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Archive for the ‘Fernanda Montenegro’ Category

No ano passado, Fernanda Montenegro iria encerrar as apresentações da peça Viver sem tempos mortos para participar de uma novela. Mas os planos mudaram e atriz está de volta aos palcos de São Paulo interpretando o monólogo em que dá voz a Simone de Beauvoir. A peça é mais do que recomendável, e quem quiser saber mais sobre pode ler o post que escrevi após uma das últimas apresentações de 2011.

A notícia da volta da peça é melhor ainda porque. desta vez, o espetáculo acontece em 21 Centros Educacionais Unificados (CEUs). A estreia aconteceu nesta semana no CEU Rosa da China.  Não consegui encontrar uma programação com todos os espetáculos, mas é possível obter informações nos próprios CEUs por telefone ou internet. (Aqui, links para as programações de todos os CEUs.)

Confiram e divulguem o espetáculo. É imperdível.

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Assisti na última sexta-feira, 9 de dezembro, a uma das últimas apresentações do espetáculo Viver sem Tempos Mortos, em que Fernanda Montenegro interpreta um texto baseado nas memórias de Simone de Beauvoir e nas cartas que ela escreveu a Jean-Paul Sartre*. A montagem, de um respeito absoluto com a história e o pensamento da escritora, me emocionou, não apenas por dar vida a palavras que Simone escreveu, mas por conseguir captar o verdadeiro sentido que ela quis imprimir em sua vida.

O texto da peça é uma colagem de trechos dos escritos de Simone e foi produzido em conjunto por Fernanda Montenegro e pelo tradutor Newton Goldman. As frases e relatos selecionados pelos dois dramaturgos conseguem contar a história da escritora como se invadíssemos secretamente seu fluxo de consciência num momento em que ela revisita sua própria vida, sem omissões, sem disfarces, sem reducionismos, sem floreios, sem justificativas.

É desta forma que o texto consegue preservar sua origem, as memórias e relatos íntimos da escritora, e mantém intacto o despojamento de intencionalidade que diferencia as memórias das autobiografias. Ao fim do espetáculo, comecei a pensar na diferença conceitual entre autobiografia e memória e nos motivos que fizeram com que Simone de Beauvoir se dedicasse ao trabalho de uma memorialista. (Há pessoas que dizem que todas as obras de Simone são autobiográficas, uma afirmação que contém de cara dois erros: o desconhecimento de sua proposta intelectual e do conjunto de sua obra e a confusão entre autobiografia e memória.)

Fernanda Montenegro no espetáculo ‘Viver sem Tempos Mortos’. Foto: Divulgação.

Memória e acaso

Autobiografias costumam ser construções objetivas, como se o protagonista olhasse para si mesmo como um observador, e narrasse o que esse olhar descobre. O biógrafo de si mesmo produz um texto sobre sua vida, narra de modo linear e fechado a história de uma vida que encerra-se em si mesma, uma vida que se explica (e muitas vezes, se justifica). A autobiografia é uma construção intencional.

Esse trabalho nada tem em comum com o trabalho empreendido por um memorialista. Este se debruça sobre um fluxo de lembranças, recordações, sentimentos, que o revelam como um indivíduo que se insere no contexto histórico, familiar, social de sua época. A memória é uma escrita subjetiva, atrelada ao lugar que aquela pessoa ocupa no mundo, e está repleta de ambiguidades, dúvidas sem respostas, reflexões e questionamentos acerca desse que fala e da posição de onde se fala. O memorialista é um indivíduo que registra a descoberta de que é um ser no mundo, o biógrafo de si mesmo é um indivíduo que cria uma identidade imutável, a sua. Ao ler – ou ouvir, como no caso do espetáculo teatral – as memórias de alguém podemos entrar em contato com o indivíduo em sua contingência.

É curioso que aparentemente, as memórias possam parecer mais seletivas do que uma narrativa quando, na verdade, o que ocorre, é o contrário. As memórias não são lineares e não podem ser controladas inteiramente: que encadeamento de fatos e emoções nossas lembranças permitem? Depois de recordar o dia em que ela e seu grupo feminista gritaram diante de uma igreja onde se celebrava um casamento a frase “libertem a noiva” – momento que leva a plateia às gargalhadas –, qual será a lembrança seguinte de Simone de Beauvoir e como ela irá contá-la? São infinitas possibilidades e, nesse sentido, as memórias se aproximam – embora, é claro, não se igualem – a uma fala inconsciente, livre, construída a partir de associações cuja lógica de encadeamento não se controla nem se conhece.

Uma das grandes realizações da peça “Viver sem Tempos Mortos” é justamente captar essa essência das memórias em um texto construído, cujo encadeamento de relatos e pensamentos foi produzido por dois dramaturgos, objetivamente, com a motivação de contar uma história. Entretanto, essa construção é uma costura fina, invisível, e o público se sente diante da hesitação e da sutileza das infinitas possibilidades que caracterizam as memórias.

Acredito que, nesse sentido, a interpretação de Fernanda Montenegro tem um papel fundamental. A atriz (e nada vou dizer sobre Fernanda, pois acredito que seria cair em pretensões ou em lugares-comuns) poderia dar voz a Simone de modo tão absoluto. No palco, Fernanda se despe de toda caracterização, de toda a vaidade, de toda a semelhança, de toda a encenação para deixar que o texto seja “criado”  diante da plateia. A peça é, então, é o retrato de como Simone de Beauvoir relacionava-se consigo mesma e com sua época e de como ela existiu: com suas angústias, dores, sofrimentos, erros… O espetáculo consegue respeitar tudo isso sem julgamentos.

Vemos Fernanda Montenegro em sua camisa branca e sua calça preta, sentada em uma cadeira, nenhum cenário ao redor. A sensação é de estarmos diante de Simone de Beauvoir. A escritora nos conta suas memórias. Com a interpretação de Fernanda, as palavras pintam em nossa imaginação o cenário que não está no palco. Quando a fala de Simone poderia se deter por alguns instantes na justificativa de uma atitude ou uma escolha, na explicação de uma passagem de sua vida, o texto simplesmente encadeia o relato em um novo relato ou na revelação de um sentimento e segue adiante. Assim, percebemos que as memórias não têm fim e carregam em si a marca da insegurança e do acaso (palavra, aliás, que pontua alguns trechos da peça por meio da citação “O acaso tem sempre a última palavra”). Além, é claro, de funcionar em simbiose com o seu oposto, o esquecimento. E saímos do teatro certos de que Simone poderia nos dizer muito mais. E queremos mais.

Viver sem Tempos Mortos consegue, assim, contar a história da escritora e filósofa mas, principalmente, revelar sua forma particular e única de estar no mundo: seu íntimo compromisso com o grupo de intelectuais, amigos, militantes políticos, amores e ideias que abraçou ao longo da vida; sua total dedicação ao projeto intelectual de fazer da sua vida a matéria-prima de sua obra de modo a construir, sim, um pensamento marcado pela subjetividade; sua plena confiança de que é a experiência individual que define nossa relação única com o mundo e nossa possibilidade de construir uma reflexão inédita. (Falei um pouco sobre isso aqui). Reduzir Simone de Beauvoir a uma autora de autobiografias certamente é perder o sentido de toda a amplitude desse projeto intelectual e do significado de um conhecimento produzido a partir da experiência.

Algo que Simone de Beauvoir pretendeu ao escrever suas memórias foi mostrar que não há separação entre o individual (ou íntimo) e o político. Qualquer ação individual é também política, assim como nossas crenças mais íntimas. E este é o grande salto que a peça “Viver sem Tempos Mortos” consegue dar, ao explicitar como aquilo que o existencialismo chamava engajamento toma forma e sentido na vida de um indivíduo.

É essa relação entre individual e político que constitui, talvez, a chave para compreender por que Simone de Beauvoir é hoje tão incompreendida e erroneamente criticada. A lógica neoliberal, consumista, individualista da contemporaneidade é forjada para construir, cristalizar e reproduzir a separação entre individual e político. Mais do que isso, para esvaziar o político e inflar o individual, a tal ponto que até mesmo em momentos de ação “explicitamente” política – como votar ou realizar uma manifestação – a maioria das pessoas usa argumentos individualistas e exclusivistas, desconsiderando que o político nos permeia. Para quem estar no mundo é submeter-se a essa lógica, uma postura como a de Simone de Beauvoir, de compromisso intelectual, político e amoroso com suas escolhas e com a liberdade não é sequer concebível, como seria compreensível?

As memórias de Simone de Beauvoir são a lembrança de que somos seres políticos até mesmo em nossas cartas de amor. Talvez, a expressão Viver sem tempos mortos seja não só uma frase emprestada por Simone de Beauvoir dos slogans de Maio de 1968, mas também uma forma de expressar qual é o papel do intelectual ao escrever suas memórias. Porque as memórias, ainda que não sejam absolutas, completas, totais, são a narrativa dos tempos e das experiências que permanecem vivos, e de modo peculiar, em cada um de nós. Para quem acredita que essa vida tem um significado político, cabe transmiti-los e eternizá-los. É isso que faz o memorialista: não, ele não conta a sua vida, ele impede que seu tempo morra.

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* A peça Viver sem Tempos Mortos (monólogo de Fernanda Montenegro, direção de Felipe Hirsch e direção de arte de Daniela Thomas) encerra sua temporada neste domingo, 11 de dezembro de 2011. Segundo informações da assessoria de imprensa do espetáculo, Fernanda Montenegro irá dedicar-se em 2012 a dois projetos no cinema e um na televisão. Por isso, não escrevi exclusivamente sobre a peça, mas a utilizo como motor de uma reflexão sobre Simone de Beauvoir.

** Cartas, em alguns momentos de suas vidas, diárias, mesmo quando poucos quarteirões os separavam, mesmo quando passavam o dia inteiro juntos. É, esses dois tinham muito o que dizer um ao outro.

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