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Archive for the ‘imagens’ Category

A burguesia temeu muito esses casais, por motivos diferentes, não há a menor dúvida. Bonnie Parker (1910-1934) e Clyde Barrow (1909-1934) nasceram mais ou menos na mesma época em que Simone de Beauvoir (1908). Ficaram famosos por assaltar bancos e postos de gasolina na década de 1930 nos EUA. Simone e Sartre optaram por outras formas de desafiar a classe abastada. Essa atitude de desafio à classe abastada conta aqui tanto quanto a semelhança das fotos. (Reparem nas roupas das duas mulheres e nas mãos nos bolsos dos dois homens. Secretamente, delirantemente, gosto de pensar que essas fotos foram tiradas em algum momento muito próximo no tempo, talvez no mesmo mês e ano. Mas isso são só devaneios.)

Bonnie Parker e Clyde Barrow, data desconhecida entre 1930, quando se conheceram, e 1934, quando foram assassinados pela polícia.

Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre no Memorial de Balzac, data desconhecida por volta dos anos 1930. Eles se conheceram em 1929.

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Série criada para reunir imagens, frases, citações, referências, sons e textos que, de alguma maneira – séria ou delirante – remetem a Simone de Beauvoir. Você pode participar enviando sugestões pelos comentários ou pelo e-mail. Sua sugestão pode se tornar um post de colaborador. A conexão de hoje é:

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Simone de Beauvoir, Chicago, 1950. Fotógrafo: Art Shay. (Clique na foto para saber mais.)

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‘El baño’, de Fernando Botero, 1989.

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Simone de Beauvoir caminha pelas ruas de Paris, 1971. Foto: Georges Bendrihem

Simone de Beauvoir morreu em 14 de abril de 1986, aos 78 anos. Há 26 anos.

Pouco mais de 20 anos após sua morte, em 13 de julho de 2006, foi inaugurada em Paris uma ponte sobre o rio Sena com seu nome. A Passarelle Simone de Beauvoir – 304 metros de comprimento, 12 metros de altura – é exclusiva para pedestres e ciclistas. Foi projetada pelo escritório de arquitetura Feichtinger e liga o Parc Bercy, na margem direita, a um dos edifícios da Bibliothèque nationale de France (BnF), na margem esquerda.

Simone de Beauvoir adorava a natureza e os livros, as vistas de Paris, a BnF e os longos passeios a pé ou de bicicleta. Por toda a vida, ela foi uma caminhante. Aventurou-se por caminhadas e trilhas em lugares desconhecidos de todo o mundo e viajou muitas vezes de bicicleta pelo interior da França. Foi também uma caminhante em suas obras e reflexões, reconhecendo todas as encruzilhadas, rumos equivocados, falhas, deslizes, tropeços, acertos e passos firmes de seu percurso intelectual. Foi uma caminhante, também, no sentido que muitas pessoas dão ao termo: “não há rota, esta se faz caminhando”. Ela nunca seguiu rotas, construiu sua própria vida fora dos traçados obrigatórios para uma mulher de sua classe social e de sua época. Em seus últimos anos de vida, Simone de Beauvoir tornou-se caminhante também ao integrar algumas passeatas do movimento feminista francês.

Há 26 anos, Simone de Beauvoir não é mais caminhante, mas permanece um caminho de acesso à muitas reflexões sobre a condição da mulher, as ambiguidades da existência e da ação política, a relação com o Outro e a existência como Outro, a experiência de combinar memória, história, ação no mundo e criação literária. E ainda mais, um convite à descoberta da autonomia, da própria liberdade e do compromisso com desejos pessoais e coletivos. Ler ensaios, memórias, diários, cartas, romances e novelas escritos por Simone é iniciar-se nesses caminhos. A travessia está feita, o restante da descoberta cabe a cada um construir.

Por isso escolhi homenageá-la hoje falando sobre a ponte que leva seu nome e publicando aqui as fotos desse caminho concreto, dessa ponte – a 37ª a ser construída sobre o Sena. Acho que um caminho a ser percorrido a pé ou de bicicleta, convidando à observação, ao prazer e à reflexão representa tudo que Simone de Beauvoir foi em vida e é hoje para quem explora suas obras.

As fotos abaixo, com exceção da primeira, cuja origem já não me lembro mais, foram feitas por Laura Farina em abril de 2011.

Passarelle Simone de Beauvoir vista do alto

Acesso à ponte, margem direita do Sena

Escadaria, margem direita do Sena

Trecho da Passarelle sobre o Parc Bercy

O parque, visto do alto da ponte

Caminhantes, acessando o caminho

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Uma das grandes forças deste documentário de 2007, dirigido por Virginie Linhart, é mostrar por que o livro O Segundo Sexo é também dirigido aos homens, não apenas às mulheres. O vídeo, em cinco partes, traz entrevistas com conhecidas estudiosas da obra de Simone de Beauvoir na França, como Élisabeth Badinter e Danièle Sallenave, além de contar em detalhes como o fato de ela ter escrito o livro foi uma superação individual do determinismo de classe e de gênero. Em francês, com legendas em espanhol, o documentário é ainda mais profundo do que os vídeos que postei anteriormente. (Na verdade, muitos dos trechos daqueles vídeos foram tirados daqui.)

 

 

Nesta segunda parte, gostei particularmente de descobrir que o filósofo François Noudelmann pensa o mesmo que eu sobre a velha história de Jean-Paul Sartre ter sido aprovado em primeiro lugar na agrégation de 1929 e Simone de Beauvoir, em segundo. O trecho está bem no início do vídeo, que também traz Sylvie Le Bon de Beauvoir, a filha adotiva de Simone, comentando uma frase deste trecho de A Força da Idade, sobre o amor com Sartre.

 

 

No trecho abaixo, destaque para o amor de Simone e Nelson Algren (do qual falei um pouco neste texto) e o engano de algumas interpretações que tentam reduzir toda a vida da escritora e filósofa ao que ela manifestou em suas cartas para ele.

 

 

No quarto vídeo, Judith Butler comenta a tradução inglesa do livro:

 

 

Na quinta parte, destaque para a análise de Élisabeth Badinter.

 

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Estes vídeos do programa Arquivo N, da Globonews, são preciosos. Não apenas por contar a história, recuperar fotos, reproduzir trechos obrigatórios de O Segundo Sexo e retratar a importância e a má recepção que teve o livro.

O programa reuniu vários trechos de entrevistas concedidas por Simone de Beauvoir na França, imagens raras e cenas de uma conversa/entrevista que ela fez com Sartre. Acho que os vídeos só pecam por apresentar uma análise superficial de O Segundo Sexo e por reproduzir uma reportagem da TV francesa de 1971 totalmente ideológica.

Mas, antes de pensar nisso, vejam com que desapego Simone reconta sua história, a mesma que ela registrou em seus livros de memórias. E, principalmente, aproveitem a  oportunidade de ver Simone de Beauvoir e de ouvir sua voz. É emocionante.

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Simone de Beauvoir, aos 42 anos. Chicago, 1950. Foto: Art Shay.

Esta foto de Simone de Beauvoir causou polêmica assim que veio a público, em 2005, no livro Tête-à-Tête, de Hazel Rowley. Acredito que pelo motivo óbvio: vemos a imagem com um olhar “informado” pelo feminismo e saturado de imagens de mulheres transformadas em objeto pela exposição de seus corpos nus, modelados para serem vendidos em capas de revista e programas de tevê. E então, imediatamente, enxergamos na foto uma contradição: como compreender que a grande “mentora” do feminismo se exibisse assim?

As teorias que surgiram sobre a foto na época foram as mais mirabolantes. Compararam Simone às garotas da Playboy, o que por si só já é problemático, pois a revista surgiu em 1953 e a foto é de 1950. Outros consideram a foto uma demonstração de que Simone não era tão feminista quanto se dizia, o que é outro argumento deslocado no tempo: em 1950, Simone ainda não era ou se considerava feminista. Ela só aderiu ao feminismo em fins dos anos 1960. Há ainda quem veja na fotografia uma submissão de Simone, mas quem diz isso certamente não não conhece sua relação com a liberdade.

Como esses, outros argumentos tentam utilizar a foto para apontar em Simone uma contradição irreconciliável com o feminismo e com seu próprio pensamento. Entretanto, e para desgosto de quem tenta tirar de Simone alguma base para seu machismo, acho que a história por trás da foto é muito simples.

Primeiro, vamos aos fatos: em 1950 Simone de Beauvoir vivia seu romance com Nelson Algren. O romance se iniciou em 1947, em sua primeira viagem aos Estados Unidos. Logo após o lançamento de O Segundo Sexo (1949), Simone foi duramente criticada, perseguida e caluniada na Europa. Decidiu sair de Paris e visitar Algren, que morava em Chicago, em uma casa que não tinha facilidades tais como chuveiros. Era verão. Uma tarde, ela quase se afogou no lago em que eles costumavam se banhar.

A foto foi feita em um daqueles dias quentes pelo fotógrafo Art Shay, amigo de Algren, que levou Simone à casa de um outro amigo para que ela pudesse tomar um banho. Nessa casa havia uma banheira, luxo supremo e seguro para quem quase morreu nadando.

Sobre aquele instante, o próprio Art Shay escreveu, e a história foi reproduzida por Hazel Rowley no livro: “Ela havia tomado seu banho. Depois, enquanto ela se arrumava na pia, tive um súbito impulso. Ela sabia que eu a havia fotografado, porque ouviu o clique de minha confiável Leica Model F. ‘Homem travesso’, disse ela.” (Art Shay fala mais sobre a foto neste texto.)

Simone não foi totalmente surpreendida pela fotografia. Ela também não se deixou fotografar nua sem protestar. E, mais ainda, Simone não fez da foto uma mercadoria. Era um momento íntimo e alguém que ela conhecia fez uma foto. O que pode haver de contraditório ou errado nisso?

Ela produziu uma foto juntamente com o fotógrafo. Ela, que acabara de escrever e publicar o primeiro volume de um livro sobre a mulher no qual falava sobre sexualidade, sobre o corpo humano, e sobre como a cultura constrói esse corpo moralmente, lançando sobre ele um peso que ele não tem, encerrando-o em uma redoma na qual ele não cabe e à qual ele não se ajusta. Simone desnudou sua vida em palavras em suas memórias. Desnudou seu pensamento em seus ensaios e romances. A foto de Simone nua é apenas a reafirmação de seu corpo e de sua presença no mundo. Até porque são ambos a mesma coisa.

A presença no mundo implica rigorosamente a posição de um corpo que seja a um tempo uma coisa do mundo e um ponto de vista sobre esse mundo: mas não se exige que esse corpo possua tal ou qual estrutura particular.

(O Segundo Sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009. Volume único, primeira parte, pg. 39.)

Creio que é tudo assim, muito simples. Mas dou a essa foto uma interpretação muito particular, atribuindo-lhe uma intencionalidade que ela certamente não tem, mas com a qual me divirto. Imagino Simone dando as costas para um mundo que condena pessoas por seu pensamento, por sua liberdade, e por seus corpos femininos. Ela lhe dá as costas, mas esse mundo não consegue deixar de olhá-la. Porque ela se tornou, em corpo e em pensamento, estonteante para quem vivia ou ainda vive de moralismos, hipocrisias e meias verdades.

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Simone de Beauvoir amava viajar. Sartre também. E muitos pontos altos dos escritos de ambos são relacionados a suas viagens. Em suas memórias, principalmente, mas também em ensaios e nas ambientações de seus romances, eles descrevem diversos lugares que conheceram. Estados Unidos, China, Rússia, Itália, Espanha…

Na juventude, como eles sobreviviam com salários de professores e enfrentaram uma época não muito próspera da economia europeia, viajaram pelo interior da França e pela Espanha, Itália e Alemanha em esquemas econômicos que incluíam acampar, dormir em celeiros, em hotéis de quinta, e até em sacos de dormir, na beira de estradas. Iam de um lugar a outro de trem, de ônibus, de carona, de bicicleta, ou, na falta de melhor opção, a pé. Simone relata todas essas aventuras, das quais ela era bem mais adepta do que Sartre, em A Força da Idade. Depois, quando se tornaram escritores reconhecidos, já podiam fazer algumas pequenas extravagâncias e, além disso, passaram a ser convidados por universidades, governos e instituições políticas de esquerda para palestras e eventos, o que lhes rendeu muitas novas viagens, já com mais conforto, e outros tantos relatos.

Pensando no fascínio de Simone pelas viagens, decidi iniciar a série de posts chamada “As cidades de Simone”. Mas escolhi para iniciar a série uma cidade sobre a qual não conheço ainda nenhum relato de Simone de Beauvoir. Nida, na Lituânia.

Escolhi esse destino apenas porque considero as fotos da viagem lindas. (Sei que Simone fala sobre essa viagem no quarto volume de suas memórias, Balanço Final, que eu ainda não li).

Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre foram convidados pelo governo lituano a visitar o país por uma semana, em 1965. A viagem aconteceu em julho daquele ano. Anexada à União Soviética em 1940, a Lituânia não era exatamente um lugar em que a liberdade de ir e vir era garantida. A viagem de Simone e Sartre foi cuidadosamente preparada e monitorada. Creio que eles só receberam o convite porque eram bastante alinhados, em especial Sartre, com o projeto socialista.

Sartre e Simone foram acompanhados quase 24 horas por dia por um fotógrafo: Antanas Sutkus. As fotos que ele fez da viagem são muito bonitas (no link vocês poderão ver outras imagens, ele é mesmo um grande fotógrafo). Gosto especialmente desta, que mostra Simone, então com 57 anos, descalça, dançando na areia como uma criança.

Pés descalços e liberdade. Foto: Antanas Sutkus, 1965

Segundo a revista Lithuania in the World, que entrevistou Sutkus, Sartre era lacônico e Simone de Beauvoir, cordial e calorosa. O fotógrafo também revelou que teve uma preocupação especial em retratar os dois intelectuais de um modo genuíno, que revelasse aspectos da psicologia de cada um. Particularmente, acho que ele fez isso muito bem.

Os intelectuais de Paris, desajeitados nas dunas de Nida. Foto: Antanas Sutkus, 1965.

Nida é uma cidade de praia, com belas dunas, e os cosmopolitas Simone e Sartre são vistos nas fotos, ao mesmo tempo, como totalmente deslocados do ambiente e encantados com ele. Sutkus contou à revista lituana que Sartre comparou a cidade com o paraíso e disse: “Esta é a primeira vez que caminho sobre as nuvens”.

Pegadas na areia. Foto: Antanas Sutkus, 1965.

A intérprete deles na viagem era Lena Zonina, agente secreta russa, com quem Sartre teve um romance na época. Ela aparece na foto abaixo ao lado de Simone. Ainda segundo o relato de Sutkus, durante toda a viagem, Zonina parecia querer imitar as roupas e o jeito de Simone [vejam a foto abaixo e decidam], e evitava ser fotografada com o casal. Mas para quem adoraria relatos de cenas de ciúmes entre ambas, uma decepção: elas se davam bem.

Sartre, Zonina e Simone na chegada ao aeroporto de Vilnius. Foto: Antanas Sutkus, 1965.

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