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Archive for the ‘contingência’ Category

A velhice não é um fato estático; é o resultado e o prolongamento de um processo. Em que consiste este processo? Em outras palavras, o que é envelhecer? Esta ideia está ligada à ideia de mudança. Mas a vida do embrião, do recém-nascido, da criança, é uma mudança contínua. Caberia concluir daí,como fizeram alguns,que nossa existência é uma morte lenta? É evidente que não. Semelhante paradoxo desconhece a verdade essencial da vida: ela é um sistema instável no qual se perde e se reconquista o equilíbrio a cada instante; a inércia é que é o sinônimo de morte. A lei da vida é mudar.

Simone de Beauvoir. A Velhice. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990. p. 17.

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Assisti na última sexta-feira, 9 de dezembro, a uma das últimas apresentações do espetáculo Viver sem Tempos Mortos, em que Fernanda Montenegro interpreta um texto baseado nas memórias de Simone de Beauvoir e nas cartas que ela escreveu a Jean-Paul Sartre*. A montagem, de um respeito absoluto com a história e o pensamento da escritora, me emocionou, não apenas por dar vida a palavras que Simone escreveu, mas por conseguir captar o verdadeiro sentido que ela quis imprimir em sua vida.

O texto da peça é uma colagem de trechos dos escritos de Simone e foi produzido em conjunto por Fernanda Montenegro e pelo tradutor Newton Goldman. As frases e relatos selecionados pelos dois dramaturgos conseguem contar a história da escritora como se invadíssemos secretamente seu fluxo de consciência num momento em que ela revisita sua própria vida, sem omissões, sem disfarces, sem reducionismos, sem floreios, sem justificativas.

É desta forma que o texto consegue preservar sua origem, as memórias e relatos íntimos da escritora, e mantém intacto o despojamento de intencionalidade que diferencia as memórias das autobiografias. Ao fim do espetáculo, comecei a pensar na diferença conceitual entre autobiografia e memória e nos motivos que fizeram com que Simone de Beauvoir se dedicasse ao trabalho de uma memorialista. (Há pessoas que dizem que todas as obras de Simone são autobiográficas, uma afirmação que contém de cara dois erros: o desconhecimento de sua proposta intelectual e do conjunto de sua obra e a confusão entre autobiografia e memória.)

Fernanda Montenegro no espetáculo ‘Viver sem Tempos Mortos’. Foto: Divulgação.

Memória e acaso

Autobiografias costumam ser construções objetivas, como se o protagonista olhasse para si mesmo como um observador, e narrasse o que esse olhar descobre. O biógrafo de si mesmo produz um texto sobre sua vida, narra de modo linear e fechado a história de uma vida que encerra-se em si mesma, uma vida que se explica (e muitas vezes, se justifica). A autobiografia é uma construção intencional.

Esse trabalho nada tem em comum com o trabalho empreendido por um memorialista. Este se debruça sobre um fluxo de lembranças, recordações, sentimentos, que o revelam como um indivíduo que se insere no contexto histórico, familiar, social de sua época. A memória é uma escrita subjetiva, atrelada ao lugar que aquela pessoa ocupa no mundo, e está repleta de ambiguidades, dúvidas sem respostas, reflexões e questionamentos acerca desse que fala e da posição de onde se fala. O memorialista é um indivíduo que registra a descoberta de que é um ser no mundo, o biógrafo de si mesmo é um indivíduo que cria uma identidade imutável, a sua. Ao ler – ou ouvir, como no caso do espetáculo teatral – as memórias de alguém podemos entrar em contato com o indivíduo em sua contingência.

É curioso que aparentemente, as memórias possam parecer mais seletivas do que uma narrativa quando, na verdade, o que ocorre, é o contrário. As memórias não são lineares e não podem ser controladas inteiramente: que encadeamento de fatos e emoções nossas lembranças permitem? Depois de recordar o dia em que ela e seu grupo feminista gritaram diante de uma igreja onde se celebrava um casamento a frase “libertem a noiva” – momento que leva a plateia às gargalhadas –, qual será a lembrança seguinte de Simone de Beauvoir e como ela irá contá-la? São infinitas possibilidades e, nesse sentido, as memórias se aproximam – embora, é claro, não se igualem – a uma fala inconsciente, livre, construída a partir de associações cuja lógica de encadeamento não se controla nem se conhece.

Uma das grandes realizações da peça “Viver sem Tempos Mortos” é justamente captar essa essência das memórias em um texto construído, cujo encadeamento de relatos e pensamentos foi produzido por dois dramaturgos, objetivamente, com a motivação de contar uma história. Entretanto, essa construção é uma costura fina, invisível, e o público se sente diante da hesitação e da sutileza das infinitas possibilidades que caracterizam as memórias.

Acredito que, nesse sentido, a interpretação de Fernanda Montenegro tem um papel fundamental. A atriz (e nada vou dizer sobre Fernanda, pois acredito que seria cair em pretensões ou em lugares-comuns) poderia dar voz a Simone de modo tão absoluto. No palco, Fernanda se despe de toda caracterização, de toda a vaidade, de toda a semelhança, de toda a encenação para deixar que o texto seja “criado”  diante da plateia. A peça é, então, é o retrato de como Simone de Beauvoir relacionava-se consigo mesma e com sua época e de como ela existiu: com suas angústias, dores, sofrimentos, erros… O espetáculo consegue respeitar tudo isso sem julgamentos.

Vemos Fernanda Montenegro em sua camisa branca e sua calça preta, sentada em uma cadeira, nenhum cenário ao redor. A sensação é de estarmos diante de Simone de Beauvoir. A escritora nos conta suas memórias. Com a interpretação de Fernanda, as palavras pintam em nossa imaginação o cenário que não está no palco. Quando a fala de Simone poderia se deter por alguns instantes na justificativa de uma atitude ou uma escolha, na explicação de uma passagem de sua vida, o texto simplesmente encadeia o relato em um novo relato ou na revelação de um sentimento e segue adiante. Assim, percebemos que as memórias não têm fim e carregam em si a marca da insegurança e do acaso (palavra, aliás, que pontua alguns trechos da peça por meio da citação “O acaso tem sempre a última palavra”). Além, é claro, de funcionar em simbiose com o seu oposto, o esquecimento. E saímos do teatro certos de que Simone poderia nos dizer muito mais. E queremos mais.

Viver sem Tempos Mortos consegue, assim, contar a história da escritora e filósofa mas, principalmente, revelar sua forma particular e única de estar no mundo: seu íntimo compromisso com o grupo de intelectuais, amigos, militantes políticos, amores e ideias que abraçou ao longo da vida; sua total dedicação ao projeto intelectual de fazer da sua vida a matéria-prima de sua obra de modo a construir, sim, um pensamento marcado pela subjetividade; sua plena confiança de que é a experiência individual que define nossa relação única com o mundo e nossa possibilidade de construir uma reflexão inédita. (Falei um pouco sobre isso aqui). Reduzir Simone de Beauvoir a uma autora de autobiografias certamente é perder o sentido de toda a amplitude desse projeto intelectual e do significado de um conhecimento produzido a partir da experiência.

Algo que Simone de Beauvoir pretendeu ao escrever suas memórias foi mostrar que não há separação entre o individual (ou íntimo) e o político. Qualquer ação individual é também política, assim como nossas crenças mais íntimas. E este é o grande salto que a peça “Viver sem Tempos Mortos” consegue dar, ao explicitar como aquilo que o existencialismo chamava engajamento toma forma e sentido na vida de um indivíduo.

É essa relação entre individual e político que constitui, talvez, a chave para compreender por que Simone de Beauvoir é hoje tão incompreendida e erroneamente criticada. A lógica neoliberal, consumista, individualista da contemporaneidade é forjada para construir, cristalizar e reproduzir a separação entre individual e político. Mais do que isso, para esvaziar o político e inflar o individual, a tal ponto que até mesmo em momentos de ação “explicitamente” política – como votar ou realizar uma manifestação – a maioria das pessoas usa argumentos individualistas e exclusivistas, desconsiderando que o político nos permeia. Para quem estar no mundo é submeter-se a essa lógica, uma postura como a de Simone de Beauvoir, de compromisso intelectual, político e amoroso com suas escolhas e com a liberdade não é sequer concebível, como seria compreensível?

As memórias de Simone de Beauvoir são a lembrança de que somos seres políticos até mesmo em nossas cartas de amor. Talvez, a expressão Viver sem tempos mortos seja não só uma frase emprestada por Simone de Beauvoir dos slogans de Maio de 1968, mas também uma forma de expressar qual é o papel do intelectual ao escrever suas memórias. Porque as memórias, ainda que não sejam absolutas, completas, totais, são a narrativa dos tempos e das experiências que permanecem vivos, e de modo peculiar, em cada um de nós. Para quem acredita que essa vida tem um significado político, cabe transmiti-los e eternizá-los. É isso que faz o memorialista: não, ele não conta a sua vida, ele impede que seu tempo morra.

—–

* A peça Viver sem Tempos Mortos (monólogo de Fernanda Montenegro, direção de Felipe Hirsch e direção de arte de Daniela Thomas) encerra sua temporada neste domingo, 11 de dezembro de 2011. Segundo informações da assessoria de imprensa do espetáculo, Fernanda Montenegro irá dedicar-se em 2012 a dois projetos no cinema e um na televisão. Por isso, não escrevi exclusivamente sobre a peça, mas a utilizo como motor de uma reflexão sobre Simone de Beauvoir.

** Cartas, em alguns momentos de suas vidas, diárias, mesmo quando poucos quarteirões os separavam, mesmo quando passavam o dia inteiro juntos. É, esses dois tinham muito o que dizer um ao outro.

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Esta é a primeira foto do casal Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre. Foi feita em 1929 e pode-se dizer que a fotógrafa é a própria Simone, já que essa era uma das atrações da feira de Porte d'Orleans nos anos 1920: o fotografado atirava em um alvo que, quando atingido, disparava a máquina fotográfica. Como recompensa pelo desempenho, as pessoas ganhavam a foto. Voilà!

Muito se especula sobre as relações amorosas entre Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre. Há quem compreenda, há quem critique, há quem inveje, há quem nunca conseguirá entender, há quem não tente, porque o caráter único desse amor desestabiliza todas as certezas e todas as ideias feitas sobre os relacionamentos.

Eu tenho minha opinião. Mas acho que o melhor, mesmo, é deixar Simone contar essa história aqui. Em A Força da Idade, ela revela como, em 1929, pouco depois de eles se conhecerem, Sartre fora designado para cumprir o serviço militar em Tours, a 200 quilômetros de Paris, a partir do ano seguinte, por 18 meses. Depois, ele havia solicitado um posto como professor de francês no Japão, onde, se aceito, ficaria dois anos.

O resto da história, nas palavras de Simone:

‘Entre nós’, explicava-me [Sartre] utilizando o vocabulário que lhe era caro, ‘trata-se de um amor necessário: convém que conheçamos também amores contingentes’. Éramos de uma mesma espécie e nossa compreensão duraria tanto quanto nós mesmos, mas ela não podia suprir as riquezas efêmeras dos encontros com seres diferentes; como consentiríamos deliberadamente em ignorar a gama dos espantos, das saudades, dos remorsos, dos prazeres que éramos também capazes de sentir? Refletimos longamente sobre isso durante nossos passeios. Uma tarde, com os Nizan, fôramos ver, no Champs-Élysées, Tempestade sobre a Ásia e, depois de os termos deixado, descêramos a pé até os jardins do Carrousel. Sentamos num banco de pedra ao lado de uma das alas do Louvre. Como encosto havia uma balaustrada separada do muro por um espaço estreito: nessa gaiola, um gato miava; como se metera ali dentro? E era grande demais para sair. A noite caía e uma mulher aproximou-se com um saco de papel nas mãos: tirou de dentro restos de comida e os deu ao gato, acariciando-o com ternura. Foi nesse momento que Sartre propôs: ‘Façamos um contrato de dois anos.’ Eu podia arranjar-me em Paris durante esses dois anos e viveríamos na intimidade mais estreita possível. Depois, ele me aconselhava a solicitar, eu também, uma situação no estrangeiro. Ficaríamos separados dois ou três anos e voltaríamos a nos encontrar em algum lugar do mundo, em Atenas, por exemplo, para retomar durante um tempo mais ou menos longo uma vida mais ou menos em comum. Nunca seríamos estranhos um ao outro, nunca um de nós apelaria ao outro em vão, e nada prevaleceria sobre essa aliança; mas era preciso que não degenerasse em constrangimento, em hábito; devíamos preservá-la por todos os meios desse apodrecimento. Aquiesci. A separação que Sartre encarava não deixava de me assustar, mas esboçava-se ao longe, e eu adotara como regra não me preocupar com problemas antecipados; contudo, à medida que o medo me assaltava, eu o encarava como uma fraqueza e esforçava-me por diminui-lo; o que me ajudava é que já comprovara a solidez das palavras de Sartre. Com ele, um projeto não era conversa fiada, e sim um momento de realidade. Se me dissesse um dia: ‘Encontro-a daqui a vinte e dois meses, exatamente às dezessete horas, na Acrópole’, poderia estar certa de que o encontraria na Acrópole às dezessete horas exatamente vinte e dois meses depois. De um modo mais geral, sabia que nenhuma desgraça vinda da parte dele me ocorreria, a não ser que morresse antes de mim.

Quanto às liberdades que nos tínhamos teoricamente concedido, não se tratava em absoluto de usá-las durante o período do ‘contrato’; entendíamos entregar-nos sem reticência e sem partilha à novidade de nossa história. Fizemos outro pacto: não somente nenhum de nós nunca mentiria ao outro, como também não lhe esconderia nada.

(…)

Enfim, nenhuma máxima atemporal impõe a todos os casais uma perfeita translucidez: cabe aos interessados decidirem que gênero de acordo desejam atingir; não têm nem direitos nem deveres a priori. Na minha adolescência, eu afirmava o contrário: inclinava-me demasiado a pensar que o que valia para mim valia para todos.

Hoje, em compensação, irrito-me quando terceiros aprovam ou censuram as relações que estabelecemos, sem levar em conta a particularidade que as explica ou justifica: esses sinais gêmeos em nossas frontes. A fraternidade que soldou nossas vidas tornava supérfluos e irrisórios todos os laços que teríamos podido forjar. Para que, por exemplo, morarmos sob o mesmo teto se o mundo era nossa propriedade comum? E por que recear distâncias entre nós que nunca poderiam nos separar?

A Força da Idade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010. pp.29-31

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A utilização estratégica da questão do aborto na campanha presidencial de 2010 me fez adiantar este post. Achei pertinente falar sobre Simone de Beauvoir e esse tema, porque ela foi uma das principais intelectuais do século XX a enfrentá-lo publicamente. Além disso, tenho certeza de que minha posição a favor da descriminalização do aborto (meus motivos estão aqui) foi construída de forma consciente porque muito cedo tive contato com as ideias de Simone.

Em 5 abril de 1971, o Nouvel Observateur publicou um manifesto assinado por  Simone de Beauvoir que ficou conhecido como o “Manifesto das 343”. No documento, ela, Marguerite Duras, Françoise Sagan, Catherine Deneuve e Jeanne Moreau, entre outras, admitiam ter feito aborto ilegal e exigiam que o governo francês garantisse às mulheres o direito à contracepção gratuita e ao aborto legal. O documento foi um escândalo, as mulheres que ousaram colocar seu nome ali foram humilhadas e destratadas publicamente. De Simone, diziam: “a mulher que fez mais de 100 abortos”.

Simone nunca fez um aborto, garante sua filha adotiva, Sylvie Le Bon, em diversas entrevistas. Mas a questão, obviamente, não era essa. O documento pretendia pressionar o governo francês, obrigá-lo a encarar que o aborto acontecia livremente, sem que o Estado tomasse nenhuma atitude. Com mulheres tão famosas assumindo o suposto “crime”, o que as autoridades poderiam fazer? Uma coisa era certa: não poderiam mais ignorar o debate. Assinar o documento, naquele momento, era defender mais de um milhão de mulheres francesas que faziam abortos ilegais a cada ano, muitas delas morrendo (exatamente como acontece hoje no Brasil, 40 anos depois). O aborto foi legalizado na França em 1974, mas só na década de 1980 passou a ser possível pelo sistema público de saúde do país.

Mesmo antes do manifesto, Simone e Sartre jamais foram alheios à questão. Em O Sangue dos Outros (de 1945), Simone coloca uma de suas personagens diante do dilema. Na trilogia Os Caminhos da Liberdade (1945 a 1949), Sartre faz seu personagem masculino se posicionar diante do mesmo problema: sua namorada está grávida e ele deseja o aborto. E ela?

No livro, Simone mostra com sensibilidade como a mulher se encontra dividida diante de uma gravidez não desejada. A situação é ambígua, o peso moral da decisão é paralisante. Para uma mulher a quem o aborto se apresenta como uma solução, a experiência é de angústia. Vêm à tona o paradoxo e a complementaridade entre contingência e liberdade (post anterior). A contingência é representada por sua condição social, sua classe, sua fé, sua família. A liberdade, pela decisão.

No livro O Segundo Sexo (faça download do volume 1 e do volume 2), Simone vai muito além. Ela mostra como o controle do aborto é o controle da sexualidade da mulher. O terror de engravidar (lembremos que a pílula ainda não existia, em 1949) fazia com que muitas mulheres só se iniciassem sexualmente após o casamento. Além disso, a criminalização do aborto era (e é) instrumento de dominação, assim como o mito do amor materno. Exigir que uma mulher tenha um filho que ela não deseja, não pode criar, e talvez não esteja disposta ou capacitada para amar, é tirar dela o poder de decisão sobre sua vida. Como ao homem é dado esse poder, é também negar a igualdade.

Simone lembra que o aborto também é uma estratégia de dominação de classe: se a classe trabalhadora não tem acesso a ele, se reproduz mais, a mão de obra disponível é mais numerosa, os salários são mais baixos, a possibilidade de ascensão e as oportunidades, menores. Nega-se, assim, a possibilidade de igualdade de direitos das mulheres ricas e pobres.

Ela também mostra que transformar o aborto em crime é uma forma de impor à mulher um sofrimento desumano. Se ela opta pelo aborto, tem de suportar sozinha o peso de ser uma “criminosa”. Se opta por ter um filho que não deseja, carrega a culpa e a carga afetiva negativa dessa relação por toda a vida. Proibir o aborto, portanto, é aprisionar a mulher na condição de culpada. Culpada pela lei e pela sociedade por cometer um “crime”; culpada por si mesma e pela família por não desejar um filho. Em uma sociedade que construiu o mito de que toda mulher tem a oferecer – e deve oferecer – seu amor a um filho, essa culpa é muito grande. A mulher que não pode, não quer ou não tem filhos fica subjugada pela ideia de que “é da natureza da mulher ter filhos”.

Lendo Simone aprendi que criminalizar o aborto é uma maneira de reproduzir e sustentar a desigualdade entre homens e mulheres e entre ricos e pobres. É reduzir as mulheres à reprodução e negar-lhes oportunidades, sonhos, desejos, projetos, direitos.

Gosto especialmente de uma frase de Simone, do livro Balanço Final, que resume por que as mulheres devem ter seus direitos – todos – preservados e defendidos:

“Eu não acredito que existam qualidades, valores, modos de vida especificamente femininos: seria admitir a existência de uma natureza feminina, quer dizer, aderir a um mito inventado pelos homens para prender as mulheres na sua condição de oprimidas. Não se trata para a mulher de se afirmar como mulher, mas de tornar-se ser humano na sua integridade.”

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Em 1929, Simone de Beauvoir prestou o exame da agrégation em Filosofia (um concurso para admissão de novos professores no sistema público de ensino da França). Todos os candidatos passavam por uma bateria de avaliações: a elaboração de uma dissertação (a de Simone foi sobre Leibniz), um exame oral e a prova escrita, que naquele ano teve como tema “Liberdade e Contingência”.

Jean-Paul Sartre também fez o exame da agrégation em 1929. Mais velho do que Simone, ele fora reprovado no exame anterior na prova escrita, o que para toda a Sorbonne foi uma surpresa. Sartre sempre foi reconhecidamente “mais do que inteligente” e tinha dons de sedutor. Não deveria ser difícil para ele convencer os examinadores.

Em 1929, ambos foram aprovados. Sartre, em primeiro lugar. Simone, em segundo. Só que o feito dela era ainda mais impressionante para os “sorbonnianos”. Afinal, Sartre era um “repetente” e Simone, a mais jovem estudante a obter a agrégation até então.

Esses fatos podem parecer fofocas sobre o casal mais polêmico e incompreendido (ouso dizer também, invejado) do século XX. Mas sempre penso que não. Gosto de imaginar que, depois da prova daquele dia, como quaisquer estudantes de Filosofia, inteligentes e exaustos, lá foram os dois, amigos recentes, beber em um café e comentar o exame. O que haviam escrito? Por quê? Com base em que reflexões e pensadores? Ali eles começavam a trilhar juntos uma rota intelectual e afetiva que compartilharam em pensamento e vida.

Todos os escritos de Sartre são um diálogo com o paradoxo e a complementaridade entre Liberdade e Contingência. Pura Contingência cair aquele tema na prova. Mas diante dela, os dois filósofos se encontraram com a questão que os acompanhou em tudo o que escreveram.

Sartre foi exaustivo nas reflexões filosóficas sobre o tema. Simone o retoma em textos literários e ensaios. Tenho a impressão de que Simone traz as reflexões filosóficas ao nível de todos nós, ela abre o acesso ao debate que, em Sartre, é mais hermético. E acho que isso, vindo de uma filósofa, é manifestação de genialidade.

Para o existencialismo, a Contingência é a condição humana. Existimos na Contingência e a Liberdade consiste em transcendê-la, desenvolvendo nossas possibilidades.

Liberdade é ação, não algo dado, alguma dádiva que cai sobre nós e nos permite fazer tudo o que queremos. Haverá sempre uma Contingência – família, condição social, momento histórico – para nos impedir de fazer tudo o que queremos. E as inúmeras possibilidades de ação vão se reduzir a duas, três, dez que sejam. Em O Existencialismo é um Humanismo (download do pdf), Sartre explica isso de modo bem claro.

A Liberdade existencialista consiste em escolher comprometer-se com o mundo, sempre considerando como mais importante não aquilo que as Contingências fazem do indivíduo, mas o que ele pode fazer de si mesmo. A Contingência condiciona, mas não determina o que podemos ser. Portanto, somos livres, irremediavelmente livres. Essa é a dificuldade. Se a Contingência fosse apenas o fim da Liberdade, estaríamos para sempre escravizados pelo mundo e não haveria angústia, porque não teríamos escolha. A Liberdade é angústia porque implica em escolha.

Não sou filósofa e, por isso, esse é só um aperitivo limitado sobre o tema. Para pensar a Liberdade e a Contingência pela literatura, uma opção é ler a trilogia Os Caminhos da Liberdade ou o romance A Náusea, de Sartre. Mas melhor ainda é ler os romances de Simone.

Em Todos os Homens são Mortais (esgotado, mas você acha em sebos), ela cria um personagem imortal. Ele passa pela história, pela vida sem fim, enfrentando esse dilema entre Liberdade e Contingência. Ele sobrevive a tudo. Não há guerra, não há tragédia, não há dor de amor capaz de aniquilá-lo. A Contingência não o afeta. Ele é absolutamente livre. Ou será que não? Vou deixar o fim da história para você descobrir.

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