[julho, 1946]
Sentava-me no Deux Magots, olhava a página em branco. Sentia a necessidade de escrever na ponta dos meus dedos, e o gosto das palavras na garganta, mas não sabia o que começar. “Que ar bravo você tem!”, disse-me certa vez Giacometti. “É que eu queria escrever, e não sei o quê.” “Escreva qualquer coisa.” Na verdade, eu tinha vontade de falar de mim. Gostava de L’Âge d’homme, de Leiris: gostava dos ensaios-mártires, nos quais nos explicamos sem pretexto. Comecei a pensar nisso, a tomar algumas notas, e falei do assunto com Sartre. Tive consciência de que uma primeira questão se colocava: o que significava para mim ser mulher? Primeiro pensei poder livrar-me disso rápido. Nunca tive sentimento de inferioridade, ninguém me havia dito: “Você pensa assim porque é mulher”; minha feminilidade não me atrapalhava em nada. “Para mim”, disse eu a Sartre, “isso, por assim dizer, não contou”. “De qualquer modo, você não foi criada da mesma maneira que um menino: seria preciso prestar mais atenção a isso.” Eu prestei e tive uma revelação: este mundo era um mundo masculino, minha infância fora nutrida de mitos forjados pelos homens e eu não teria de modo algum reagido a isso do mesmo modo como reagiria se tivesse sido um menino. Fiquei tão interessada, que abandonei o projeto de uma confissão pessoal para me ocupar da condição feminina em sua generalidade. Fui fazer leituras na [Biblioteca] Nacional e estudei os mitos da feminilidade.
Simone de Beauvoir, A Força das Coisas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, p. 113.
No trecho acima, Simone conta como começou suas pesquisas para aquele que seria seu ensaio mais extenso e trabalhoso e, também, seu livro mais importante e influente para várias gerações. O primeiro volume da obra que nascia naqueles dias diante da página em branco no Deux Magots foi publicado em 24 de maio de 1949. Hoje, O Segundo Sexo completa 62 anos.


As vezes sinto a mesma coisa que Simone sentia: o gosto das palavras na boca. Quero escrever mais não sei o quê. Vou seguir o conselho de Giacometti e ver no que dá!
Boa sorte! Certamente o conselho já provou que dá certo 😉
Abs
Gosto de pensar que esse vazio misteriosamente preenchido sobre escrever ou não, é algo mais do fascinante, é essencial. Acho que, neste texto, não me prendi à Simone feminista, mas à escritora. De qualquer forma, a leitura de seus dizeres é fascinante. Parabén pelo espaço e pelo post. =)
Estive em Paris e, claro, fui ao Café de Flore. passei a me interessar mais por Sartre e por Simone. Aquela cidade inspira-nos à cultura, até artes comecei a estudar.. rsrsrs. fiquei feliz em encontrar o seu blog. amei e estou ansiosa por novos posts. bjo.
Obrigada, ando meio sem tempo, mas se quiser, no Tumblr (link aí do lado) tem sempre fotos de SImone e Sartre 😉
Comecei a ler ‘O Segundo Sexo’ e estou achando o livro incrível. Adorei o blog, está de parabéns!
Obrigada, Fabiana. Aposto que ‘O Segundo Sexo’ vai fazer parte da sua vida pra sempre 😉
Acho que essa é a missao do grande escritor: servir como um espelho claro da condição do mundo, no caso feminino, expor seus vicios e injustiças e ajudar a alterá-lo atraves das letras, do despertar da verdade, da busca pela igualdade representada por uma liberdade comum de escolha e ação. Era o que ela ensinava. Fico feliz que algumas mulheres tenham aprendido. Espero que um dia a maioria posso desfrutar dessa catarse rósea.
Um beijo do observador.
Sim, Thiago, concordo com você, a missão do escritor é atuar no sentido da mudança no sentido da igualdade e da liberdade. Acho que escritores que aceitam que o mundo seja como é ou que defendem a permanência desperdiçam palavras. Obrigada pela visita.