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Archive for the ‘amores’ Category

A Editora Nova Fronteira (parceira deste blog) e a Editora Objetiva acabam de lançar reimpressões de livros preciosos para quem gosta de Simone de Beauvoir, ou para quem quer estudá-la.

Da Nova Fronteira, a reimpressão de O Segundo Sexo em volume único, que recomendo veementemente e sobre o qual escrevi aqui.

Da Objetiva, o livro Tête-à-tête, que conta a história do relacionamento de Simone de Beauvoir e Sartre, uma proposta de relação e uma experiência existencial que marcou época, deixou marcas no século 20 e, claro, rompeu muitas barreiras e padrões. Leia mais aqui.

Livros que vale a pena ter na estante. Boa leitura.

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Simone de Beauvoir et Jean-Paul Sartre (cerca 1950)

Em parceria com a Editora Agir, o blog Avec Beauvoir está sorteando um exemplar do livro “Os Filósofos e o Amor: De Sócrates a Simone de Beauvoir”, de Aude Lancelin e Marie Lemonnier, publicado pela Editora Agir.

Para participar, é simples! 

1 – Deixe um comentário neste post com o link de seu perfil no Twitter ou no Facebook e a resposta à pergunta: como Simone de Beauvoir e Sartre classificavam o tipo de amor que os uniu por toda a vida? (Dica: há dois posts neste blog que falam sobre isso.)
2. É obrigatório seguir @agireditora e curtir a página da editora no Facebook
3. Só serão considerados os comentários acompanhados de perfis válidos no Twitter ou Facebook (usarei as redes sociais para entrar em contato com o vencedor). O sorteio entre as pessoas que postarem a resposta correta será feito pelo site http://www.sorteiospt.com/.
4. O ganhador deve ter endereço no Brasil.
5. Resultado em: 20/06/2012  18/06/2012 (aviso: precisei antecipar o sorteio porque não estarei conectada no dia 20)

Boa Sorte!

ATUALIZAÇÃO de 18/06/2012: Sorteio encerrado. A resposta correta é Amor Necessário. Mas considerei também como corretas a resposta “Essencial”, porque entendi que o termo foi usado como sinônimo de necessário, como apontam vários dicionários. A vencedora é Evane Picoli. Parabéns!

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Sartre correspondia exatamente aos meus sonhos de quinze anos: era o duplo, em quem eu encontrava, elevadas ao extremo, todas as minhas manias. Com ele, poderia sempre tudo partilhar. Quando o deixei, em princípio de agosto [de 1929], sabia que nunca mais ele sairia da minha vida.

Simone de Beauvoir. Memórias de uma moça bem-comportada. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009. p.345.

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Assisti na última sexta-feira, 9 de dezembro, a uma das últimas apresentações do espetáculo Viver sem Tempos Mortos, em que Fernanda Montenegro interpreta um texto baseado nas memórias de Simone de Beauvoir e nas cartas que ela escreveu a Jean-Paul Sartre*. A montagem, de um respeito absoluto com a história e o pensamento da escritora, me emocionou, não apenas por dar vida a palavras que Simone escreveu, mas por conseguir captar o verdadeiro sentido que ela quis imprimir em sua vida.

O texto da peça é uma colagem de trechos dos escritos de Simone e foi produzido em conjunto por Fernanda Montenegro e pelo tradutor Newton Goldman. As frases e relatos selecionados pelos dois dramaturgos conseguem contar a história da escritora como se invadíssemos secretamente seu fluxo de consciência num momento em que ela revisita sua própria vida, sem omissões, sem disfarces, sem reducionismos, sem floreios, sem justificativas.

É desta forma que o texto consegue preservar sua origem, as memórias e relatos íntimos da escritora, e mantém intacto o despojamento de intencionalidade que diferencia as memórias das autobiografias. Ao fim do espetáculo, comecei a pensar na diferença conceitual entre autobiografia e memória e nos motivos que fizeram com que Simone de Beauvoir se dedicasse ao trabalho de uma memorialista. (Há pessoas que dizem que todas as obras de Simone são autobiográficas, uma afirmação que contém de cara dois erros: o desconhecimento de sua proposta intelectual e do conjunto de sua obra e a confusão entre autobiografia e memória.)

Fernanda Montenegro no espetáculo ‘Viver sem Tempos Mortos’. Foto: Divulgação.

Memória e acaso

Autobiografias costumam ser construções objetivas, como se o protagonista olhasse para si mesmo como um observador, e narrasse o que esse olhar descobre. O biógrafo de si mesmo produz um texto sobre sua vida, narra de modo linear e fechado a história de uma vida que encerra-se em si mesma, uma vida que se explica (e muitas vezes, se justifica). A autobiografia é uma construção intencional.

Esse trabalho nada tem em comum com o trabalho empreendido por um memorialista. Este se debruça sobre um fluxo de lembranças, recordações, sentimentos, que o revelam como um indivíduo que se insere no contexto histórico, familiar, social de sua época. A memória é uma escrita subjetiva, atrelada ao lugar que aquela pessoa ocupa no mundo, e está repleta de ambiguidades, dúvidas sem respostas, reflexões e questionamentos acerca desse que fala e da posição de onde se fala. O memorialista é um indivíduo que registra a descoberta de que é um ser no mundo, o biógrafo de si mesmo é um indivíduo que cria uma identidade imutável, a sua. Ao ler – ou ouvir, como no caso do espetáculo teatral – as memórias de alguém podemos entrar em contato com o indivíduo em sua contingência.

É curioso que aparentemente, as memórias possam parecer mais seletivas do que uma narrativa quando, na verdade, o que ocorre, é o contrário. As memórias não são lineares e não podem ser controladas inteiramente: que encadeamento de fatos e emoções nossas lembranças permitem? Depois de recordar o dia em que ela e seu grupo feminista gritaram diante de uma igreja onde se celebrava um casamento a frase “libertem a noiva” – momento que leva a plateia às gargalhadas –, qual será a lembrança seguinte de Simone de Beauvoir e como ela irá contá-la? São infinitas possibilidades e, nesse sentido, as memórias se aproximam – embora, é claro, não se igualem – a uma fala inconsciente, livre, construída a partir de associações cuja lógica de encadeamento não se controla nem se conhece.

Uma das grandes realizações da peça “Viver sem Tempos Mortos” é justamente captar essa essência das memórias em um texto construído, cujo encadeamento de relatos e pensamentos foi produzido por dois dramaturgos, objetivamente, com a motivação de contar uma história. Entretanto, essa construção é uma costura fina, invisível, e o público se sente diante da hesitação e da sutileza das infinitas possibilidades que caracterizam as memórias.

Acredito que, nesse sentido, a interpretação de Fernanda Montenegro tem um papel fundamental. A atriz (e nada vou dizer sobre Fernanda, pois acredito que seria cair em pretensões ou em lugares-comuns) poderia dar voz a Simone de modo tão absoluto. No palco, Fernanda se despe de toda caracterização, de toda a vaidade, de toda a semelhança, de toda a encenação para deixar que o texto seja “criado”  diante da plateia. A peça é, então, é o retrato de como Simone de Beauvoir relacionava-se consigo mesma e com sua época e de como ela existiu: com suas angústias, dores, sofrimentos, erros… O espetáculo consegue respeitar tudo isso sem julgamentos.

Vemos Fernanda Montenegro em sua camisa branca e sua calça preta, sentada em uma cadeira, nenhum cenário ao redor. A sensação é de estarmos diante de Simone de Beauvoir. A escritora nos conta suas memórias. Com a interpretação de Fernanda, as palavras pintam em nossa imaginação o cenário que não está no palco. Quando a fala de Simone poderia se deter por alguns instantes na justificativa de uma atitude ou uma escolha, na explicação de uma passagem de sua vida, o texto simplesmente encadeia o relato em um novo relato ou na revelação de um sentimento e segue adiante. Assim, percebemos que as memórias não têm fim e carregam em si a marca da insegurança e do acaso (palavra, aliás, que pontua alguns trechos da peça por meio da citação “O acaso tem sempre a última palavra”). Além, é claro, de funcionar em simbiose com o seu oposto, o esquecimento. E saímos do teatro certos de que Simone poderia nos dizer muito mais. E queremos mais.

Viver sem Tempos Mortos consegue, assim, contar a história da escritora e filósofa mas, principalmente, revelar sua forma particular e única de estar no mundo: seu íntimo compromisso com o grupo de intelectuais, amigos, militantes políticos, amores e ideias que abraçou ao longo da vida; sua total dedicação ao projeto intelectual de fazer da sua vida a matéria-prima de sua obra de modo a construir, sim, um pensamento marcado pela subjetividade; sua plena confiança de que é a experiência individual que define nossa relação única com o mundo e nossa possibilidade de construir uma reflexão inédita. (Falei um pouco sobre isso aqui). Reduzir Simone de Beauvoir a uma autora de autobiografias certamente é perder o sentido de toda a amplitude desse projeto intelectual e do significado de um conhecimento produzido a partir da experiência.

Algo que Simone de Beauvoir pretendeu ao escrever suas memórias foi mostrar que não há separação entre o individual (ou íntimo) e o político. Qualquer ação individual é também política, assim como nossas crenças mais íntimas. E este é o grande salto que a peça “Viver sem Tempos Mortos” consegue dar, ao explicitar como aquilo que o existencialismo chamava engajamento toma forma e sentido na vida de um indivíduo.

É essa relação entre individual e político que constitui, talvez, a chave para compreender por que Simone de Beauvoir é hoje tão incompreendida e erroneamente criticada. A lógica neoliberal, consumista, individualista da contemporaneidade é forjada para construir, cristalizar e reproduzir a separação entre individual e político. Mais do que isso, para esvaziar o político e inflar o individual, a tal ponto que até mesmo em momentos de ação “explicitamente” política – como votar ou realizar uma manifestação – a maioria das pessoas usa argumentos individualistas e exclusivistas, desconsiderando que o político nos permeia. Para quem estar no mundo é submeter-se a essa lógica, uma postura como a de Simone de Beauvoir, de compromisso intelectual, político e amoroso com suas escolhas e com a liberdade não é sequer concebível, como seria compreensível?

As memórias de Simone de Beauvoir são a lembrança de que somos seres políticos até mesmo em nossas cartas de amor. Talvez, a expressão Viver sem tempos mortos seja não só uma frase emprestada por Simone de Beauvoir dos slogans de Maio de 1968, mas também uma forma de expressar qual é o papel do intelectual ao escrever suas memórias. Porque as memórias, ainda que não sejam absolutas, completas, totais, são a narrativa dos tempos e das experiências que permanecem vivos, e de modo peculiar, em cada um de nós. Para quem acredita que essa vida tem um significado político, cabe transmiti-los e eternizá-los. É isso que faz o memorialista: não, ele não conta a sua vida, ele impede que seu tempo morra.

—–

* A peça Viver sem Tempos Mortos (monólogo de Fernanda Montenegro, direção de Felipe Hirsch e direção de arte de Daniela Thomas) encerra sua temporada neste domingo, 11 de dezembro de 2011. Segundo informações da assessoria de imprensa do espetáculo, Fernanda Montenegro irá dedicar-se em 2012 a dois projetos no cinema e um na televisão. Por isso, não escrevi exclusivamente sobre a peça, mas a utilizo como motor de uma reflexão sobre Simone de Beauvoir.

** Cartas, em alguns momentos de suas vidas, diárias, mesmo quando poucos quarteirões os separavam, mesmo quando passavam o dia inteiro juntos. É, esses dois tinham muito o que dizer um ao outro.

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Esta é a primeira foto do casal Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre. Foi feita em 1929 e pode-se dizer que a fotógrafa é a própria Simone, já que essa era uma das atrações da feira de Porte d'Orleans nos anos 1920: o fotografado atirava em um alvo que, quando atingido, disparava a máquina fotográfica. Como recompensa pelo desempenho, as pessoas ganhavam a foto. Voilà!

Muito se especula sobre as relações amorosas entre Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre. Há quem compreenda, há quem critique, há quem inveje, há quem nunca conseguirá entender, há quem não tente, porque o caráter único desse amor desestabiliza todas as certezas e todas as ideias feitas sobre os relacionamentos.

Eu tenho minha opinião. Mas acho que o melhor, mesmo, é deixar Simone contar essa história aqui. Em A Força da Idade, ela revela como, em 1929, pouco depois de eles se conhecerem, Sartre fora designado para cumprir o serviço militar em Tours, a 200 quilômetros de Paris, a partir do ano seguinte, por 18 meses. Depois, ele havia solicitado um posto como professor de francês no Japão, onde, se aceito, ficaria dois anos.

O resto da história, nas palavras de Simone:

‘Entre nós’, explicava-me [Sartre] utilizando o vocabulário que lhe era caro, ‘trata-se de um amor necessário: convém que conheçamos também amores contingentes’. Éramos de uma mesma espécie e nossa compreensão duraria tanto quanto nós mesmos, mas ela não podia suprir as riquezas efêmeras dos encontros com seres diferentes; como consentiríamos deliberadamente em ignorar a gama dos espantos, das saudades, dos remorsos, dos prazeres que éramos também capazes de sentir? Refletimos longamente sobre isso durante nossos passeios. Uma tarde, com os Nizan, fôramos ver, no Champs-Élysées, Tempestade sobre a Ásia e, depois de os termos deixado, descêramos a pé até os jardins do Carrousel. Sentamos num banco de pedra ao lado de uma das alas do Louvre. Como encosto havia uma balaustrada separada do muro por um espaço estreito: nessa gaiola, um gato miava; como se metera ali dentro? E era grande demais para sair. A noite caía e uma mulher aproximou-se com um saco de papel nas mãos: tirou de dentro restos de comida e os deu ao gato, acariciando-o com ternura. Foi nesse momento que Sartre propôs: ‘Façamos um contrato de dois anos.’ Eu podia arranjar-me em Paris durante esses dois anos e viveríamos na intimidade mais estreita possível. Depois, ele me aconselhava a solicitar, eu também, uma situação no estrangeiro. Ficaríamos separados dois ou três anos e voltaríamos a nos encontrar em algum lugar do mundo, em Atenas, por exemplo, para retomar durante um tempo mais ou menos longo uma vida mais ou menos em comum. Nunca seríamos estranhos um ao outro, nunca um de nós apelaria ao outro em vão, e nada prevaleceria sobre essa aliança; mas era preciso que não degenerasse em constrangimento, em hábito; devíamos preservá-la por todos os meios desse apodrecimento. Aquiesci. A separação que Sartre encarava não deixava de me assustar, mas esboçava-se ao longe, e eu adotara como regra não me preocupar com problemas antecipados; contudo, à medida que o medo me assaltava, eu o encarava como uma fraqueza e esforçava-me por diminui-lo; o que me ajudava é que já comprovara a solidez das palavras de Sartre. Com ele, um projeto não era conversa fiada, e sim um momento de realidade. Se me dissesse um dia: ‘Encontro-a daqui a vinte e dois meses, exatamente às dezessete horas, na Acrópole’, poderia estar certa de que o encontraria na Acrópole às dezessete horas exatamente vinte e dois meses depois. De um modo mais geral, sabia que nenhuma desgraça vinda da parte dele me ocorreria, a não ser que morresse antes de mim.

Quanto às liberdades que nos tínhamos teoricamente concedido, não se tratava em absoluto de usá-las durante o período do ‘contrato’; entendíamos entregar-nos sem reticência e sem partilha à novidade de nossa história. Fizemos outro pacto: não somente nenhum de nós nunca mentiria ao outro, como também não lhe esconderia nada.

(…)

Enfim, nenhuma máxima atemporal impõe a todos os casais uma perfeita translucidez: cabe aos interessados decidirem que gênero de acordo desejam atingir; não têm nem direitos nem deveres a priori. Na minha adolescência, eu afirmava o contrário: inclinava-me demasiado a pensar que o que valia para mim valia para todos.

Hoje, em compensação, irrito-me quando terceiros aprovam ou censuram as relações que estabelecemos, sem levar em conta a particularidade que as explica ou justifica: esses sinais gêmeos em nossas frontes. A fraternidade que soldou nossas vidas tornava supérfluos e irrisórios todos os laços que teríamos podido forjar. Para que, por exemplo, morarmos sob o mesmo teto se o mundo era nossa propriedade comum? E por que recear distâncias entre nós que nunca poderiam nos separar?

A Força da Idade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010. pp.29-31

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Estes vídeos do programa Arquivo N, da Globonews, são preciosos. Não apenas por contar a história, recuperar fotos, reproduzir trechos obrigatórios de O Segundo Sexo e retratar a importância e a má recepção que teve o livro.

O programa reuniu vários trechos de entrevistas concedidas por Simone de Beauvoir na França, imagens raras e cenas de uma conversa/entrevista que ela fez com Sartre. Acho que os vídeos só pecam por apresentar uma análise superficial de O Segundo Sexo e por reproduzir uma reportagem da TV francesa de 1971 totalmente ideológica.

Mas, antes de pensar nisso, vejam com que desapego Simone reconta sua história, a mesma que ela registrou em seus livros de memórias. E, principalmente, aproveitem a  oportunidade de ver Simone de Beauvoir e de ouvir sua voz. É emocionante.

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Simone de Beauvoir, aos 42 anos. Chicago, 1950. Foto: Art Shay.

Esta foto de Simone de Beauvoir causou polêmica assim que veio a público, em 2005, no livro Tête-à-Tête, de Hazel Rowley. Acredito que pelo motivo óbvio: vemos a imagem com um olhar “informado” pelo feminismo e saturado de imagens de mulheres transformadas em objeto pela exposição de seus corpos nus, modelados para serem vendidos em capas de revista e programas de tevê. E então, imediatamente, enxergamos na foto uma contradição: como compreender que a grande “mentora” do feminismo se exibisse assim?

As teorias que surgiram sobre a foto na época foram as mais mirabolantes. Compararam Simone às garotas da Playboy, o que por si só já é problemático, pois a revista surgiu em 1953 e a foto é de 1950. Outros consideram a foto uma demonstração de que Simone não era tão feminista quanto se dizia, o que é outro argumento deslocado no tempo: em 1950, Simone ainda não era ou se considerava feminista. Ela só aderiu ao feminismo em fins dos anos 1960. Há ainda quem veja na fotografia uma submissão de Simone, mas quem diz isso certamente não não conhece sua relação com a liberdade.

Como esses, outros argumentos tentam utilizar a foto para apontar em Simone uma contradição irreconciliável com o feminismo e com seu próprio pensamento. Entretanto, e para desgosto de quem tenta tirar de Simone alguma base para seu machismo, acho que a história por trás da foto é muito simples.

Primeiro, vamos aos fatos: em 1950 Simone de Beauvoir vivia seu romance com Nelson Algren. O romance se iniciou em 1947, em sua primeira viagem aos Estados Unidos. Logo após o lançamento de O Segundo Sexo (1949), Simone foi duramente criticada, perseguida e caluniada na Europa. Decidiu sair de Paris e visitar Algren, que morava em Chicago, em uma casa que não tinha facilidades tais como chuveiros. Era verão. Uma tarde, ela quase se afogou no lago em que eles costumavam se banhar.

A foto foi feita em um daqueles dias quentes pelo fotógrafo Art Shay, amigo de Algren, que levou Simone à casa de um outro amigo para que ela pudesse tomar um banho. Nessa casa havia uma banheira, luxo supremo e seguro para quem quase morreu nadando.

Sobre aquele instante, o próprio Art Shay escreveu, e a história foi reproduzida por Hazel Rowley no livro: “Ela havia tomado seu banho. Depois, enquanto ela se arrumava na pia, tive um súbito impulso. Ela sabia que eu a havia fotografado, porque ouviu o clique de minha confiável Leica Model F. ‘Homem travesso’, disse ela.” (Art Shay fala mais sobre a foto neste texto.)

Simone não foi totalmente surpreendida pela fotografia. Ela também não se deixou fotografar nua sem protestar. E, mais ainda, Simone não fez da foto uma mercadoria. Era um momento íntimo e alguém que ela conhecia fez uma foto. O que pode haver de contraditório ou errado nisso?

Ela produziu uma foto juntamente com o fotógrafo. Ela, que acabara de escrever e publicar o primeiro volume de um livro sobre a mulher no qual falava sobre sexualidade, sobre o corpo humano, e sobre como a cultura constrói esse corpo moralmente, lançando sobre ele um peso que ele não tem, encerrando-o em uma redoma na qual ele não cabe e à qual ele não se ajusta. Simone desnudou sua vida em palavras em suas memórias. Desnudou seu pensamento em seus ensaios e romances. A foto de Simone nua é apenas a reafirmação de seu corpo e de sua presença no mundo. Até porque são ambos a mesma coisa.

A presença no mundo implica rigorosamente a posição de um corpo que seja a um tempo uma coisa do mundo e um ponto de vista sobre esse mundo: mas não se exige que esse corpo possua tal ou qual estrutura particular.

(O Segundo Sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009. Volume único, primeira parte, pg. 39.)

Creio que é tudo assim, muito simples. Mas dou a essa foto uma interpretação muito particular, atribuindo-lhe uma intencionalidade que ela certamente não tem, mas com a qual me divirto. Imagino Simone dando as costas para um mundo que condena pessoas por seu pensamento, por sua liberdade, e por seus corpos femininos. Ela lhe dá as costas, mas esse mundo não consegue deixar de olhá-la. Porque ela se tornou, em corpo e em pensamento, estonteante para quem vivia ou ainda vive de moralismos, hipocrisias e meias verdades.

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