em duas categorias de invidíduos, é um mito estático; projeta em um céu platônico uma realidade apreendida na experiência ou conceitualizada a partir da experiência. Ao fato, ao valor, à significação, à noção, à lei empírica, ele substitui uma ideia transcendente, não temporal, imutável, necessária. Essa ideia escapa a qualquer contestação porquanto se situa além do dado; é dotada de uma verdade absoluta.

Assim, à existência dispersa, contingente e múltipla das mulheres, o pensamento mítico opõe o Eterno Feminino único e cristalizado; se a definição que se dá desse Eterno Feminino é contrariada pela conduta das mulheres de carne e osso, estas é que estão erradas. Declara-se que as mulheres não são femininas e não que a Feminilidade é uma entidade. Os desmentidos da experiência nada podem contra o mito. Entretanto, de certa maneira, este tem sua fonte nela. Assim é exato que a mulher é outra e essa alteridade é concretamente sentida no desejo, no amplexo, no amor; mas a relação real é de reciprocidade; como tal, ela engendra dramas autênticos: através do erotismo, do amor, da amizade e suas alternativas de decepção, ódio, rivalidade, ela é luta de consciências que se consideram essenciais, é reconhecimento de liberdades que se confirmam mutuamente, é a passagem indefinida da inimizade à cumplicidade. Por a Mulher é por o Outro absoluto, sem reciprocidade, recusando contra a experiência que ela seja um sujeito, um semelhante.

(…)

Como as representações coletivas e, entre outros, os tipos sociais definem-se geralmente por pares de termos opostos, a ambivalência parecerá uma propriedade intrínseca do Eterno Feminino. A mãe santa tem como correlativo a madrasta cruel; a moça angélica, a virgem perversa: por isso ora se dirá que a Mãe é igual à Vida, ora que é igual à Morte, que toda virgem é puro espírito ou carne votada ao diabo. Não é evidentemente a realidade que dita à sociedade ou aos indivíduos a escolha entre os dois princípios opostos de unificação; em cada época, em cada caso, sociedade e indivíduos decidem de acordo com suas necessidades. Muitas vezes projetam no mito adotado as instituições e os valores a que estão apegados. Assim, o paternalismo, que reclama a mulher no lar, define-a como sentimento, interioridade e imanência; na realidade, todo existente é, ao mesmo tempo, imanência e transcendência; quando não lhe propõem um objetivo, quando o impedem de atingir algum, quando o frustram em sua vitória, sua transcendência cai inutilmente no passado, isto é, recai na imanência; é o destino da mulher, no patriarcado; não se trata, porém, da mesma vocação tal como a escravidão não é a vocação do escravo. Percebe-se claramente, em Comte, o desenvolvimento dessa mitologia. Identificar a Mulher ao Altruísmo é garantir ao homem direitos absolutos à sua dedicação, é impor às mulheres um dever-ser categórico.

O Segundo Sexo, volume único. São Paulo: Nova Fronteira, 2010, pp. 343-345.

Anúncios

Read Full Post »

%d blogueiros gostam disto: