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Archive for the ‘Com a palavra’ Category

No primeiro parágrafo de Memórias de Uma moça bem-comportada, publicado em 1958, Simone de Beauvoir descreve seu nascimento. As primeiras frases, cativantes, descrevem a foto abaixo e nada melhor para celebrar seu aniversário do que um trecho de sua escrita e a imagem que a inspirou.

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Nasci, às quatro horas da manhã, a 9 de janeiro de 1908, num quarto de móveis laqueados de branco e que dava para o Bulevar Raspail. Nas fotografias de família, tiradas no verão seguinte, veem-se senhoras de vestidos compridos e chapéus empenados de plumas de avestruz, senhores de palhetas e panamás sorrindo para o bebê: são meus pais, meu avô, meus tios, minhas tias, e sou eu. Meu pai tinha trinta anos, minha mãe, vinte e um, e eu era sua primeira filha.

Simone de Beauvoir, Memórias de uma moça bem-comportada,. Nova Fronteira, 2010.

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A velhice não é um fato estático; é o resultado e o prolongamento de um processo. Em que consiste este processo? Em outras palavras, o que é envelhecer? Esta ideia está ligada à ideia de mudança. Mas a vida do embrião, do recém-nascido, da criança, é uma mudança contínua. Caberia concluir daí,como fizeram alguns,que nossa existência é uma morte lenta? É evidente que não. Semelhante paradoxo desconhece a verdade essencial da vida: ela é um sistema instável no qual se perde e se reconquista o equilíbrio a cada instante; a inércia é que é o sinônimo de morte. A lei da vida é mudar.

Simone de Beauvoir. A Velhice. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990. p. 17.

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Simone de Beauvoir tinha apenas seis anos em 1914, quando a Primeira Guerra Mundial começou. Mas ela se lembrava daquele dia, em que brincava com a irmã e a prima Jeanne em Meyrignac, e o descreveu em suas memórias assim:

Certa manhã, brincávamos no monte de lenha com a serragem fresca quando dobraram os sinos: a guerra fora declarada. Ouvira pela primeira vez a palavra um ano antes em Lyon. Em tempo de guerra, tinham me dito, os indivíduos matam outros indivíduos: para onde fugiria eu? No decorrer do ano papai explicara-me que a guerra significa a invasão de um país por estrangeiros e pus-me a temer os numerosos japoneses que então vendiam leques e lanternas de papel nas praças. Mas não eram eles, nossos inimigos eram os alemães […]

Simone de Beauvoir em Memórias de uma moça bem-comportada, página 31. Nova Fronteira, 2009.

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Na infância, na adolescência, a leitura não era apenas minha distração predileta, mas também a chave que me abria o mundo. Ela me anunciava meu futuro: identificando-me com heroínas de romance, através delas pressentia meu destino. Nos momentos ingratos de minha juventude, salvou-me da solidão. Mais tarde, ajudou-me a ampliar meus conhecimentos, a multiplicar minhas experiências, a compreender melhor minha condição de ser humano e o sentido de meu trabalho de escritora. Hoje, minha vida está realizada, minha obra está realizada, ainda que possa prolongar-se: nenhum livro me proporcionaria uma revelação fulminante. No entanto, continuo lendo muito: pela manhã, à tarde, antes de começar a trabalhar, ou quando estou cansada de escrever; se, por acaso, passo uma noite sozinha, leio; no verão, em Roma, passo horas lendo. Nenhuma ocupação me parece tão natural. No entanto, pergunto-me: se nada mais de decisivo pode ocorrer-me através dos livros, por que continuo tão presa a eles?

A alegria de ler: esta não diminuiu. Fico sempre maravilhada com a metamorfose dos pequenos sinais pretos numa palavra que me joga no mundo, que traz o mundo para dentro de minhas quatro paredes. O texto mais ingrato consegue provocar esse milagre. J.F., 30 anos, estenodatilógrafa exp. procura trab. três vezes por semana. Leio esse pequeno anúncio e a França se povoa de máquinas de escrever e de jovens desempregadas. Já o sei: o taumaturgo sou eu. Se fico inerte diante das linhas impressas, elas se calam; para que adquiram vida, é preciso que eu lhes dê um sentido e que minha liberdade lhes proporcione sua própria temporalidade, conservando o passado e ultrapassando-o na direção do futuro. Mas, como durante essa operação escondo-me, ela me parece mágica. Por momentos, tenho consciência de que colaboro com o autor para fazer existir a página que decifro: agrada-me contribuir para a criação do objeto que usufruo. Esse prazer é recusado ao escritor: mesmo quando se relê, a frase saída de sua pena lhe escapa. O leitor é mais favorecido: é ativo e, no entanto, o livro lhe proporciona riquezas imprevisíveis.

(…)

Abro as cortinas do meu quarto, deito-me num divã, tudo em volta deixa de existir, ignoro-me a mim mesma: existe somente a página preta e branca que meus olhos percorrem. E eis que me ocorre a surpreendente aventura relatada por alguns sábios taoístas: abandonando em seu leito uma carcaça inerte, eles levantavam voo; durante séculos viajavam de cume em cume, através da terra inteira e até o céu. Quando reecontravam seu corpo, este não envelhecera. Assim vago eu, imóvel, sob outros céus em épocas passadas, e é possível que transcorram séculos antes que me reencontre, a duas ou três horas de distância, neste lugar do qual não saí. Nenhuma experiência é comparável a esta. (…) Somente a leitura, com uma economia extraordinária de meios – apenas um volume em minha mão -, cria relações novas e duráveis entre mim e as coisas.

Simone de Beauvoir. Balanço Final. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990 [1972]. pp. 153-154.

Simone de Beauvoir, lendo, em seu apartamento em Paris. Data: 12 de outubro de 1976. Foto: Jacques Pavlovsky.

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Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre, Zélia Gattai e Jorge Amado com Mãe Senhora, em Salvador, Bahia. Agosto, 1960. Foto: Fundação Casa de Jorge Amado.

Por duas vezes o carro nos levou, à noite, através daquelas montanhas-russas que são os subúrbios da Bahia, até casas longínquas onde rufavam tambores. (…) Durante uma das festas, uma jovem negra estava terminando o ciclo de iniciação. Com a cabeça raspada, vestida de branco, tremia ligeiramente, com o olhar fixo no invisível, ao mesmo tempo presente e distante, como meu pai em sua agonia. No fim, entrou em transe, partiu e voltou transfigurada por uma alegria misteriosa.

Fiz a pergunta clássica: ‘Como se explicam os transes’? Só a mãe de santo tem o direito de simulá-los, para facilitar a descida dos orixás: e me pareceu que uma das duas usou realmente dessa permissão. Todos os observadores estão de acordo em afirmar que as outras não trapaceiam, e u não tinha dúvidas disso: tanto para elas quanto para o espectador, sua metamorfose era uma surpresa; elas também não pareciam neuróticas nem drogadas: as velhas, sobretudo, irônicas e alegres, chegavam ao candomblé com todo seu bom senso cotidiano. E então? Vivaldo [da Costa Lima], muito claramente, e Pierre Verger, com menos franqueza, falaram de intervenção do sobrenatural. [Jorge] Amado e todos os outros confessavam-se ignorantes. O certo é que esses fatos nada têm de patológico, mas são de ordem cultural; encontramos experiências análogas em todos os lugares onde indivíduos estão divididos entre duas civilizações. Obrigados a se dobrarem ao mundo ocidental, os negros da Bahia, outrora escravos, hoje explorados, sofrem uma opressão que chega a lhes tirar a posse de si mesmos; para se defenderem, não lhes basta preservar seus costumes, suas tradições e suas crenças: eles cultivam as técnicas que os ajudam a se arrancar, através do êxtase, da personagem mentirosa na qual foram aprisionados; no instante em que parecem perder-se é que se reencontram: eles são possuídos, sim, mas por sua própria verdade.  O candomblé, se não transforma os seres humanos em deuses, ao menos, através da cumplicidade de espíritos imaginários, restitui a humanidade a homens rebaixados à categoria de rebanho. O catolicismo lança os pobres de joelhos diante de Deus e de seus sacerdotes. Pelo candomblé, ao contrário, eles experimentam essa soberania que todo homem deveria poder reivindicar. (…) O momento supremo de sua vida individual – quando, de vendedora de bolos ou de lavadora de pratos, ela se transforma em Ogum ou Iemanjá – é também aquele em que a filha-de-santo integra-se mais estreitamente em sua comunidade. Poucas sociedades oferecem a seus membros oportunidade semelhante: realizar sua ligação com todos, não na banalidade cotidiana, mas através daquilo que se experimenta de mais íntimo e mais precioso.

Simone de Beauvoir, A Força das Coisas. Tradução de Maria Helena Franco Martins. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010. pp. 563-564.

O trecho acima (editado), é parte das reflexões que Simone de Beauvoir fez sobre a cultura brasileira durante sua visita ao País em agosto e setembro de 1960. Na visita, Simone de Beauvoir e Sartre tiveram como cicerones Jorge Amado e Zélia Gattai. A relação cotidiana se transformou em uma bela amizade sobre a qual escrevi no texto Quando o  existencialismo descobriu a saudade, em Umbigo das Coisas.

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Simone de Beauvoir no Deux Magots, 1944. Foto: Robert Doisneau.

[julho, 1946]

Sentava-me no Deux Magots, olhava a página em branco. Sentia a necessidade de escrever na ponta dos meus dedos, e o gosto das palavras na garganta, mas não sabia o que começar. “Que ar bravo você tem!”, disse-me certa vez Giacometti. “É que eu queria escrever, e não sei o quê.” “Escreva qualquer coisa.” Na verdade, eu tinha vontade de falar de mim. Gostava de L’Âge d’homme, de Leiris: gostava dos ensaios-mártires, nos quais nos explicamos sem pretexto. Comecei a pensar nisso, a tomar algumas notas, e falei do assunto com Sartre. Tive consciência de que uma primeira questão se colocava: o que significava para mim ser mulher? Primeiro pensei poder livrar-me disso rápido. Nunca tive sentimento de inferioridade, ninguém me havia dito: “Você pensa assim porque é mulher”; minha feminilidade não me atrapalhava em nada. “Para mim”, disse eu a Sartre, “isso, por assim dizer, não contou”. “De qualquer modo, você não foi criada da mesma maneira que um menino: seria preciso prestar mais atenção a isso.” Eu prestei e tive uma revelação: este mundo era um mundo masculino, minha infância fora nutrida de mitos forjados pelos homens e eu não teria de modo algum reagido a isso do mesmo modo como reagiria se tivesse sido um menino. Fiquei tão interessada, que abandonei o projeto de uma confissão pessoal para me ocupar da condição feminina em sua generalidade. Fui fazer leituras na [Biblioteca] Nacional e estudei os mitos da feminilidade.

Simone de Beauvoir, A Força das Coisas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, p. 113.

No trecho acima, Simone conta como começou suas pesquisas para aquele que seria seu ensaio mais extenso e trabalhoso e, também, seu livro mais importante e influente para várias gerações. O primeiro volume da obra que nascia naqueles dias diante da página em branco no Deux Magots foi publicado em 24 de maio de 1949. Hoje, O Segundo Sexo completa 62 anos.

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O Segundo Sexo é um livro destruidor de mitos. Em cada uma de suas páginas, Simone de Beauvoir dedica todo seu cuidado de pesquisa e sua inteligência a mostrar que a imagem que se contruiu ao longo dos séculos da mulher como símbolo de beleza, de pureza, de perfeição, do bem, da virtude, do amor maternal, da “natureza” acolhedora e benévola não passa de uma armadilha. É com essas palavras que se opera uma das estratégias de dominação: transformar a mulher em algo diferente do humano, mantê-la na condição de outro, aprisioná-la na posição de passividade, evitar sua resistência ao poder que a oprime. A mulher é enredada em uma farsa.

Em troca de sua liberdade, presentearam-na com os tesouros falazes de sua ‘feminilidade’. Balzac descreveu muito bem essa manobra quando aconselhou ao homem que a tratasse como escrava, persuadindo-a de que é rainha.

O Segundo Sexo, volume único. São Paulo: Nova Fronteira, 2010, pp. 923-924.

Por isso, neste Dia Internacional da Mulher, acho que a melhor comemoração é dedicar alguns minutos para uma reflexão. Queremos ser “rainhas” em um mundo de desigualdades? Queremos ficar presas a uma imagem falsamente elogiosa mas, na verdade, violenta, porque destroi nossa liberdade de luta e nossa autonomia sobre nossos corpos e nossas mentes? Deixo aqui alguns parágrafos de outro trecho de O Segundo Sexo em que Simone de Beauvoir nos convida a essa reflexão.

O mito da mulher desempenha um papel considerável na literatura; mas que importância tem na vida quotidiana? Em que medida afeta os costumes e as condutas individuais? Para responder a essas perguntas seria necessário determinar as relações que mantém com a realidade.

Há diversas espécies de mitos. Este, sublimando um aspecto imutável da condição humana que é o “seccionamento” da humanidade em duas categorias de invidíduos, é um mito estático; projeta em um céu platônico uma realidade apreendida na experiência ou conceitualizada a partir da experiência. Ao fato, ao valor, à significação, à noção, à lei empírica, ele substitui uma ideia transcendente, não temporal, imutável, necessária. Essa ideia escapa a qualquer contestação porquanto se situa além do dado; é dotada de uma verdade absoluta.

Assim, à existência dispersa, contingente e múltipla das mulheres, o pensamento mítico opõe o Eterno Feminino único e cristalizado; se a definição que se dá desse Eterno Feminino é contrariada pela conduta das mulheres de carne e osso, estas é que estão erradas. Declara-se que as mulheres não são femininas e não que a Feminilidade é uma entidade. Os desmentidos da experiência nada podem contra o mito. Entretanto, de certa maneira, este tem sua fonte nela. Assim é exato que a mulher é outra e essa alteridade é concretamente sentida no desejo, no amplexo, no amor; mas a relação real é de reciprocidade; como tal, ela engendra dramas autênticos: através do erotismo, do amor, da amizade e suas alternativas de decepção, ódio, rivalidade, ela é luta de consciências que se consideram essenciais, é reconhecimento de liberdades que se confirmam mutuamente, é a passagem indefinida da inimizade à cumplicidade. Por a Mulher é por o Outro absoluto, sem reciprocidade, recusando contra a experiência que ela seja um sujeito, um semelhante.

(…)

Como as representações coletivas e, entre outros, os tipos sociais definem-se geralmente por pares de termos opostos, a ambivalência parecerá uma propriedade intrínseca do Eterno Feminino. A mãe santa tem como correlativo a madrasta cruel; a moça angélica, a virgem perversa: por isso ora se dirá que a Mãe é igual à Vida, ora que é igual à Morte, que toda virgem é puro espírito ou carne votada ao diabo. Não é evidentemente a realidade que dita à sociedade ou aos indivíduos a escolha entre os dois princípios opostos de unificação; em cada época, em cada caso, sociedade e indivíduos decidem de acordo com suas necessidades. Muitas vezes projetam no mito adotado as instituições e os valores a que estão apegados. Assim, o paternalismo, que reclama a mulher no lar, define-a como sentimento, interioridade e imanência; na realidade, todo existente é, ao mesmo tempo, imanência e transcendência; quando não lhe propõem um objetivo, quando o impedem de atingir algum, quando o frustram em sua vitória, sua transcendência cai inutilmente no passado, isto é, recai na imanência; é o destino da mulher, no patriarcado; não se trata, porém, da mesma vocação tal como a escravidão não é a vocação do escravo. Percebe-se claramente, em Comte, o desenvolvimento dessa mitologia. Identificar a Mulher ao Altruísmo é garantir ao homem direitos absolutos à sua dedicação, é impor às mulheres um dever-ser categórico.

O Segundo Sexo, volume único. São Paulo: Nova Fronteira, 2010, pp. 343-345.

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