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Archive for the ‘ambiguidade’ Category

Reproduzo abaixo texto meu publicado esta semana no portal O Pensador Selvagem.

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Recentemente, tenho lido e ouvido muitos julgamentos, de teor e tom questionáveis, a Simone de Beauvoir. E essas acusações suscitam uma pergunta: por que sua figura e seu pensamento incomodam tanto? Sua bissexualidade, vários e várias amantes, a recusa do casamento e da maternidade, a liberdade e independência em um mundo cada vez mais conservador poderiam ser uma resposta. Mas a considero simplista e insatisfatória.

Simone de Beauvoir nasceu há 113 anos. Suas obras mais influentes foram escritas entre os anos 1940 e meados dos anos 1970. O Segundo Sexo, seu livro mais importante, foi publicado em 1949. Lá se vão mais de 60 anos. Mas tantas décadas parecem não ter sido suficientes para que sua obra fosse compreendida e criticada com propriedade. Ainda hoje, muitas pessoas se recusam a ler Simone de Beauvoir porque ela era “uma libertina”. E repetem-se afirmações forjadas para atribuir a ela tudo aquilo contra o que ela lutou no plano das ideias e no plano da ação. Acusam-na de submissão, de dependência, de pregar o feminismo para as outras mulheres e não praticá-lo.

Essa resistência a Simone de Beauvoir esbarra em questões mais profundas sobre nossa sociedade: a condição da mulher, especificamente a mulher intelectual; a relação entre a experiência vivida e a escrita da memória com a subjetividade; as expectativas que recaem sobre os intelectuais. Tentarei abordar brevemente, e de forma não sistemática, alguns desses temas tendo como referência a figura de Simone de Beauvoir.

Experiência vivida, matéria-prima do pensamento

Simone de Beauvoir em seu quarto no Hotel Louisiane, Paris, 1946. Foto: Fonds Photographique Denise Bellon.

A grande maioria dos julgamentos feitos a Simone de Beauvoir, acredito, baseia-se em erro primário para qualquer reflexão: desconsiderar o fato banal de que intelectuais vivem. Ou seja, toda vida, inclusive a de uma pensadora, é um emaranhado complexo de descobertas, conquistas, falhas, inseguranças, afirmações, sofrimentos, retrocessos, sucessos. E é em meio a essa complexidade que seu pensamento e sua ação no mundo se desenvolvem, obviamente transformando-se. É, portanto, pouco racional deixar de considerar que, aos 20 anos, aquela pessoa, como qualquer um de nós, ainda não tem o terreno de todo seu pensamento arado e cultivado. Como é pouco racional ignorar que esse trabalho exige esforço.

Assim, por exemplo, há quem queira invalidar o pensamento libertário e antissexista de Simone de Beauvoir baseado em sua relação com Sartre. Afirma-se que ela se submeteu a Sartre durante toda a vida e aceitou um modelo de relação que ele impôs. Isso é incorrer no erro mencionado. Então, vamos a alguns fatos sobre essa relação.

Simone de Beauvoir e Sartre tinham 20 e poucos anos quando firmaram um pacto que previa  um relacionamento aberto, cada um dos dois podendo envolver-se com outras pessoas. Quem propôs este pacto foi Sartre. E Simone de Beauvoir o aceitou. Logo depois, eles foram nomeados para lecionar em cidades diferentes da França. O que unia a ambos: o relacionamento sexual, amoroso, e uma afinidade intelectual que provavelmente nenhum de seus críticos ou seguidores jamais experimentou com alguém. A convivência entre ambos era, ao mesmo tempo, afetiva e  instigante. Desejavam estar próximos. Sartre propôs casamento a Simone. Ela recusou. (Muito antes de conhecê-lo, já estava decidida a não se casar e não se submeteu ao desejo dele ou à paixão.)

Simone de Beauvoir sempre desejou ser livre, algo que a vida em uma família burguesa empobrecida de Paris – origem que ela jamais negou – nunca lhe permitira. Liberdade de pensamento, que exercia em suas aulas a alunas do ensino médio (ela só deu aulas em universidades durante a guerra). Liberdade sexual, envolvendo-se em alguns relacionamentos pouco mais do que casuais com homens e mulheres. Liberdade intelectual, trabalhando em seus primeiros livros, que não foram finalizados.

Sartre, no início, chocou-se com a bissexualidade de Simone. Depois, se apaixonou por uma de suas amantes, Olga, e propôs, com veemência e insistência, um novo modelo de relacionamento, que eles chamavam “o trio”. Os três aceitaram. Foram jogados em uma situação em que precisaram rever seus preconceitos e moralismos burgueses, em um turbilhão emocional repleto de sofrimento, conflito, meias-verdades, raiva, inveja. O “trio”, ela relatou tanto em A Força da Idade como em A Convidada, foi um fracasso. Todos sofreram mais do que se divertiram, todos os limites de suas liberdades foram testados, em geral ferindo um dos três. Para dizer o mínimo: Sartre era rejeitado por Olga, que provocava ciúmes em Simone, que era invejada por Sartre por ser a preferida da garota. O terceiro elemento na relação, percebia Simone, instaurava inexoravelmente uma barreira extra à liberdade e ao desejo de cada um dos integrantes do “trio”. E todos sofriam, ora por si mesmos, ora por ver pessoas queridas sofrendo. A partir dali, Simone não integraria novos trios, negando-se a manter o arranjo. Os triângulos, tal qual no início do pacto, voltaram a existir, mas as relações a três, não.

Há quem entenda o sofrimento de Simone como submissão. Considero uma percepção muito estreita do que é uma experiência de vida. O sofrimento faz parte das relações humanas. Simone nunca se esquivou dessa angústia. Afinal, primeiro como uma amante da liberdade e, depois, como existencialista, ela sabia que a angústia é inevitável. E também sabia que há uma responsabilidade a ser assumida em relação a si mesmo e aos outros.

A única vez que Sartre propôs casamento a outra mulher, sua amante norte-americana, Simone se retirou do relacionamento. Não queria submeter-se novamente aos conflitos e insucessos do “trio”. Ele desistiu do casamento. O amor necessário entre ambos sempre superou os amores contingentes. E isso não é resultado de uma magia romântica e cheia de coraçõezinhos que surgia no ar todas as vezes que um dos dois estava efetivamente envolvido em outras relações. Foram escolhas conscientes e livres de ambos.

Dizem também que Simone não conheceu o prazer sexual com Sartre e que logo ele se desinteressou sexualmente dela. Duas verdades. O que não é verdade é assumir que ela se submeteu a isso como uma vítima. Simone teve vários e várias amantes e encontrou o prazer sexual em várias relações. Quando o desejo sexual de Sartre deixou de existir, ela determinou que não precisariam mais relacionar-se por mera formalidade. Com o escritor Nelson Algren, envolveu-se no amor romantizado e “tradicional” para sua época. Ele a pediu em casamento. Ela recusou. Muitos a condenam. Além de não estar disposta ao casamento e à maternidade – ele queria filhos –, Simone sabia que sua ligação, ainda que fosse apenas intelectual com Sartre, machucava Algren. Novamente, ela era confrontada com a fórmula do “trio”, em outro contexto. Melhor que cada um abraçasse sua liberdade.

Simone de Beauvoir escreveu milhares de páginas em romances, ensaios, memórias abordando esses e outros fatos. Considerada uma das maiores memorialistas do século 20, produziu quatro volumes bem recheados, nenhum deles com menos de 300 páginas. Somente quem ignora totalmente essa produção, ou quem tenha lido sem nada compreender, pode lançar críticas como as que reproduzo aqui.

Há poucos temas que ela não aborde em detalhes em suas memórias, um deles é o processo movido contra ela pelos pais de uma aluna com a qual se envolveu sexual e afetivamente. Nesses e em poucos outros casos, ela opta por não entrar em detalhes pelo simples fato de que as pessoas envolvidas estavam vivas no momento da publicação dos livros, o que poderia criar mais escândalos.

Em cada página das memórias, a honestidade de Simone é invejável. Ela reconhece, por exemplo, as críticas mal-informadas que ela (e Sartre) fizeram a Freud, os enganos que cometeram em algumas avaliações a respeito de personagens e colegas durante a guerra, o fato de que, durante muito tempo, ela e Sartre, embora lutando contra os ideais burgueses, se submeteram totalmente e sem sequer perceber ao estilo de vida que abominavam.

Simone de Beauvoir acreditava que a matéria-prima do intelectual, além da capacidade de compreender e criticar as teorias, é a própria experiência. É a partir daí, pensava, podemos construir nossa relação com o mundo, talhar nossa subjetividade e, assim, produzir uma obra relevante intelectualmente, capaz de abordar assuntos e aspectos ainda inéditos. Simone não se negava a experimentar nada novo ou diferente. Pagava um preço caro por isso: nos anos 1930, em que uma mulher desacompanhada nem sempre era aceita nem mesmo em um café, ela optava por estar só. A solidão era a chave de sua abertura para o mundo. Nos anos 1940, foi duramente criticada por suas obras, nos anos 1950, enxovalhada por O Segundo Sexo e cobrada por não ter “agarrado” o amor de Algren.

Uma intelectual no tempo

Outra crítica comum a Simone de Beauvoir é de que ela era feminista em seus livros, mas não era feminista em seu relacionamento com Sartre. Dizem que ela pregava o feminismo para outras mulheres e não o praticava.

Em suas memórias, Simone de Beauvoir afirma que jamais foi feminista e que O Segundo Sexo, publicado em 1949, nunca foi concebido como um livro feminista. Por isso, quem cobra dela uma postura feminista em todos os episódios de sua vida age de má-fé, tentando invalidar seu pensamento e suas ações de forma falaciosa. Simone de Beauvoir só se alinha ao feminismo nos anos 1970.

Portanto, dizer que ela pregava o feminismo para as outras mulheres e não o praticava é, no mínimo, sucumbir a um banal anacronismo. Não, ela não podia viver a juventude de acordo com algo que ela só reconheceu e valorizou na velhice. Sim, os intelectuais mudam e se transformam ao longo do tempo, e isso não invalida seu pensamento. Quando passou a participar de ações do movimento feminista, ela mesma disse que isso demonstrava que suas ideias haviam se enriquecido e aprimorado.

A mulher e as divindades intelectuais

Simone de Beauvoir, Paris, 1952. Foto: Elliott Erwitt/Magnum.

As críticas inadequadas a Simone de Beauvoir, na minha opinião, mostram como ainda é difícil – para pessoas que cultivam o pensamento pouco aberto a ideias inovadoras, diferentes e sempre em transformação – aceitar o papel de uma mulher intelectual nos dias de hoje. A mulher é sempre o Outro, lembra Simone de Beauvoir em O Segundo Sexo, o diferente. E o lugar do intelectual, nós sabemos, é o lugar do um, do poder, da dominação. Aceitar que uma mulher ocupe esse lugar implica superar um preconceito. A resistência ao reconhecimento do papel intelectual de uma pensadora é a expressão desse preconceito: só posso atribui-la ao sexismo que é, para dizer o mínimo, uma fraqueza intelectual em qualquer pessoa.

Entretanto, o julgamento que ataca Simone de Beauvoir não é apenas aquele forjado no sexismo. Há um outro substrato nas acusações levianas que enumerei aqui e em outras que não há espaço para detalhar. Esse substrato é a necessidade de fazer de intelectuais verdadeiros deuses, modelos de comportamento, pessoas infalíveis que têm soluções infalíveis e que não podem ser questionadas. Pessoas que sentem essa necessidade não estão em busca de ideias e propostas, muito menos de reflexão. Sua expectativa é de que os intelectuais lhes ofereçam fórmulas prontas. Se esses deuses falham – e os verdadeiros intelectuais sempre falham porque não são os donos da verdade nem das respostas certas, apenas pessoas honestamente dispostas a fazer perguntas – são invalidados, considerados ruins, incompetentes.

Há uma manobra ideológica e outra, inconsciente, por trás disso.

Todas as vezes que acusamos veementemente alguém de ser aquilo que é indesejável, ruim, incompetente, negativo, criamos uma imagem positiva de nós mesmos. Somos exatamente o oposto daquilo que acusamos o Outro. Mas Freud já nos ensinou que, em geral, aquilo de que acusamos o Outro é aquilo que não suportamos constatar em nós mesmos.

Simone e Sartre construíram um sistema de pensamento que enfatiza: todos somos livres e a liberdade nos confronta a cada segundo com a angústia de fazer escolhas e com o sofrimento de nos responsabilizarmos por elas. Esse é um pensamento radical que implica, a quem adotá-lo honestamente, viver na insegurança, na incerteza e em constante contato com sua própria falibilidade e a ambiguidade.

Acredito que essa é a principal causa a todas as críticas levianas feitas a Simone de Beauvoir (e a Sartre). Quando as pessoas se referem a ela (ou a ele) em termos como “rever o passado”, “desconstruir mitos”, “derrubar messias”, na verdade estão fazendo uso de termos ideológicos. Buscam desqualificar o pensamento libertário, radical, transformador que, por definição, se constrói com base na exploração de visões de mundo, atitudes e comportamentos fora dos padrões e na diversidade de ideias e de ação. Nesse sentido, criticar Simone de Beauvoir (e Sartre) é muito mais construir empecilhos para que os intelectuais de hoje se inspirem ou busquem referências em suas ideias e possam pensar algo novo e tão transformador como eles pensaram em suas épocas.

Quem resiste a pensadores como Simone de Beauvoir e Sartre teme que alguém possa continuar a trilhar os caminhos que eles abriram. Teme palavras como liberdade, ambiguidade, imperfeição, descoberta, independência e, principalmente, responsabilidade e consciência. Teme o debate de ideias. Busca fórmulas que sustentem o status quo, o mainstream ou, para dizer de forma simples, “as coisas como elas estão”. Talvez possam encontrar algo assim em alguma religião. Jamais encontrarão isso em pensadores livres e, felizmente, imperfeitos.

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Foto: Slate

Simone de Beauvoir morreu em 14 de abril de 1986. Não vou evocar aqui o que essa perda representa para a filosofia, o feminismo ou o pensamento contemporâneo. Simone cumpriu seu papel como mulher, pensadora, amante, sujeito político, ficcionista, ensaísta, memorialista. E não nos cabe supor quem ela seria hoje, o que diria, o que faria “se estivesse viva”. Simone morreu.

O legado que ela deixou em seus livros, em sua forma de estar no mundo e ocupar-se dele como matéria-prima de cada palavra dita ou escrita, entretanto, permanece. Ainda podemos e devemos ler Simone, refletir sobre suas idéias, confrontá-las com as questões que o mundo hoje nos propõe. Não para dizer “Simone estava certa” ou “Simone estava errada”. Isso não existe. Existe apenas a possibilidade de tentar aprender com ela a pensar o mundo, a cultura, nossas contingências.

Já escrevi aqui e aqui sobre algumas das questões que tornam sua obra atual. Mas acho que posso acrescentar que Simone nos mostrou que para pensar e viver é necessário mergulhar na diferença, sair dos padrões, assumir que o indivíduo é único apesar de todas as pressões externas que podem impeli-lo à alienação, à servidão, ao conformismo, à reprodução de normas e regras sociais.

Reconhecer, aceitar e respeitar a diferença são as únicas formas de construirmos nossa existência no mundo. Não significa que nunca teremos preconceitos, nem que agiremos sempre corretamente, sem causar males ao mundo. Significa apenas que estaremos cientes de nossos preconceitos, de nossas contradições, e de como tudo isso influencia nossas motivações. Conscientes, talvez possamos mudar algo. Simone nos mostrou ainda que sujeitar-se aos padrões e regras sociais, às pressões e às crenças, sem efetivamente valorizá-las, é uma forma fantasiosa de abrir mão do indivíduo único que somos, porque a responsabilidade por nossos atos e escolhas é pessoal e intransferível.

Talvez por essa posição que, quando estendida a todas as áreas da vida, nada tem de simpática, Simone ainda hoje seja criticada e não tolerada por alguns grupos. Hoje, 103 anos após seu nascimento, 25 anos após sua morte, 62 anos após a publicação de seu ensaio filosófico mais importante, O Segundo Sexo, Simone é um incômodo para quem se apega a pensamentos prontos, ao conservadorismo e ao moralismo. E se isso acontece, é porque ela foi pouco compreendida. Ou melhor, é porque o que ela nos diz sobre nós mesmos foi pouco compreendido.

Simone de Beauvoir incomoda porque intelectualmente era ousada e, ao mesmo tempo, séria e precisa. Porque era uma burguesa em constante luta contra sua classe e os (maus) hábitos que a constituem. Porque sua vida amorosa, sua busca constante pela quebra de tabus e de regras de exclusividade no amor, não a livraram do sofrimento, do ciúme, da insegurança. E porque, sinceramente, não podemos perdoá-la por ter vivido a liberdade com que todos sonhamos e ter nos mostrado que uma vida assim não é um idílio, um paraíso, uma salvação. Liberdade é um conceito fundamental no pensamento de Simone: para ela, liberdade é a incerteza, o risco, a ambiguidade.

Simone incomoda porque não fez o que nós gostamos de pensar hoje que ela deveria ter feito: não foi boazinha, não evitou escrever sobre temas “feios” como aborto, masturbação, dominação, submissão, e pior, em nenhum momento de sua vida se desfez em desculpas por essas impropriedades. Ela incomoda porque não propôs fórmulas e não seguiu nenhuma. E como podemos respeitar uma intelectual que não nos serve de modelo? Uma figura pública em que não conseguimos projetar nem a imagem da mulherzinha nem a da pensadora irrepreensível, da heroína libertária ou da fêmea submissa, da mulher imoral ou da santa. Ela incomoda porque recusou acomodar-se nos extremos e se dedicou justamente a explorar os pontos em que os opostos, as diferenças, os limites se misturam.

Simone mergulhou naquela zona de fronteira em que nada é nem exatamente certo nem errado, nem bonito nem feio, nem limpo nem sujo e, assim, ela nos incita à procura de nossas as próprias respostas, sem nos dar garantias de que as encontraremos. Incomoda porque não toma para si o peso do mundo. Ao contrário, ela nos devolve esse peso. É o peso da liberdade.

Hoje faz 25 anos que Simone morreu. Mas mantê-la presente em nossas memórias, em nossos pensamentos e nos debates intelectuais ainda é um aprendizado de vida para todos nós.

Túmulo de Simone de Beauvoir e Sartre no Cemitário de Montparnasse, onde pessoas de todo o mundo deixam presentes, flores e bilhetes para o casal. Este blog é meu longuíssimo bilhete para Simone. Foto: Wikimedia

 

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O Segundo Sexo é um livro destruidor de mitos. Em cada uma de suas páginas, Simone de Beauvoir dedica todo seu cuidado de pesquisa e sua inteligência a mostrar que a imagem que se contruiu ao longo dos séculos da mulher como símbolo de beleza, de pureza, de perfeição, do bem, da virtude, do amor maternal, da “natureza” acolhedora e benévola não passa de uma armadilha. É com essas palavras que se opera uma das estratégias de dominação: transformar a mulher em algo diferente do humano, mantê-la na condição de outro, aprisioná-la na posição de passividade, evitar sua resistência ao poder que a oprime. A mulher é enredada em uma farsa.

Em troca de sua liberdade, presentearam-na com os tesouros falazes de sua ‘feminilidade’. Balzac descreveu muito bem essa manobra quando aconselhou ao homem que a tratasse como escrava, persuadindo-a de que é rainha.

O Segundo Sexo, volume único. São Paulo: Nova Fronteira, 2010, pp. 923-924.

Por isso, neste Dia Internacional da Mulher, acho que a melhor comemoração é dedicar alguns minutos para uma reflexão. Queremos ser “rainhas” em um mundo de desigualdades? Queremos ficar presas a uma imagem falsamente elogiosa mas, na verdade, violenta, porque destroi nossa liberdade de luta e nossa autonomia sobre nossos corpos e nossas mentes? Deixo aqui alguns parágrafos de outro trecho de O Segundo Sexo em que Simone de Beauvoir nos convida a essa reflexão.

O mito da mulher desempenha um papel considerável na literatura; mas que importância tem na vida quotidiana? Em que medida afeta os costumes e as condutas individuais? Para responder a essas perguntas seria necessário determinar as relações que mantém com a realidade.

Há diversas espécies de mitos. Este, sublimando um aspecto imutável da condição humana que é o “seccionamento” da humanidade em duas categorias de invidíduos, é um mito estático; projeta em um céu platônico uma realidade apreendida na experiência ou conceitualizada a partir da experiência. Ao fato, ao valor, à significação, à noção, à lei empírica, ele substitui uma ideia transcendente, não temporal, imutável, necessária. Essa ideia escapa a qualquer contestação porquanto se situa além do dado; é dotada de uma verdade absoluta.

Assim, à existência dispersa, contingente e múltipla das mulheres, o pensamento mítico opõe o Eterno Feminino único e cristalizado; se a definição que se dá desse Eterno Feminino é contrariada pela conduta das mulheres de carne e osso, estas é que estão erradas. Declara-se que as mulheres não são femininas e não que a Feminilidade é uma entidade. Os desmentidos da experiência nada podem contra o mito. Entretanto, de certa maneira, este tem sua fonte nela. Assim é exato que a mulher é outra e essa alteridade é concretamente sentida no desejo, no amplexo, no amor; mas a relação real é de reciprocidade; como tal, ela engendra dramas autênticos: através do erotismo, do amor, da amizade e suas alternativas de decepção, ódio, rivalidade, ela é luta de consciências que se consideram essenciais, é reconhecimento de liberdades que se confirmam mutuamente, é a passagem indefinida da inimizade à cumplicidade. Por a Mulher é por o Outro absoluto, sem reciprocidade, recusando contra a experiência que ela seja um sujeito, um semelhante.

(…)

Como as representações coletivas e, entre outros, os tipos sociais definem-se geralmente por pares de termos opostos, a ambivalência parecerá uma propriedade intrínseca do Eterno Feminino. A mãe santa tem como correlativo a madrasta cruel; a moça angélica, a virgem perversa: por isso ora se dirá que a Mãe é igual à Vida, ora que é igual à Morte, que toda virgem é puro espírito ou carne votada ao diabo. Não é evidentemente a realidade que dita à sociedade ou aos indivíduos a escolha entre os dois princípios opostos de unificação; em cada época, em cada caso, sociedade e indivíduos decidem de acordo com suas necessidades. Muitas vezes projetam no mito adotado as instituições e os valores a que estão apegados. Assim, o paternalismo, que reclama a mulher no lar, define-a como sentimento, interioridade e imanência; na realidade, todo existente é, ao mesmo tempo, imanência e transcendência; quando não lhe propõem um objetivo, quando o impedem de atingir algum, quando o frustram em sua vitória, sua transcendência cai inutilmente no passado, isto é, recai na imanência; é o destino da mulher, no patriarcado; não se trata, porém, da mesma vocação tal como a escravidão não é a vocação do escravo. Percebe-se claramente, em Comte, o desenvolvimento dessa mitologia. Identificar a Mulher ao Altruísmo é garantir ao homem direitos absolutos à sua dedicação, é impor às mulheres um dever-ser categórico.

O Segundo Sexo, volume único. São Paulo: Nova Fronteira, 2010, pp. 343-345.

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Entender a obra e a vida de Simone de Beauvoir não é possível sem pensar sua concepção de ambiguidade. O duplo, o ambíguo, o contraditório, a verdade que tem duas faces. Nada disso é facilmente aceito pela sociedade contemporânea. Drummond tem um poema lindo sobre isso.

Da ideia que Drummond fez poesia, Simone retirou reflexões para toda sua vida e toda sua obra. Tanto para o poeta como para a filósofa, a ambiguidade é fonte de inspiração. Já para o pensamento moderno, baseado na objetividade e na ciência, a ambiguidade é um tormento, o limite do absurdo.

Em Por uma Moral da Ambiguidade, Simone defende que o absurdo nada tem de ambíguo. A ambiguidade, diz ela, é a própria condição humana. É por isso que, apesar de todo fracasso, de todo escândalo, continuamos lutando. A liberdade humana – esse dom tão caro a Simone – é ambígua. Assim, só podemos exercê-la no comprometimento. É na escolha por uma ação, por uma causa, por um caminho, que exercemos ao máximo nossa liberdade. Ambíguo? Pois é mesmo.

A política, a arte, aliteratura, a amizade, a guerra, os laços sociais. Do ponto de vista de Simone, tudo isso só pode ser pensado a partir da ambiguidade que lhes é intrínseca. Afinal, não só a condição humana é ambígua. Tudo o que o homem cria é também gerado sob o signo da ambiguidade.

O amor também é ambíguo. Nada pode nos colocar mais na linha de fronteira entre dois mundos do que a experiência de amar a alguém tanto, ou até mais, do que a nós mesmos. Nessa ambiguidade, Simone jamais foi compreendida. Ela amava Sartre. E sim, tinha ciúme, criava jogos amorosos, sofria. E, ao mesmo tempo, vivia seus amores circunstanciais, mais ou menos profundos, sofridos ou duradouros. Um tipo de amor nunca excluiu o outro. Nenhum desses amores excluía o amor dela por si mesma.

A condição da mulher é outro aspecto em que a ambiguidade domina. Tornando-se mulher sem ter nascido mulher, cada uma de nós precisa fazer escolhas difíceis. Há quem busque e construa uma vida convencional: casamento, filhos, família. Há quem opte pela independência. Há quem opte pela construção da subjetividade sem abrir mão das outras alternativas. Simone não quis ser mãe ou esposa. E foi uma mulher plena. Outras optam por caminhos totalmente diferentes, e também se sentem vivas e realizadas. Lidar com a ambiguidade é saber fazer essas escolhas. Negar a ambiguidade é escolher uma das alternativas sem reconhecer que as demais são igualmente válidas.

Quase sempre, diante das escolhas menos aceitas socialmente, nos escandalizamos. Diante do ambíguo, exigimos uma certeza. Um erro essencial, uma ação de má-fé. Qual é o bom caminho? Qual é a escolha certa? Qual o lado verdadeiro? O que é correto? Qual a opção justa? Qual a melhor solução?

Lidar com o fato de que não há resposta definitiva a essas perguntas nos deixa desamparados. Com nossa moral cristã e para nossa razão cientificista, só funcionamos diante das soluções prontas, das rotas indicadas e sinalizadas.

A moral da ambiguidade não nos ampara, nos dá um método. A solução pronta não existe; o julgamento preconcebido não é ético. A verdade, como no poema de Drummond, não é feita de metades que se complementam. Esse é o cerne da ambiguidade. As escolhas, os julgamentos, as decisões, só podem ser feitos diante de situações concretas. E a opção que fazemos entre uma e outra metade, não significa a negação ou a invalidação do caminho oposto. Essa é a opção moral da ambiguidade. Difícil, incômoda.

O assunto é complexo. Voltarei a ele mais vezes.

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