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Archive for abril \14\UTC 2011

 

Foto: Slate

Simone de Beauvoir morreu em 14 de abril de 1986. Não vou evocar aqui o que essa perda representa para a filosofia, o feminismo ou o pensamento contemporâneo. Simone cumpriu seu papel como mulher, pensadora, amante, sujeito político, ficcionista, ensaísta, memorialista. E não nos cabe supor quem ela seria hoje, o que diria, o que faria “se estivesse viva”. Simone morreu.

O legado que ela deixou em seus livros, em sua forma de estar no mundo e ocupar-se dele como matéria-prima de cada palavra dita ou escrita, entretanto, permanece. Ainda podemos e devemos ler Simone, refletir sobre suas idéias, confrontá-las com as questões que o mundo hoje nos propõe. Não para dizer “Simone estava certa” ou “Simone estava errada”. Isso não existe. Existe apenas a possibilidade de tentar aprender com ela a pensar o mundo, a cultura, nossas contingências.

Já escrevi aqui e aqui sobre algumas das questões que tornam sua obra atual. Mas acho que posso acrescentar que Simone nos mostrou que para pensar e viver é necessário mergulhar na diferença, sair dos padrões, assumir que o indivíduo é único apesar de todas as pressões externas que podem impeli-lo à alienação, à servidão, ao conformismo, à reprodução de normas e regras sociais.

Reconhecer, aceitar e respeitar a diferença são as únicas formas de construirmos nossa existência no mundo. Não significa que nunca teremos preconceitos, nem que agiremos sempre corretamente, sem causar males ao mundo. Significa apenas que estaremos cientes de nossos preconceitos, de nossas contradições, e de como tudo isso influencia nossas motivações. Conscientes, talvez possamos mudar algo. Simone nos mostrou ainda que sujeitar-se aos padrões e regras sociais, às pressões e às crenças, sem efetivamente valorizá-las, é uma forma fantasiosa de abrir mão do indivíduo único que somos, porque a responsabilidade por nossos atos e escolhas é pessoal e intransferível.

Talvez por essa posição que, quando estendida a todas as áreas da vida, nada tem de simpática, Simone ainda hoje seja criticada e não tolerada por alguns grupos. Hoje, 103 anos após seu nascimento, 25 anos após sua morte, 62 anos após a publicação de seu ensaio filosófico mais importante, O Segundo Sexo, Simone é um incômodo para quem se apega a pensamentos prontos, ao conservadorismo e ao moralismo. E se isso acontece, é porque ela foi pouco compreendida. Ou melhor, é porque o que ela nos diz sobre nós mesmos foi pouco compreendido.

Simone de Beauvoir incomoda porque intelectualmente era ousada e, ao mesmo tempo, séria e precisa. Porque era uma burguesa em constante luta contra sua classe e os (maus) hábitos que a constituem. Porque sua vida amorosa, sua busca constante pela quebra de tabus e de regras de exclusividade no amor, não a livraram do sofrimento, do ciúme, da insegurança. E porque, sinceramente, não podemos perdoá-la por ter vivido a liberdade com que todos sonhamos e ter nos mostrado que uma vida assim não é um idílio, um paraíso, uma salvação. Liberdade é um conceito fundamental no pensamento de Simone: para ela, liberdade é a incerteza, o risco, a ambiguidade.

Simone incomoda porque não fez o que nós gostamos de pensar hoje que ela deveria ter feito: não foi boazinha, não evitou escrever sobre temas “feios” como aborto, masturbação, dominação, submissão, e pior, em nenhum momento de sua vida se desfez em desculpas por essas impropriedades. Ela incomoda porque não propôs fórmulas e não seguiu nenhuma. E como podemos respeitar uma intelectual que não nos serve de modelo? Uma figura pública em que não conseguimos projetar nem a imagem da mulherzinha nem a da pensadora irrepreensível, da heroína libertária ou da fêmea submissa, da mulher imoral ou da santa. Ela incomoda porque recusou acomodar-se nos extremos e se dedicou justamente a explorar os pontos em que os opostos, as diferenças, os limites se misturam.

Simone mergulhou naquela zona de fronteira em que nada é nem exatamente certo nem errado, nem bonito nem feio, nem limpo nem sujo e, assim, ela nos incita à procura de nossas as próprias respostas, sem nos dar garantias de que as encontraremos. Incomoda porque não toma para si o peso do mundo. Ao contrário, ela nos devolve esse peso. É o peso da liberdade.

Hoje faz 25 anos que Simone morreu. Mas mantê-la presente em nossas memórias, em nossos pensamentos e nos debates intelectuais ainda é um aprendizado de vida para todos nós.

Túmulo de Simone de Beauvoir e Sartre no Cemitário de Montparnasse, onde pessoas de todo o mundo deixam presentes, flores e bilhetes para o casal. Este blog é meu longuíssimo bilhete para Simone. Foto: Wikimedia

 

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