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Archive for the ‘intelectuais’ Category

Quando esteve no Brasil, em 1960, Simone de Beauvoir conheceu a escritora Lygia Fagundes Telles na casa do editor José de Barros Martins. Alguns dias depois de se encontrarem pela primeira vez… É Lygia quem conta:

Comecei a rir de mim mesma enquanto atravessava a praça da República com o maçarote do romance [Ciranda de Pedra] na tradução do francês canadense. Envelope pesado, não? Impressionante como o pensamento pesa naquela hora da pesagem no aeroporto. E se deixasse o envelope com o seu conteúdo ali esquecido num dos bancos do jardim? Ainda assim, arrisquei, vamos apostar? Levo o livro até o hotel e pronto, melhor ainda se o casal não estiver. Imaginá-lo esquecido numa poltrona era menos deprimente do que deixá-lo ali no banco de pedra da praça.

Alguns dias depois, a carta de Simone de Beauvoir. Veio num papel todo quadriculado, o curioso papel que me fez pensar nos antigos cadernos de aritmética da minha infância e onde eu deixava cada número dentro de seu quadradinho – mas não era mesmo extraordinário? O papel disciplinado e a letra tão rebelde, difícil, num estiramento de libertação no papel com as fronteiras dos quadradinhos azuis. Quer dizer que me enganei? Não só tinha levado o livro, mas confessava, gostou do livro, ah, gostou sim, lamentava apenas que essa não fosse uma tradução no francês parisiense.

Meu gato veio miando, queria mais leite. Enchi a tigela até a borda. Era um amado gato sem raça nem caça e por isso o que fiz na sua cabeça solicitante não foi uma carícia, mas um agrado.

Lygia Fagundes Telles. Papel quadriculado. In: Durante aquele estranho chá: perdidos e achados. Rio de Janeiro: Rocco, 2002. pp. 37-38.

*****
Este texto me emociona particularmente pela bela descrição de Lygia sobre a letra e o papel em que Simone de Beauvoir escrevia. Simone amava o papel quadriculado, e sua letra é uma das mais terríveis. Lygia soube captar o que o papel disciplinado representava para a alma rebelde de Simone. Este post é uma homenagem a Lygia Fagundes Telles, escritora amada que faz 90 anos neste 19 de abril de 2013.

Imagem

Lygia Fagundes Telles.

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Que Simone de Beauvoir nunca foi unanimidade no meio intelectual francês de sua época não é novidade para ninguém. Suas posturas políticas, filosóficas e principalmente pessoais incomodavam muita gente. Além disso, num momento tão pulsante de pensamentos e questionamentos quanto o pós-guerra, os conflitos constantes transformavam facilmente amizades em inimizades e vice-versa. Entre as inimizades que nunca se transformaram em amizades (e vice-versa), está a relação de Marguerite Duras e Simone de Beauvoir.

Simone e Marguerite quase sempre estiveram lado a lado em termos políticos. Durante a Segunda Guerra, atuaram contra a ocupação nazista. Marguerite teve um papel fundamental na Resistência, como membro do Partido Comunista Francês (PCF), então clandestino, no grupo de François Mitterand. Simone integrou um dos primeiros grupos parisienses da Resistência, mas por volta de 1943 já participava muito pouco. (As obras A Dor, de Marguerite Duras e O Sangue dos Outros, de Simone de Beauvoir, tratam de suas experiências na Resistência.)

duas

Simone de Beauvoir em 1944 e Marguerite Duras em 1952.
As duas fotos foram feitas em Paris por Robert Doisneau.

Assinaram, em 1960, o Manifesto dos 121, contra a guerra da Argélia em que ambas – ao lado de Sartre, André Breton, Maurice Blanchot e tantos outros – se colocavam contra a ação violenta do governo francês e defendiam o direito de insubmissão do povo argelino contra a violência usada pela França. Em 1971, ambas assinaram o importante manifesto das 343, em que declaravam ter feito aborto – ilegal na França na época – a fim de pressionar o governo para que garantisse o direito à contracepção gratuita e ao aborto legal.

Embora ambas estivessem do mesmo lado, as relações pessoais entre elas eram conflituosas. Marguerite tinha sérias diferenças com Sartre, sobretudo porque este nunca chegou a um bom e definitivo termo com o PCF – do qual era aliado e crítico em quase todas as questões políticas e do qual a própria Marguerite se desfiliou em . Simone de Beauvoir menciona apenas uma vez Marguerite em suas memórias, quando fala, em Balanço Final. Os estudantes convidaram escritores para uma discussão na Sorbonne no dia 20 de maio de 1968. Marguerite também participou desse encontro e, a certo ponto, teria considerado que o convite havia sido uma tentativa dos estudantes de chamar mais atenção para o movimento.

No livro Marguerite Duras: A Life, de Laure Adler, algumas afirmações mostram que os conflitos entre Marguerite Duras e Sartre, e principalemente entre ela e Beauvoir, eram menos políticos do que pessoais, até mesmo narcisistas. Um pouco em tom de fofoca, a autora afirma que durante os anos 1950, Marguerite teria pedido a Sartre que publicasse na revista Les Temps Modernes alguns de seus contos. Sartre teria recusado, dizendo que ela era uma escritora ruim (este relato está na página 195, e se for verdadeiro, Sartre avaliou bem mal, hein?). Na verdade, Marguerite não tomou isso como verdadeira crítica, e considerou que a recusa foi arquitetada por Simone de Beauvoir. Segundo a autora, Marguerite detestava Simone e seu trabalho e tinha ciúmes dela, porque ambas tiveram casos com Jacques-Laurent Bost. E ele teria preferido se comprometer com Simone a se comprometer com ela.

Laure Adler conta ainda que Marguerite nunca teve amizade com outras escritoras, exceto Nathalie Sarraute (curiosamente, por algum tempo, muito próxima a Simone de Beauvoir), e detestava outras mulheres. Algumas pessoas dizem que era Simone de Beauvoir que não gostava de outras mulheres, especialmente escritoras. Duvido que a concepção que ambas tinham da liberdade e do amor seja compatível com essas explicações. (Aliás, essa é uma acusação muito recorrente contra mulheres que atingem sucesso como escritoras e pensadoras. Dizem isso para masculinizá-las e, assim, confirmar que o mundo do pensamento e da ação é prerrogativa masculina.)

Literariamente, ambas sempre tiveram também um ponto em comum. Ambas fizeram de suas vidas o tema essencial de seus escritos. Suas escolhas foram por processos criativos em que o que é escrito é o extrato da experiência de vida. É por isso que, penso, talvez a diferença fundamental e irreconciliável entre elas fosse também no âmbito literário.

Marguerite Duras sempre se posicionou como uma mulher escritora. Marguerite Duras, que associava a mulher à loucura, era mais passional, confessional, intensa e desconcertante em seu estilo. Sua escrita conturbada, perturbada, passional e seus problemas com o álcool marcam sua literatura como triste, dolorida. “A dor é uma das coisas mais importantes na minha vida”, escreveu ela uma vez. E essa importância é transposta para todas as suas obras, sempre de cunho autobiográfico.

Simone de Beauvoir é mais racional em seus escritos, tem como marca sua formação filosófica e seu compromisso com o existencialismo, que em certa medida é, sim, um desencantamento do mundo. Mas também fez de sua vida o tema principal de seus livros, e dizia que a literatura era a transformação de “uma vida que é vivida em uma vida que é refletida”. Reflexão é uma palavra fundamental para compreender seus escritos. Simone sempre se posicionou também como “sujeito da escrita” cuja contingência era ser mulher, não como uma “mulher escritora”. Essa diferença é fundamental na visão de mundo de ambas. Porque a escritora que reivindica a feminilidade fala a partir de uma suposta “essência feminina” e com uma “linguagem feminina”. A voz da escrita de Simone de Beauvoir é a da existência que precede à essência. Para ela, colocar-se como uma “mulher escritora” era de certo modo sustentar a condição de inferioridade da mulher na sociedade, como se uma mulher ocupar o lugar de sujeito da escrita fosse algo extraordinário, já que esse não seria seu lugar “natural”. Afinal, nenhum escritor se define como um “homem escritor”. O escritor é escritor e ponto. Para Simone, o lugar da escrita é um só. (Falei mais sobre essa questão aqui.)

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O post de hoje é sugestão do leitor Jorge G., de Portugal. (Obrigada, Jorge!)
Jorge se lembrou das relações e coincidências nas histórias de Simone de Beauvoir e da escritora e jornalista norte-americana Mary McCarthy (1912-1989), que se conheceram durante a viagem de Simone aos EUA, em 1947. Até onde consegui pesquisar, elas tinham relações cordiais, até que foi publicado L’Amérique au jour le jour, em 1948. No livro, Simone relata sua experiência de viagem e suas opiniões sobre os norte-americanos. Mary não gostou nada do que leu, e adotou uma postura furiosa contra Simone. Uma das conexões que Jorge G. aponta é entre as fotos abaixo:

Mary McCarthy nos anos 1940. Foto: Sylvia Salmi

Simone de Beauvoir, Chicago, 1950. Foto: Art Shay.

Diz Jorge G:
Quanto a ligações e coincidências:
– títulos muito parecidos: McCarthy publica “Memórias de uma Menina Católica” [original em inglês, Memoirs of a Catholic Gilrhood publicado em 1957] e Beauvoir lança “Memórias de Uma Rapariga Bem Comportada” [original em francês, Mémoires d’une jeune fille rangée, publicado em 1958];
– McCarthy critica sarcasticamente o livro de Beauvoir A América Dia a Dia (1948) na recensão Mlle. Gulliver en Amérique (1962);
– McCarthy escreveu um extenso e muito meditado texto sobre Portugal em “Carta de Portugal“. Beauvoir tem muitas referências a Portugal, conheceu o país aquando da estadia da irmã. (Detalhes da relação de Simone de Beauvoir com Portugal aqui.)

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Quando Simone de Beauvoir esteve no Brasil, em 1960, cultivou uma profunda amizade com Jorge Amado e Zélia Gattai. O texto abaixo – que escrevi originalmente para o Umbigo das Coisas – é uma homenagem a essa amizade. Com o texto, inicio uma nova série de posts sobre as relações duradouras ou efêmeras que Simone de Beauvoir estabeleceu ao longo da vida. E aproveito para lembrar Jorge Amado, cujo centenário se comemora neste ano. Jorge nasceu em 10 de agosto.

Quando o existencialismo descobriu a saudade

“Sartre era Oxalá, e eu, Oxum”. É assim, direta e curta, a revelação que Simone de Beauvoir faz, no terceiro volume de suas memórias, A força das coisas, sobre o momento em que foi acolhida pelo candomblé. Ateus convictos, Simone e Sartre viram-se, em agosto de 1960, no terreiro de Mãe Senhora, em Salvador, numa consulta espiritual. O encontro dos filósofos com a mãe de santo foi promovido pelo então Obá de Xangô do Ilê Apó Afonjá. Ou, para os leigos na religião, o escritor – cujo centenário se comemora neste ano – Jorge Amado.

A cena do comunista brasileiro recepcionando os existencialistas franceses – na época não exatamente em paz com o comunismo – em um terreiro na Bahia é emblemática de uma relação que foi capaz de transpor todas as diferenças culturais e ideológicas para se transformar em uma profunda amizade. Uma amizade daquelas que nos revelam novidades, que nos protegem e nos lançam em aventuras ao mesmo tempo. Amizade temperada com risos e conversas sérias, boas bebedeiras, reflexões filosóficas e políticas, discordâncias e diversão.

Simone e Sartre conheciam Amado de sua temporada de exílio em Paris, entre 1948 e 1950. Foram por ele convidados a conhecer o Brasil em 1960 e, após uma viagem fracionada em várias conexões aéreas complicadas, chegaram a Recife num avião cujo trem de pouso insistia em não funcionar. O pouso foi quase um milagre e o alívio do desembarque foi aumentado quando eles avistaram, no meio da multidão que os esperava no aeroporto, o rosto conhecido de Jorge Amado. “Compreendemos com satisfação que Amado, que viera especialmente para nos receber, iria servir-nos de guia pelo menos durante um mês”, relata Simone em suas memórias.

Começava ali, no aeroporto de Recife, uma relação afetiva e peculiar. Sartre e Simone de Beauvoir vieram ao Brasil com propósitos políticos: falar sobre as realizações da Revolução em Cuba, que eles haviam acabado de testemunhar. Também queriam falar sobre os crimes que a França cometia para reprimir as forças que lutavam pela independência da Argélia.

Com Jorge Amado como cicerone, podiam esquecer um pouco a política. Ele, segundo Simone, tinha gosto pelas “coisinhas boas da vida”: as comidas, as paisagens, as conversas e o riso. Orgulhoso de seu país e seu povo e de seu título honorífico no candomblé, disposto a acolher os amigos, Jorge Amado programou com Zélia Gattai uma agenda de viagem em que a cultura brasileira ficava em primeiro plano e a política, sempre que possível, em segundo. Levar os filósofos ateus ao terreiro de Mãe Senhora era prova disso. Foi um dos momentos mais impressionantes da viagem, para Simone: depois de testemunhar os rituais da religião e consultar-se com Mãe Senhora, ela fez uma bela reflexão sobre o poder dos rituais nas vidas das pessoas. Para ela, o candomblé, com seus êxtases e transes, era uma religião que permitia aos indivíduos a libertação da dominação da vida cotidiana e um encontro com a própria verdade.

Candomblé ao mar de Itapuã. As praias de Copacabana e Ipanema. Belo Horizonte. São Paulo – que “não era bonita, mas transbordava de vida”, como Simone definiu. A confusão dos mercados populares que exalavam o perfume da mistura de mercadorias e figuras humanas e cintilavam com as cores de adornos típicos e figuras de exus – esses “espíritos mais maliciosos do que malignos”. Disso tudo era feita a visita que tornou Jorge e Zélia, Sartre e Simone inseparáveis. Juntos, foram à igreja de São Francisco, a fazendas nordestinas, a plantações de café e de cacau, a Brasília, ao encontro com Oscar Niemeyer e do presidente Juscelino Kubitschek, ao Rio, ao Pelourinho e só não chegaram juntos numa tribo indígena do Mato Grosso porque Jorge Amado não era fã de aviões. Preferiu ficar em Brasília enquanto os amigos e a esposa embarcavam num suspeito teco-teco.

Amado logo conquistou a simpatia de Simone de Beauvoir por querer apresentar a ela e Sartre todos os sabores do Brasil: suco de caju, cacau, maracujá, feijoada, feijão mulatinho, mandioca, batata-doce, carne seca, rapadura, caipirinha e batidas variadas… Tanto Simone quanto Amado acreditavam que um país se conhece por seus sabores. Sartre, adoentado e sensível a sabores fortes, ressentia-se dessa convicção do amigo e evitava, sempre que possível, a diversidade de sabores do Brasil.

Mesmo deixando a política em segundo plano, Jorge fez questão de colocar os amigos a par da campanha eleitoral para presidente que se desenrolava no País. Explicou que o MarechalLott receberia o voto dos comunistas e da esquerda, mas o fato de ouvirem insistentemente, por onde andavam, o “Varre Vassourinha” de Jânio Quadros era emblemático. Sim, eles podiam ter certeza, Jânio ganharia as eleições.

Zélia era a motorista oficial dos passeios, impressionava Simone com sua agilidade ao volante pelas ruas tortuosas e montanhas e morros de Salvador e do Rio. E também por trazer sempre um amuleto contra acidentes, no qual Simone, se não confiava cegamente, encontrava algum conforto.

Em Araraquara, impressionada com o sucesso de Sartre entre os estudantes, Simone comentou com Amado, durante um passeio numa tarde de domingo: “– Dir-se-ia que são todos revolucionários!” “– Quando eles se tornarem médicos e advogados isso passará. (…) Não irão reivindicar mais nada além de um capitalismo nacional, independente dos EUA…”, foi a resposta sincera que ouviu do amigo.

Simone retribuía a atenção dos amigos com um interesse redobrado: lera Roger Bastide e Gilberto Freyre para compreender a cultura brasileira, e dedicava-se também à leitura dos livros de Jorge Amado: Gabriela Cravo e CanelaCacau e Terras do Sem-Fim.

Os casais se separaram depois de visitarem Brasília. Dali, Sartre e Simone partiriam para Belém e Amazônia – recomendações de viagem de Claude Lévi-Strauss – e, então, para uma segunda visita a Havana. Os Amado rumariam para o Rio. Simone comovia-se ao deixá-los. “Depois de seis semanas de tão bom relacionamento, era difícil imaginar que só os reveríamos muitos anos depois, ou talvez nunca mais”, relatou ela. Depois de tantos dias com os amigos, vendo e experimentando tudo o que o Brasil tem, a separação mostrava a ela um aspecto da cultura brasileira que ainda desconhecia: a saudade.

Em Belém e Manaus, Sartre e Simone não podiam retornar imediatamente à França e a viagem para Havana esbarrava em problemas burocráticos. Ressentiam-se da solidão, do clima, da falta de companhia para os passeios e as conversas. Tentaram contato com os amigos por telegramas, que nunca chegaram. Algumas semanas depois, na viagem rumo a Havana, desembarcaram novamente no Rio exaustos, tristes, preocupados. Ali reencontraram o escritor, político, amante das “coisinhas boas da vida” e Obá de Xangô Jorge Amado. Ou, para Simone de Beauvoir, apenas o amigo embaixador da saudade.

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Referências das citações:  Simone de Beauvoir, A Força das Coisas. Tradução de Maria Helena Franco Martins. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.

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Simone de Beauvoir caminha pelas ruas de Paris, 1971. Foto: Georges Bendrihem

Simone de Beauvoir morreu em 14 de abril de 1986, aos 78 anos. Há 26 anos.

Pouco mais de 20 anos após sua morte, em 13 de julho de 2006, foi inaugurada em Paris uma ponte sobre o rio Sena com seu nome. A Passarelle Simone de Beauvoir – 304 metros de comprimento, 12 metros de altura – é exclusiva para pedestres e ciclistas. Foi projetada pelo escritório de arquitetura Feichtinger e liga o Parc Bercy, na margem direita, a um dos edifícios da Bibliothèque nationale de France (BnF), na margem esquerda.

Simone de Beauvoir adorava a natureza e os livros, as vistas de Paris, a BnF e os longos passeios a pé ou de bicicleta. Por toda a vida, ela foi uma caminhante. Aventurou-se por caminhadas e trilhas em lugares desconhecidos de todo o mundo e viajou muitas vezes de bicicleta pelo interior da França. Foi também uma caminhante em suas obras e reflexões, reconhecendo todas as encruzilhadas, rumos equivocados, falhas, deslizes, tropeços, acertos e passos firmes de seu percurso intelectual. Foi uma caminhante, também, no sentido que muitas pessoas dão ao termo: “não há rota, esta se faz caminhando”. Ela nunca seguiu rotas, construiu sua própria vida fora dos traçados obrigatórios para uma mulher de sua classe social e de sua época. Em seus últimos anos de vida, Simone de Beauvoir tornou-se caminhante também ao integrar algumas passeatas do movimento feminista francês.

Há 26 anos, Simone de Beauvoir não é mais caminhante, mas permanece um caminho de acesso à muitas reflexões sobre a condição da mulher, as ambiguidades da existência e da ação política, a relação com o Outro e a existência como Outro, a experiência de combinar memória, história, ação no mundo e criação literária. E ainda mais, um convite à descoberta da autonomia, da própria liberdade e do compromisso com desejos pessoais e coletivos. Ler ensaios, memórias, diários, cartas, romances e novelas escritos por Simone é iniciar-se nesses caminhos. A travessia está feita, o restante da descoberta cabe a cada um construir.

Por isso escolhi homenageá-la hoje falando sobre a ponte que leva seu nome e publicando aqui as fotos desse caminho concreto, dessa ponte – a 37ª a ser construída sobre o Sena. Acho que um caminho a ser percorrido a pé ou de bicicleta, convidando à observação, ao prazer e à reflexão representa tudo que Simone de Beauvoir foi em vida e é hoje para quem explora suas obras.

As fotos abaixo, com exceção da primeira, cuja origem já não me lembro mais, foram feitas por Laura Farina em abril de 2011.

Passarelle Simone de Beauvoir vista do alto

Acesso à ponte, margem direita do Sena

Escadaria, margem direita do Sena

Trecho da Passarelle sobre o Parc Bercy

O parque, visto do alto da ponte

Caminhantes, acessando o caminho

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Na infância, na adolescência, a leitura não era apenas minha distração predileta, mas também a chave que me abria o mundo. Ela me anunciava meu futuro: identificando-me com heroínas de romance, através delas pressentia meu destino. Nos momentos ingratos de minha juventude, salvou-me da solidão. Mais tarde, ajudou-me a ampliar meus conhecimentos, a multiplicar minhas experiências, a compreender melhor minha condição de ser humano e o sentido de meu trabalho de escritora. Hoje, minha vida está realizada, minha obra está realizada, ainda que possa prolongar-se: nenhum livro me proporcionaria uma revelação fulminante. No entanto, continuo lendo muito: pela manhã, à tarde, antes de começar a trabalhar, ou quando estou cansada de escrever; se, por acaso, passo uma noite sozinha, leio; no verão, em Roma, passo horas lendo. Nenhuma ocupação me parece tão natural. No entanto, pergunto-me: se nada mais de decisivo pode ocorrer-me através dos livros, por que continuo tão presa a eles?

A alegria de ler: esta não diminuiu. Fico sempre maravilhada com a metamorfose dos pequenos sinais pretos numa palavra que me joga no mundo, que traz o mundo para dentro de minhas quatro paredes. O texto mais ingrato consegue provocar esse milagre. J.F., 30 anos, estenodatilógrafa exp. procura trab. três vezes por semana. Leio esse pequeno anúncio e a França se povoa de máquinas de escrever e de jovens desempregadas. Já o sei: o taumaturgo sou eu. Se fico inerte diante das linhas impressas, elas se calam; para que adquiram vida, é preciso que eu lhes dê um sentido e que minha liberdade lhes proporcione sua própria temporalidade, conservando o passado e ultrapassando-o na direção do futuro. Mas, como durante essa operação escondo-me, ela me parece mágica. Por momentos, tenho consciência de que colaboro com o autor para fazer existir a página que decifro: agrada-me contribuir para a criação do objeto que usufruo. Esse prazer é recusado ao escritor: mesmo quando se relê, a frase saída de sua pena lhe escapa. O leitor é mais favorecido: é ativo e, no entanto, o livro lhe proporciona riquezas imprevisíveis.

(…)

Abro as cortinas do meu quarto, deito-me num divã, tudo em volta deixa de existir, ignoro-me a mim mesma: existe somente a página preta e branca que meus olhos percorrem. E eis que me ocorre a surpreendente aventura relatada por alguns sábios taoístas: abandonando em seu leito uma carcaça inerte, eles levantavam voo; durante séculos viajavam de cume em cume, através da terra inteira e até o céu. Quando reecontravam seu corpo, este não envelhecera. Assim vago eu, imóvel, sob outros céus em épocas passadas, e é possível que transcorram séculos antes que me reencontre, a duas ou três horas de distância, neste lugar do qual não saí. Nenhuma experiência é comparável a esta. (…) Somente a leitura, com uma economia extraordinária de meios – apenas um volume em minha mão -, cria relações novas e duráveis entre mim e as coisas.

Simone de Beauvoir. Balanço Final. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990 [1972]. pp. 153-154.

Simone de Beauvoir, lendo, em seu apartamento em Paris. Data: 12 de outubro de 1976. Foto: Jacques Pavlovsky.

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Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre, Zélia Gattai e Jorge Amado com Mãe Senhora, em Salvador, Bahia. Agosto, 1960. Foto: Fundação Casa de Jorge Amado.

Por duas vezes o carro nos levou, à noite, através daquelas montanhas-russas que são os subúrbios da Bahia, até casas longínquas onde rufavam tambores. (…) Durante uma das festas, uma jovem negra estava terminando o ciclo de iniciação. Com a cabeça raspada, vestida de branco, tremia ligeiramente, com o olhar fixo no invisível, ao mesmo tempo presente e distante, como meu pai em sua agonia. No fim, entrou em transe, partiu e voltou transfigurada por uma alegria misteriosa.

Fiz a pergunta clássica: ‘Como se explicam os transes’? Só a mãe de santo tem o direito de simulá-los, para facilitar a descida dos orixás: e me pareceu que uma das duas usou realmente dessa permissão. Todos os observadores estão de acordo em afirmar que as outras não trapaceiam, e u não tinha dúvidas disso: tanto para elas quanto para o espectador, sua metamorfose era uma surpresa; elas também não pareciam neuróticas nem drogadas: as velhas, sobretudo, irônicas e alegres, chegavam ao candomblé com todo seu bom senso cotidiano. E então? Vivaldo [da Costa Lima], muito claramente, e Pierre Verger, com menos franqueza, falaram de intervenção do sobrenatural. [Jorge] Amado e todos os outros confessavam-se ignorantes. O certo é que esses fatos nada têm de patológico, mas são de ordem cultural; encontramos experiências análogas em todos os lugares onde indivíduos estão divididos entre duas civilizações. Obrigados a se dobrarem ao mundo ocidental, os negros da Bahia, outrora escravos, hoje explorados, sofrem uma opressão que chega a lhes tirar a posse de si mesmos; para se defenderem, não lhes basta preservar seus costumes, suas tradições e suas crenças: eles cultivam as técnicas que os ajudam a se arrancar, através do êxtase, da personagem mentirosa na qual foram aprisionados; no instante em que parecem perder-se é que se reencontram: eles são possuídos, sim, mas por sua própria verdade.  O candomblé, se não transforma os seres humanos em deuses, ao menos, através da cumplicidade de espíritos imaginários, restitui a humanidade a homens rebaixados à categoria de rebanho. O catolicismo lança os pobres de joelhos diante de Deus e de seus sacerdotes. Pelo candomblé, ao contrário, eles experimentam essa soberania que todo homem deveria poder reivindicar. (…) O momento supremo de sua vida individual – quando, de vendedora de bolos ou de lavadora de pratos, ela se transforma em Ogum ou Iemanjá – é também aquele em que a filha-de-santo integra-se mais estreitamente em sua comunidade. Poucas sociedades oferecem a seus membros oportunidade semelhante: realizar sua ligação com todos, não na banalidade cotidiana, mas através daquilo que se experimenta de mais íntimo e mais precioso.

Simone de Beauvoir, A Força das Coisas. Tradução de Maria Helena Franco Martins. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010. pp. 563-564.

O trecho acima (editado), é parte das reflexões que Simone de Beauvoir fez sobre a cultura brasileira durante sua visita ao País em agosto e setembro de 1960. Na visita, Simone de Beauvoir e Sartre tiveram como cicerones Jorge Amado e Zélia Gattai. A relação cotidiana se transformou em uma bela amizade sobre a qual escrevi no texto Quando o  existencialismo descobriu a saudade, em Umbigo das Coisas.

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