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Archive for the ‘filosofia’ Category

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Simone de Beauvoir, a filósofa que libertou as mulheres – e os homens

Agência EFE – Catalina Guerrero

Há 70 anos era publicado “A convidada”, estreia literária de Simone de Beauvoir, a filósofa francesa que com sua máxima “não se nasce mulher, torna-se mulher”, cunhada em “O segundo sexo”, deu uma contribuição fundamental ao feminismo e mudou o pensamento ocidental.

“O que as mulheres devem a Simone de Beauvoir é incomensurável”, afirma, taxativa, a professora universitária, jornalista e escritora francesa Danièlle Sallenave na biografia “Castor de guerre” (Castor era o apelido de Beauvoir, uma brincadeira com a palavra “beaver”, castor em inglês).

Sallenave prossegue: “E não só as mulheres; os homens também”, pois “a libertação das mulheres é uma condição ‘sine qua non’ para a libertação dos homens”.

Considerada uma de suas melhores obras, “A convidada” (1943) enfoca o triângulo amoroso entre Simone de Beauvoir (Paris, 1908-1986) e Jean-Paul Sartre (Paris, 1905-1980) com uma jovem que fascinava ambos, e serve para questionar o modelo burguês de casal e de família, assim como explorar os dilemas existencialistas da liberdade, da ação e da responsabilidade individual.

Esses temas foram retomados em seus romances seguintes como “O sangue dos outros” (1944) e “Os mandarins” (1954) – com o qual levou o Prêmio Goncourt e no qual conta a história de intelectuais lançados, como ela, no turbilhão liberação.

A entrada de Beauvoir no mundo das letras com “A convidada” foi autobiográfica, uma constante que marcaria seus romances, ensaios, memórias e diários, além de, claro, sua vasta correspondência com seu companheiro, o também filósofo existencialista francês Jean-Paul Sartre e com o escritor americano Nelson Algren, seu amor transatlântico.

Beauvoir escreve sobre si mesma a fim de se compreender e de se constituir, segundo sua biógrafa, que ressalta na destacada intelectual francesa uma atitude de combate permanente, fruto da época de fortes antagonismos que viveu: a Guerra Fria.

Para a autora de ensaios tão influentes como “O segundo sexo” (1949) e “A velhice” (1970) a vida é uma longa luta pela qual você consegue ser você mesmo(a), essa é a tarefa mais elevada e ineludível de todo ser humano.

Para Beauvoir tudo se constrói, incluindo a felicidade e, claro, a identidade pessoal. Ela abraça uma filosofia que confia às pessoas, e só a elas, a responsabilidade de moldar seus próprios destinos.

Nesse sentido, Beauvoir e Sartre, casal mítico, inventaram um modo de vida ousado cujo radicalismo está fora do alcance da maioria das pessoas.

Ocorreu a Sartre, até mesmo, a ideia de assinar com De Beauvoir um contrato de dois anos, renovável, durante os quais viveriam “na mais estreita intimidade possível”, mas distinguindo “amor necessário” (o deles) e “amores contingentes” (os amantes).

Depois desses dois anos, cada um recuperava sua liberdade por alguns anos, antes de voltar a se unir, fórmula não isenta de sofrimento, mas era o preço a pagar por ter liberdade garantida, segundo a biógrafa de Beauvoir.

Aos 50 anos, ao escrever “Memórias de uma moça bem-comportada” (1958), se empenhou ao máximo em mostrar que superaram a prova e que a partir daí formaram uma espécie de corpo único com duas cabeças.

Um casamento que terminou com a morte dele em 1980 (ela morreria seis anos mais tarde) e que superou os altos e baixos emocionais de novos trios amorosos, sempre com jovenzinhas, e de amantes mais ou menos estáveis na vida de ambos: o escritor Nelson Algren e um jovem Claude Lanzmann, diretor de cinema (“Shoah”) e jornalista francês, no caso dela.

Fugiu do casamento, viveu sua bissexualidade e renunciou à maternidade, incompatível segundo sua opinião com sua vocação de escrever, que lhe tomava muito tempo e liberdade.

Se concentrou plenamente em construir uma vida e uma obra consequente com suas ideias com um rigor e uma exigência que extrapolou a todos os âmbitos de sua existência.

Sua grande ousadia foi questionar a “feminilidade”, elevá-la à categoria de mito, de algo fabricado. Assim ganhou a imortalidade.

Com “O segundo sexo” tudo muda: confere unidade e brilho reivindicações dispersas e, sobretudo, lhes dá substrato filosófico, uma base conceitual.

Beauvoir ataca pedra a pedra (antropologia, sociologia, psicanálises, etnologia, literatura e história) o imenso edifício sobre o qual se assentava e justificava a dominação masculina.

A transcendência de seu ensaio é que milita não apenas a favor dos direitos das mulheres, mas do ser humano em geral.

Foi sua grande obra, embora ela não visse bem assim. “Alcancei – disse em suas memórias – um grande sucesso em minha vida: minha relação com Sartre”. “É bonito que nossas vidas tenham podido estar em harmonia tanto tempo”. Meio século.

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A Editora Nova Fronteira (parceira deste blog) e a Editora Objetiva acabam de lançar reimpressões de livros preciosos para quem gosta de Simone de Beauvoir, ou para quem quer estudá-la.

Da Nova Fronteira, a reimpressão de O Segundo Sexo em volume único, que recomendo veementemente e sobre o qual escrevi aqui.

Da Objetiva, o livro Tête-à-tête, que conta a história do relacionamento de Simone de Beauvoir e Sartre, uma proposta de relação e uma experiência existencial que marcou época, deixou marcas no século 20 e, claro, rompeu muitas barreiras e padrões. Leia mais aqui.

Livros que vale a pena ter na estante. Boa leitura.

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A velhice não é um fato estático; é o resultado e o prolongamento de um processo. Em que consiste este processo? Em outras palavras, o que é envelhecer? Esta ideia está ligada à ideia de mudança. Mas a vida do embrião, do recém-nascido, da criança, é uma mudança contínua. Caberia concluir daí,como fizeram alguns,que nossa existência é uma morte lenta? É evidente que não. Semelhante paradoxo desconhece a verdade essencial da vida: ela é um sistema instável no qual se perde e se reconquista o equilíbrio a cada instante; a inércia é que é o sinônimo de morte. A lei da vida é mudar.

Simone de Beauvoir. A Velhice. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990. p. 17.

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Assisti na última sexta-feira, 9 de dezembro, a uma das últimas apresentações do espetáculo Viver sem Tempos Mortos, em que Fernanda Montenegro interpreta um texto baseado nas memórias de Simone de Beauvoir e nas cartas que ela escreveu a Jean-Paul Sartre*. A montagem, de um respeito absoluto com a história e o pensamento da escritora, me emocionou, não apenas por dar vida a palavras que Simone escreveu, mas por conseguir captar o verdadeiro sentido que ela quis imprimir em sua vida.

O texto da peça é uma colagem de trechos dos escritos de Simone e foi produzido em conjunto por Fernanda Montenegro e pelo tradutor Newton Goldman. As frases e relatos selecionados pelos dois dramaturgos conseguem contar a história da escritora como se invadíssemos secretamente seu fluxo de consciência num momento em que ela revisita sua própria vida, sem omissões, sem disfarces, sem reducionismos, sem floreios, sem justificativas.

É desta forma que o texto consegue preservar sua origem, as memórias e relatos íntimos da escritora, e mantém intacto o despojamento de intencionalidade que diferencia as memórias das autobiografias. Ao fim do espetáculo, comecei a pensar na diferença conceitual entre autobiografia e memória e nos motivos que fizeram com que Simone de Beauvoir se dedicasse ao trabalho de uma memorialista. (Há pessoas que dizem que todas as obras de Simone são autobiográficas, uma afirmação que contém de cara dois erros: o desconhecimento de sua proposta intelectual e do conjunto de sua obra e a confusão entre autobiografia e memória.)

Fernanda Montenegro no espetáculo ‘Viver sem Tempos Mortos’. Foto: Divulgação.

Memória e acaso

Autobiografias costumam ser construções objetivas, como se o protagonista olhasse para si mesmo como um observador, e narrasse o que esse olhar descobre. O biógrafo de si mesmo produz um texto sobre sua vida, narra de modo linear e fechado a história de uma vida que encerra-se em si mesma, uma vida que se explica (e muitas vezes, se justifica). A autobiografia é uma construção intencional.

Esse trabalho nada tem em comum com o trabalho empreendido por um memorialista. Este se debruça sobre um fluxo de lembranças, recordações, sentimentos, que o revelam como um indivíduo que se insere no contexto histórico, familiar, social de sua época. A memória é uma escrita subjetiva, atrelada ao lugar que aquela pessoa ocupa no mundo, e está repleta de ambiguidades, dúvidas sem respostas, reflexões e questionamentos acerca desse que fala e da posição de onde se fala. O memorialista é um indivíduo que registra a descoberta de que é um ser no mundo, o biógrafo de si mesmo é um indivíduo que cria uma identidade imutável, a sua. Ao ler – ou ouvir, como no caso do espetáculo teatral – as memórias de alguém podemos entrar em contato com o indivíduo em sua contingência.

É curioso que aparentemente, as memórias possam parecer mais seletivas do que uma narrativa quando, na verdade, o que ocorre, é o contrário. As memórias não são lineares e não podem ser controladas inteiramente: que encadeamento de fatos e emoções nossas lembranças permitem? Depois de recordar o dia em que ela e seu grupo feminista gritaram diante de uma igreja onde se celebrava um casamento a frase “libertem a noiva” – momento que leva a plateia às gargalhadas –, qual será a lembrança seguinte de Simone de Beauvoir e como ela irá contá-la? São infinitas possibilidades e, nesse sentido, as memórias se aproximam – embora, é claro, não se igualem – a uma fala inconsciente, livre, construída a partir de associações cuja lógica de encadeamento não se controla nem se conhece.

Uma das grandes realizações da peça “Viver sem Tempos Mortos” é justamente captar essa essência das memórias em um texto construído, cujo encadeamento de relatos e pensamentos foi produzido por dois dramaturgos, objetivamente, com a motivação de contar uma história. Entretanto, essa construção é uma costura fina, invisível, e o público se sente diante da hesitação e da sutileza das infinitas possibilidades que caracterizam as memórias.

Acredito que, nesse sentido, a interpretação de Fernanda Montenegro tem um papel fundamental. A atriz (e nada vou dizer sobre Fernanda, pois acredito que seria cair em pretensões ou em lugares-comuns) poderia dar voz a Simone de modo tão absoluto. No palco, Fernanda se despe de toda caracterização, de toda a vaidade, de toda a semelhança, de toda a encenação para deixar que o texto seja “criado”  diante da plateia. A peça é, então, é o retrato de como Simone de Beauvoir relacionava-se consigo mesma e com sua época e de como ela existiu: com suas angústias, dores, sofrimentos, erros… O espetáculo consegue respeitar tudo isso sem julgamentos.

Vemos Fernanda Montenegro em sua camisa branca e sua calça preta, sentada em uma cadeira, nenhum cenário ao redor. A sensação é de estarmos diante de Simone de Beauvoir. A escritora nos conta suas memórias. Com a interpretação de Fernanda, as palavras pintam em nossa imaginação o cenário que não está no palco. Quando a fala de Simone poderia se deter por alguns instantes na justificativa de uma atitude ou uma escolha, na explicação de uma passagem de sua vida, o texto simplesmente encadeia o relato em um novo relato ou na revelação de um sentimento e segue adiante. Assim, percebemos que as memórias não têm fim e carregam em si a marca da insegurança e do acaso (palavra, aliás, que pontua alguns trechos da peça por meio da citação “O acaso tem sempre a última palavra”). Além, é claro, de funcionar em simbiose com o seu oposto, o esquecimento. E saímos do teatro certos de que Simone poderia nos dizer muito mais. E queremos mais.

Viver sem Tempos Mortos consegue, assim, contar a história da escritora e filósofa mas, principalmente, revelar sua forma particular e única de estar no mundo: seu íntimo compromisso com o grupo de intelectuais, amigos, militantes políticos, amores e ideias que abraçou ao longo da vida; sua total dedicação ao projeto intelectual de fazer da sua vida a matéria-prima de sua obra de modo a construir, sim, um pensamento marcado pela subjetividade; sua plena confiança de que é a experiência individual que define nossa relação única com o mundo e nossa possibilidade de construir uma reflexão inédita. (Falei um pouco sobre isso aqui). Reduzir Simone de Beauvoir a uma autora de autobiografias certamente é perder o sentido de toda a amplitude desse projeto intelectual e do significado de um conhecimento produzido a partir da experiência.

Algo que Simone de Beauvoir pretendeu ao escrever suas memórias foi mostrar que não há separação entre o individual (ou íntimo) e o político. Qualquer ação individual é também política, assim como nossas crenças mais íntimas. E este é o grande salto que a peça “Viver sem Tempos Mortos” consegue dar, ao explicitar como aquilo que o existencialismo chamava engajamento toma forma e sentido na vida de um indivíduo.

É essa relação entre individual e político que constitui, talvez, a chave para compreender por que Simone de Beauvoir é hoje tão incompreendida e erroneamente criticada. A lógica neoliberal, consumista, individualista da contemporaneidade é forjada para construir, cristalizar e reproduzir a separação entre individual e político. Mais do que isso, para esvaziar o político e inflar o individual, a tal ponto que até mesmo em momentos de ação “explicitamente” política – como votar ou realizar uma manifestação – a maioria das pessoas usa argumentos individualistas e exclusivistas, desconsiderando que o político nos permeia. Para quem estar no mundo é submeter-se a essa lógica, uma postura como a de Simone de Beauvoir, de compromisso intelectual, político e amoroso com suas escolhas e com a liberdade não é sequer concebível, como seria compreensível?

As memórias de Simone de Beauvoir são a lembrança de que somos seres políticos até mesmo em nossas cartas de amor. Talvez, a expressão Viver sem tempos mortos seja não só uma frase emprestada por Simone de Beauvoir dos slogans de Maio de 1968, mas também uma forma de expressar qual é o papel do intelectual ao escrever suas memórias. Porque as memórias, ainda que não sejam absolutas, completas, totais, são a narrativa dos tempos e das experiências que permanecem vivos, e de modo peculiar, em cada um de nós. Para quem acredita que essa vida tem um significado político, cabe transmiti-los e eternizá-los. É isso que faz o memorialista: não, ele não conta a sua vida, ele impede que seu tempo morra.

—–

* A peça Viver sem Tempos Mortos (monólogo de Fernanda Montenegro, direção de Felipe Hirsch e direção de arte de Daniela Thomas) encerra sua temporada neste domingo, 11 de dezembro de 2011. Segundo informações da assessoria de imprensa do espetáculo, Fernanda Montenegro irá dedicar-se em 2012 a dois projetos no cinema e um na televisão. Por isso, não escrevi exclusivamente sobre a peça, mas a utilizo como motor de uma reflexão sobre Simone de Beauvoir.

** Cartas, em alguns momentos de suas vidas, diárias, mesmo quando poucos quarteirões os separavam, mesmo quando passavam o dia inteiro juntos. É, esses dois tinham muito o que dizer um ao outro.

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Reproduzo abaixo texto meu publicado esta semana no portal O Pensador Selvagem.

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Recentemente, tenho lido e ouvido muitos julgamentos, de teor e tom questionáveis, a Simone de Beauvoir. E essas acusações suscitam uma pergunta: por que sua figura e seu pensamento incomodam tanto? Sua bissexualidade, vários e várias amantes, a recusa do casamento e da maternidade, a liberdade e independência em um mundo cada vez mais conservador poderiam ser uma resposta. Mas a considero simplista e insatisfatória.

Simone de Beauvoir nasceu há 113 anos. Suas obras mais influentes foram escritas entre os anos 1940 e meados dos anos 1970. O Segundo Sexo, seu livro mais importante, foi publicado em 1949. Lá se vão mais de 60 anos. Mas tantas décadas parecem não ter sido suficientes para que sua obra fosse compreendida e criticada com propriedade. Ainda hoje, muitas pessoas se recusam a ler Simone de Beauvoir porque ela era “uma libertina”. E repetem-se afirmações forjadas para atribuir a ela tudo aquilo contra o que ela lutou no plano das ideias e no plano da ação. Acusam-na de submissão, de dependência, de pregar o feminismo para as outras mulheres e não praticá-lo.

Essa resistência a Simone de Beauvoir esbarra em questões mais profundas sobre nossa sociedade: a condição da mulher, especificamente a mulher intelectual; a relação entre a experiência vivida e a escrita da memória com a subjetividade; as expectativas que recaem sobre os intelectuais. Tentarei abordar brevemente, e de forma não sistemática, alguns desses temas tendo como referência a figura de Simone de Beauvoir.

Experiência vivida, matéria-prima do pensamento

Simone de Beauvoir em seu quarto no Hotel Louisiane, Paris, 1946. Foto: Fonds Photographique Denise Bellon.

A grande maioria dos julgamentos feitos a Simone de Beauvoir, acredito, baseia-se em erro primário para qualquer reflexão: desconsiderar o fato banal de que intelectuais vivem. Ou seja, toda vida, inclusive a de uma pensadora, é um emaranhado complexo de descobertas, conquistas, falhas, inseguranças, afirmações, sofrimentos, retrocessos, sucessos. E é em meio a essa complexidade que seu pensamento e sua ação no mundo se desenvolvem, obviamente transformando-se. É, portanto, pouco racional deixar de considerar que, aos 20 anos, aquela pessoa, como qualquer um de nós, ainda não tem o terreno de todo seu pensamento arado e cultivado. Como é pouco racional ignorar que esse trabalho exige esforço.

Assim, por exemplo, há quem queira invalidar o pensamento libertário e antissexista de Simone de Beauvoir baseado em sua relação com Sartre. Afirma-se que ela se submeteu a Sartre durante toda a vida e aceitou um modelo de relação que ele impôs. Isso é incorrer no erro mencionado. Então, vamos a alguns fatos sobre essa relação.

Simone de Beauvoir e Sartre tinham 20 e poucos anos quando firmaram um pacto que previa  um relacionamento aberto, cada um dos dois podendo envolver-se com outras pessoas. Quem propôs este pacto foi Sartre. E Simone de Beauvoir o aceitou. Logo depois, eles foram nomeados para lecionar em cidades diferentes da França. O que unia a ambos: o relacionamento sexual, amoroso, e uma afinidade intelectual que provavelmente nenhum de seus críticos ou seguidores jamais experimentou com alguém. A convivência entre ambos era, ao mesmo tempo, afetiva e  instigante. Desejavam estar próximos. Sartre propôs casamento a Simone. Ela recusou. (Muito antes de conhecê-lo, já estava decidida a não se casar e não se submeteu ao desejo dele ou à paixão.)

Simone de Beauvoir sempre desejou ser livre, algo que a vida em uma família burguesa empobrecida de Paris – origem que ela jamais negou – nunca lhe permitira. Liberdade de pensamento, que exercia em suas aulas a alunas do ensino médio (ela só deu aulas em universidades durante a guerra). Liberdade sexual, envolvendo-se em alguns relacionamentos pouco mais do que casuais com homens e mulheres. Liberdade intelectual, trabalhando em seus primeiros livros, que não foram finalizados.

Sartre, no início, chocou-se com a bissexualidade de Simone. Depois, se apaixonou por uma de suas amantes, Olga, e propôs, com veemência e insistência, um novo modelo de relacionamento, que eles chamavam “o trio”. Os três aceitaram. Foram jogados em uma situação em que precisaram rever seus preconceitos e moralismos burgueses, em um turbilhão emocional repleto de sofrimento, conflito, meias-verdades, raiva, inveja. O “trio”, ela relatou tanto em A Força da Idade como em A Convidada, foi um fracasso. Todos sofreram mais do que se divertiram, todos os limites de suas liberdades foram testados, em geral ferindo um dos três. Para dizer o mínimo: Sartre era rejeitado por Olga, que provocava ciúmes em Simone, que era invejada por Sartre por ser a preferida da garota. O terceiro elemento na relação, percebia Simone, instaurava inexoravelmente uma barreira extra à liberdade e ao desejo de cada um dos integrantes do “trio”. E todos sofriam, ora por si mesmos, ora por ver pessoas queridas sofrendo. A partir dali, Simone não integraria novos trios, negando-se a manter o arranjo. Os triângulos, tal qual no início do pacto, voltaram a existir, mas as relações a três, não.

Há quem entenda o sofrimento de Simone como submissão. Considero uma percepção muito estreita do que é uma experiência de vida. O sofrimento faz parte das relações humanas. Simone nunca se esquivou dessa angústia. Afinal, primeiro como uma amante da liberdade e, depois, como existencialista, ela sabia que a angústia é inevitável. E também sabia que há uma responsabilidade a ser assumida em relação a si mesmo e aos outros.

A única vez que Sartre propôs casamento a outra mulher, sua amante norte-americana, Simone se retirou do relacionamento. Não queria submeter-se novamente aos conflitos e insucessos do “trio”. Ele desistiu do casamento. O amor necessário entre ambos sempre superou os amores contingentes. E isso não é resultado de uma magia romântica e cheia de coraçõezinhos que surgia no ar todas as vezes que um dos dois estava efetivamente envolvido em outras relações. Foram escolhas conscientes e livres de ambos.

Dizem também que Simone não conheceu o prazer sexual com Sartre e que logo ele se desinteressou sexualmente dela. Duas verdades. O que não é verdade é assumir que ela se submeteu a isso como uma vítima. Simone teve vários e várias amantes e encontrou o prazer sexual em várias relações. Quando o desejo sexual de Sartre deixou de existir, ela determinou que não precisariam mais relacionar-se por mera formalidade. Com o escritor Nelson Algren, envolveu-se no amor romantizado e “tradicional” para sua época. Ele a pediu em casamento. Ela recusou. Muitos a condenam. Além de não estar disposta ao casamento e à maternidade – ele queria filhos –, Simone sabia que sua ligação, ainda que fosse apenas intelectual com Sartre, machucava Algren. Novamente, ela era confrontada com a fórmula do “trio”, em outro contexto. Melhor que cada um abraçasse sua liberdade.

Simone de Beauvoir escreveu milhares de páginas em romances, ensaios, memórias abordando esses e outros fatos. Considerada uma das maiores memorialistas do século 20, produziu quatro volumes bem recheados, nenhum deles com menos de 300 páginas. Somente quem ignora totalmente essa produção, ou quem tenha lido sem nada compreender, pode lançar críticas como as que reproduzo aqui.

Há poucos temas que ela não aborde em detalhes em suas memórias, um deles é o processo movido contra ela pelos pais de uma aluna com a qual se envolveu sexual e afetivamente. Nesses e em poucos outros casos, ela opta por não entrar em detalhes pelo simples fato de que as pessoas envolvidas estavam vivas no momento da publicação dos livros, o que poderia criar mais escândalos.

Em cada página das memórias, a honestidade de Simone é invejável. Ela reconhece, por exemplo, as críticas mal-informadas que ela (e Sartre) fizeram a Freud, os enganos que cometeram em algumas avaliações a respeito de personagens e colegas durante a guerra, o fato de que, durante muito tempo, ela e Sartre, embora lutando contra os ideais burgueses, se submeteram totalmente e sem sequer perceber ao estilo de vida que abominavam.

Simone de Beauvoir acreditava que a matéria-prima do intelectual, além da capacidade de compreender e criticar as teorias, é a própria experiência. É a partir daí, pensava, podemos construir nossa relação com o mundo, talhar nossa subjetividade e, assim, produzir uma obra relevante intelectualmente, capaz de abordar assuntos e aspectos ainda inéditos. Simone não se negava a experimentar nada novo ou diferente. Pagava um preço caro por isso: nos anos 1930, em que uma mulher desacompanhada nem sempre era aceita nem mesmo em um café, ela optava por estar só. A solidão era a chave de sua abertura para o mundo. Nos anos 1940, foi duramente criticada por suas obras, nos anos 1950, enxovalhada por O Segundo Sexo e cobrada por não ter “agarrado” o amor de Algren.

Uma intelectual no tempo

Outra crítica comum a Simone de Beauvoir é de que ela era feminista em seus livros, mas não era feminista em seu relacionamento com Sartre. Dizem que ela pregava o feminismo para outras mulheres e não o praticava.

Em suas memórias, Simone de Beauvoir afirma que jamais foi feminista e que O Segundo Sexo, publicado em 1949, nunca foi concebido como um livro feminista. Por isso, quem cobra dela uma postura feminista em todos os episódios de sua vida age de má-fé, tentando invalidar seu pensamento e suas ações de forma falaciosa. Simone de Beauvoir só se alinha ao feminismo nos anos 1970.

Portanto, dizer que ela pregava o feminismo para as outras mulheres e não o praticava é, no mínimo, sucumbir a um banal anacronismo. Não, ela não podia viver a juventude de acordo com algo que ela só reconheceu e valorizou na velhice. Sim, os intelectuais mudam e se transformam ao longo do tempo, e isso não invalida seu pensamento. Quando passou a participar de ações do movimento feminista, ela mesma disse que isso demonstrava que suas ideias haviam se enriquecido e aprimorado.

A mulher e as divindades intelectuais

Simone de Beauvoir, Paris, 1952. Foto: Elliott Erwitt/Magnum.

As críticas inadequadas a Simone de Beauvoir, na minha opinião, mostram como ainda é difícil – para pessoas que cultivam o pensamento pouco aberto a ideias inovadoras, diferentes e sempre em transformação – aceitar o papel de uma mulher intelectual nos dias de hoje. A mulher é sempre o Outro, lembra Simone de Beauvoir em O Segundo Sexo, o diferente. E o lugar do intelectual, nós sabemos, é o lugar do um, do poder, da dominação. Aceitar que uma mulher ocupe esse lugar implica superar um preconceito. A resistência ao reconhecimento do papel intelectual de uma pensadora é a expressão desse preconceito: só posso atribui-la ao sexismo que é, para dizer o mínimo, uma fraqueza intelectual em qualquer pessoa.

Entretanto, o julgamento que ataca Simone de Beauvoir não é apenas aquele forjado no sexismo. Há um outro substrato nas acusações levianas que enumerei aqui e em outras que não há espaço para detalhar. Esse substrato é a necessidade de fazer de intelectuais verdadeiros deuses, modelos de comportamento, pessoas infalíveis que têm soluções infalíveis e que não podem ser questionadas. Pessoas que sentem essa necessidade não estão em busca de ideias e propostas, muito menos de reflexão. Sua expectativa é de que os intelectuais lhes ofereçam fórmulas prontas. Se esses deuses falham – e os verdadeiros intelectuais sempre falham porque não são os donos da verdade nem das respostas certas, apenas pessoas honestamente dispostas a fazer perguntas – são invalidados, considerados ruins, incompetentes.

Há uma manobra ideológica e outra, inconsciente, por trás disso.

Todas as vezes que acusamos veementemente alguém de ser aquilo que é indesejável, ruim, incompetente, negativo, criamos uma imagem positiva de nós mesmos. Somos exatamente o oposto daquilo que acusamos o Outro. Mas Freud já nos ensinou que, em geral, aquilo de que acusamos o Outro é aquilo que não suportamos constatar em nós mesmos.

Simone e Sartre construíram um sistema de pensamento que enfatiza: todos somos livres e a liberdade nos confronta a cada segundo com a angústia de fazer escolhas e com o sofrimento de nos responsabilizarmos por elas. Esse é um pensamento radical que implica, a quem adotá-lo honestamente, viver na insegurança, na incerteza e em constante contato com sua própria falibilidade e a ambiguidade.

Acredito que essa é a principal causa a todas as críticas levianas feitas a Simone de Beauvoir (e a Sartre). Quando as pessoas se referem a ela (ou a ele) em termos como “rever o passado”, “desconstruir mitos”, “derrubar messias”, na verdade estão fazendo uso de termos ideológicos. Buscam desqualificar o pensamento libertário, radical, transformador que, por definição, se constrói com base na exploração de visões de mundo, atitudes e comportamentos fora dos padrões e na diversidade de ideias e de ação. Nesse sentido, criticar Simone de Beauvoir (e Sartre) é muito mais construir empecilhos para que os intelectuais de hoje se inspirem ou busquem referências em suas ideias e possam pensar algo novo e tão transformador como eles pensaram em suas épocas.

Quem resiste a pensadores como Simone de Beauvoir e Sartre teme que alguém possa continuar a trilhar os caminhos que eles abriram. Teme palavras como liberdade, ambiguidade, imperfeição, descoberta, independência e, principalmente, responsabilidade e consciência. Teme o debate de ideias. Busca fórmulas que sustentem o status quo, o mainstream ou, para dizer de forma simples, “as coisas como elas estão”. Talvez possam encontrar algo assim em alguma religião. Jamais encontrarão isso em pensadores livres e, felizmente, imperfeitos.

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“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher.” A frase de Simone de Beauvoir em O Segundo Sexo se tornou tão forte e tão repetida que é, ao mesmo tempo, um tributo e um desserviço a sua obra. Tributo, porque é uma frase forte que condensa um pensamento inovador: o de que por trás de nossas características biológicas existe um edifício feito de preconceitos e dominação que nada tem de natural. Desserviço, porque para quem desconhece Simone e sua obra, a frase é um enigma nem sempre decifrável. Acredito que não é por acaso que muitas pessoas chegam ao blog buscando o significado dessas palavras. E basta ir além no parágrafo que esse significado se explica. Então, lá vai:

Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino. Somente a mediação de outrem pode constituir um indivíduo como um Outro. Enquanto existe para si, a criança não pode apreender-se como sexualmente diferenciada. Entre meninas e meninos, o corpo é, primeiramente, a irradiação de uma subjetividade, o instrumento que efetua a compreensão do mundo: é através dos olhos, das mãos e não das partes sexuais que apreendem o universo. O drama do nascimento, o da desmama desenvolvem-se da mesma maneira para as crianças dos dois sexos; têm elas os mesmos interesses, os mesmos prazeres; a sucção é, inicialmente, a fonte de suas sensações mais agradáveis; passam depois por uma fase anal em que tiram, das funções excretórias que lhe são comuns, as maiores satisfações; seu desenvolvimento genital é análogo; exploram o corpo com a mesma curiosidade e a mesma indiferença; do clitóris e do pênis tiram o mesmo prazer incerto; na medida em que já se objetiva sua sensibilidade, voltam–se para a mãe: é a carne feminina, suave, lisa, elástica que suscita desejos sexuais e esses desejos são preensivos; é de uma maneira agressiva que a menina, como o menino, beija a mãe, acaricia-a, apalpa-a; têm o mesmo ciúme se nasce outra criança; manifestam-no da mesma maneira: cólera, emburramento, distúrbios urinários; recorrem aos mesmos ardis para captar o amor dos adultos.

Até os doze anos a menina é tão robusta quanto os irmãos e manifesta as mesmas capacidades intelectuais; não há terreno em que lhe seja proibido rivalizar com eles. Se, bem antes da puberdade e, às vezes, mesmo desde a primeira infância, ela já se apresenta como sexualmente especificada, não é porque misteriosos instintos a destinem imediatamente à passividade, ao coquetismo, à maternidade: é porque a intervenção de outrem na vida da criança é quase original e desde seus primeiros anos sua vocação lhe é imperiosamente insuflada.

O Segundo Sexo, volume 2. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1967,
2ª edição, pp. 9-10.

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Uma das grandes forças deste documentário de 2007, dirigido por Virginie Linhart, é mostrar por que o livro O Segundo Sexo é também dirigido aos homens, não apenas às mulheres. O vídeo, em cinco partes, traz entrevistas com conhecidas estudiosas da obra de Simone de Beauvoir na França, como Élisabeth Badinter e Danièle Sallenave, além de contar em detalhes como o fato de ela ter escrito o livro foi uma superação individual do determinismo de classe e de gênero. Em francês, com legendas em espanhol, o documentário é ainda mais profundo do que os vídeos que postei anteriormente. (Na verdade, muitos dos trechos daqueles vídeos foram tirados daqui.)

 

 

Nesta segunda parte, gostei particularmente de descobrir que o filósofo François Noudelmann pensa o mesmo que eu sobre a velha história de Jean-Paul Sartre ter sido aprovado em primeiro lugar na agrégation de 1929 e Simone de Beauvoir, em segundo. O trecho está bem no início do vídeo, que também traz Sylvie Le Bon de Beauvoir, a filha adotiva de Simone, comentando uma frase deste trecho de A Força da Idade, sobre o amor com Sartre.

 

 

No trecho abaixo, destaque para o amor de Simone e Nelson Algren (do qual falei um pouco neste texto) e o engano de algumas interpretações que tentam reduzir toda a vida da escritora e filósofa ao que ela manifestou em suas cartas para ele.

 

 

No quarto vídeo, Judith Butler comenta a tradução inglesa do livro:

 

 

Na quinta parte, destaque para a análise de Élisabeth Badinter.

 

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