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Archive for the ‘memórias’ Category

O post de hoje é sugestão do leitor Jorge G., de Portugal. (Obrigada, Jorge!)
Jorge se lembrou das relações e coincidências nas histórias de Simone de Beauvoir e da escritora e jornalista norte-americana Mary McCarthy (1912-1989), que se conheceram durante a viagem de Simone aos EUA, em 1947. Até onde consegui pesquisar, elas tinham relações cordiais, até que foi publicado L’Amérique au jour le jour, em 1948. No livro, Simone relata sua experiência de viagem e suas opiniões sobre os norte-americanos. Mary não gostou nada do que leu, e adotou uma postura furiosa contra Simone. Uma das conexões que Jorge G. aponta é entre as fotos abaixo:

Mary McCarthy nos anos 1940. Foto: Sylvia Salmi

Simone de Beauvoir, Chicago, 1950. Foto: Art Shay.

Diz Jorge G:
Quanto a ligações e coincidências:
– títulos muito parecidos: McCarthy publica “Memórias de uma Menina Católica” [original em inglês, Memoirs of a Catholic Gilrhood publicado em 1957] e Beauvoir lança “Memórias de Uma Rapariga Bem Comportada” [original em francês, Mémoires d’une jeune fille rangée, publicado em 1958];
– McCarthy critica sarcasticamente o livro de Beauvoir A América Dia a Dia (1948) na recensão Mlle. Gulliver en Amérique (1962);
– McCarthy escreveu um extenso e muito meditado texto sobre Portugal em “Carta de Portugal“. Beauvoir tem muitas referências a Portugal, conheceu o país aquando da estadia da irmã. (Detalhes da relação de Simone de Beauvoir com Portugal aqui.)

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Uma vez que a linguagem não é a tradução de um texto já formulado, mas se inventa a partir da experiência indistinta, toda palavra é sempre apenas uma ‘maneira de falar’: poderia haver uma outra. É por isso que o escritor detesta ser ‘tomado ao pé da letra’, ou seja, preso, imobilizado, amordaçado pelas palavras escritas. Elas paralisam meu pensamento, quando na verdade ele nunca para.

Simone de Beauvoir. Balanço Final. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990 [1972]. p. 131.

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Quando Simone de Beauvoir esteve no Brasil, em 1960, cultivou uma profunda amizade com Jorge Amado e Zélia Gattai. O texto abaixo – que escrevi originalmente para o Umbigo das Coisas – é uma homenagem a essa amizade. Com o texto, inicio uma nova série de posts sobre as relações duradouras ou efêmeras que Simone de Beauvoir estabeleceu ao longo da vida. E aproveito para lembrar Jorge Amado, cujo centenário se comemora neste ano. Jorge nasceu em 10 de agosto.

Quando o existencialismo descobriu a saudade

“Sartre era Oxalá, e eu, Oxum”. É assim, direta e curta, a revelação que Simone de Beauvoir faz, no terceiro volume de suas memórias, A força das coisas, sobre o momento em que foi acolhida pelo candomblé. Ateus convictos, Simone e Sartre viram-se, em agosto de 1960, no terreiro de Mãe Senhora, em Salvador, numa consulta espiritual. O encontro dos filósofos com a mãe de santo foi promovido pelo então Obá de Xangô do Ilê Apó Afonjá. Ou, para os leigos na religião, o escritor – cujo centenário se comemora neste ano – Jorge Amado.

A cena do comunista brasileiro recepcionando os existencialistas franceses – na época não exatamente em paz com o comunismo – em um terreiro na Bahia é emblemática de uma relação que foi capaz de transpor todas as diferenças culturais e ideológicas para se transformar em uma profunda amizade. Uma amizade daquelas que nos revelam novidades, que nos protegem e nos lançam em aventuras ao mesmo tempo. Amizade temperada com risos e conversas sérias, boas bebedeiras, reflexões filosóficas e políticas, discordâncias e diversão.

Simone e Sartre conheciam Amado de sua temporada de exílio em Paris, entre 1948 e 1950. Foram por ele convidados a conhecer o Brasil em 1960 e, após uma viagem fracionada em várias conexões aéreas complicadas, chegaram a Recife num avião cujo trem de pouso insistia em não funcionar. O pouso foi quase um milagre e o alívio do desembarque foi aumentado quando eles avistaram, no meio da multidão que os esperava no aeroporto, o rosto conhecido de Jorge Amado. “Compreendemos com satisfação que Amado, que viera especialmente para nos receber, iria servir-nos de guia pelo menos durante um mês”, relata Simone em suas memórias.

Começava ali, no aeroporto de Recife, uma relação afetiva e peculiar. Sartre e Simone de Beauvoir vieram ao Brasil com propósitos políticos: falar sobre as realizações da Revolução em Cuba, que eles haviam acabado de testemunhar. Também queriam falar sobre os crimes que a França cometia para reprimir as forças que lutavam pela independência da Argélia.

Com Jorge Amado como cicerone, podiam esquecer um pouco a política. Ele, segundo Simone, tinha gosto pelas “coisinhas boas da vida”: as comidas, as paisagens, as conversas e o riso. Orgulhoso de seu país e seu povo e de seu título honorífico no candomblé, disposto a acolher os amigos, Jorge Amado programou com Zélia Gattai uma agenda de viagem em que a cultura brasileira ficava em primeiro plano e a política, sempre que possível, em segundo. Levar os filósofos ateus ao terreiro de Mãe Senhora era prova disso. Foi um dos momentos mais impressionantes da viagem, para Simone: depois de testemunhar os rituais da religião e consultar-se com Mãe Senhora, ela fez uma bela reflexão sobre o poder dos rituais nas vidas das pessoas. Para ela, o candomblé, com seus êxtases e transes, era uma religião que permitia aos indivíduos a libertação da dominação da vida cotidiana e um encontro com a própria verdade.

Candomblé ao mar de Itapuã. As praias de Copacabana e Ipanema. Belo Horizonte. São Paulo – que “não era bonita, mas transbordava de vida”, como Simone definiu. A confusão dos mercados populares que exalavam o perfume da mistura de mercadorias e figuras humanas e cintilavam com as cores de adornos típicos e figuras de exus – esses “espíritos mais maliciosos do que malignos”. Disso tudo era feita a visita que tornou Jorge e Zélia, Sartre e Simone inseparáveis. Juntos, foram à igreja de São Francisco, a fazendas nordestinas, a plantações de café e de cacau, a Brasília, ao encontro com Oscar Niemeyer e do presidente Juscelino Kubitschek, ao Rio, ao Pelourinho e só não chegaram juntos numa tribo indígena do Mato Grosso porque Jorge Amado não era fã de aviões. Preferiu ficar em Brasília enquanto os amigos e a esposa embarcavam num suspeito teco-teco.

Amado logo conquistou a simpatia de Simone de Beauvoir por querer apresentar a ela e Sartre todos os sabores do Brasil: suco de caju, cacau, maracujá, feijoada, feijão mulatinho, mandioca, batata-doce, carne seca, rapadura, caipirinha e batidas variadas… Tanto Simone quanto Amado acreditavam que um país se conhece por seus sabores. Sartre, adoentado e sensível a sabores fortes, ressentia-se dessa convicção do amigo e evitava, sempre que possível, a diversidade de sabores do Brasil.

Mesmo deixando a política em segundo plano, Jorge fez questão de colocar os amigos a par da campanha eleitoral para presidente que se desenrolava no País. Explicou que o MarechalLott receberia o voto dos comunistas e da esquerda, mas o fato de ouvirem insistentemente, por onde andavam, o “Varre Vassourinha” de Jânio Quadros era emblemático. Sim, eles podiam ter certeza, Jânio ganharia as eleições.

Zélia era a motorista oficial dos passeios, impressionava Simone com sua agilidade ao volante pelas ruas tortuosas e montanhas e morros de Salvador e do Rio. E também por trazer sempre um amuleto contra acidentes, no qual Simone, se não confiava cegamente, encontrava algum conforto.

Em Araraquara, impressionada com o sucesso de Sartre entre os estudantes, Simone comentou com Amado, durante um passeio numa tarde de domingo: “– Dir-se-ia que são todos revolucionários!” “– Quando eles se tornarem médicos e advogados isso passará. (…) Não irão reivindicar mais nada além de um capitalismo nacional, independente dos EUA…”, foi a resposta sincera que ouviu do amigo.

Simone retribuía a atenção dos amigos com um interesse redobrado: lera Roger Bastide e Gilberto Freyre para compreender a cultura brasileira, e dedicava-se também à leitura dos livros de Jorge Amado: Gabriela Cravo e CanelaCacau e Terras do Sem-Fim.

Os casais se separaram depois de visitarem Brasília. Dali, Sartre e Simone partiriam para Belém e Amazônia – recomendações de viagem de Claude Lévi-Strauss – e, então, para uma segunda visita a Havana. Os Amado rumariam para o Rio. Simone comovia-se ao deixá-los. “Depois de seis semanas de tão bom relacionamento, era difícil imaginar que só os reveríamos muitos anos depois, ou talvez nunca mais”, relatou ela. Depois de tantos dias com os amigos, vendo e experimentando tudo o que o Brasil tem, a separação mostrava a ela um aspecto da cultura brasileira que ainda desconhecia: a saudade.

Em Belém e Manaus, Sartre e Simone não podiam retornar imediatamente à França e a viagem para Havana esbarrava em problemas burocráticos. Ressentiam-se da solidão, do clima, da falta de companhia para os passeios e as conversas. Tentaram contato com os amigos por telegramas, que nunca chegaram. Algumas semanas depois, na viagem rumo a Havana, desembarcaram novamente no Rio exaustos, tristes, preocupados. Ali reencontraram o escritor, político, amante das “coisinhas boas da vida” e Obá de Xangô Jorge Amado. Ou, para Simone de Beauvoir, apenas o amigo embaixador da saudade.

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Referências das citações:  Simone de Beauvoir, A Força das Coisas. Tradução de Maria Helena Franco Martins. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.

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Apenas minhas relações com Castor* escapam ao absurdo da morte porque elas são perfeitas e, em cada instante, tudo o que elas podem ser. Minha única expectativa é que elas continuem indefinidamente.

Jean-Paul Sartre. Diário de uma guerra estranha. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005. 23 de setembro de 1939. p. 46.

*Castor era como Sartre chamava Simone de Beauvoir, por causa da semelhança do sobrenome Beauvoir com a palavra Beaver, em inglês e porque Simone era trabalhadora como um castor.

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Sartre correspondia exatamente aos meus sonhos de quinze anos: era o duplo, em quem eu encontrava, elevadas ao extremo, todas as minhas manias. Com ele, poderia sempre tudo partilhar. Quando o deixei, em princípio de agosto [de 1929], sabia que nunca mais ele sairia da minha vida.

Simone de Beauvoir. Memórias de uma moça bem-comportada. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009. p.345.

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Simone de Beauvoir tinha apenas seis anos em 1914, quando a Primeira Guerra Mundial começou. Mas ela se lembrava daquele dia, em que brincava com a irmã e a prima Jeanne em Meyrignac, e o descreveu em suas memórias assim:

Certa manhã, brincávamos no monte de lenha com a serragem fresca quando dobraram os sinos: a guerra fora declarada. Ouvira pela primeira vez a palavra um ano antes em Lyon. Em tempo de guerra, tinham me dito, os indivíduos matam outros indivíduos: para onde fugiria eu? No decorrer do ano papai explicara-me que a guerra significa a invasão de um país por estrangeiros e pus-me a temer os numerosos japoneses que então vendiam leques e lanternas de papel nas praças. Mas não eram eles, nossos inimigos eram os alemães […]

Simone de Beauvoir em Memórias de uma moça bem-comportada, página 31. Nova Fronteira, 2009.

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Simone de Beauvoir caminha pelas ruas de Paris, 1971. Foto: Georges Bendrihem

Simone de Beauvoir morreu em 14 de abril de 1986, aos 78 anos. Há 26 anos.

Pouco mais de 20 anos após sua morte, em 13 de julho de 2006, foi inaugurada em Paris uma ponte sobre o rio Sena com seu nome. A Passarelle Simone de Beauvoir – 304 metros de comprimento, 12 metros de altura – é exclusiva para pedestres e ciclistas. Foi projetada pelo escritório de arquitetura Feichtinger e liga o Parc Bercy, na margem direita, a um dos edifícios da Bibliothèque nationale de France (BnF), na margem esquerda.

Simone de Beauvoir adorava a natureza e os livros, as vistas de Paris, a BnF e os longos passeios a pé ou de bicicleta. Por toda a vida, ela foi uma caminhante. Aventurou-se por caminhadas e trilhas em lugares desconhecidos de todo o mundo e viajou muitas vezes de bicicleta pelo interior da França. Foi também uma caminhante em suas obras e reflexões, reconhecendo todas as encruzilhadas, rumos equivocados, falhas, deslizes, tropeços, acertos e passos firmes de seu percurso intelectual. Foi uma caminhante, também, no sentido que muitas pessoas dão ao termo: “não há rota, esta se faz caminhando”. Ela nunca seguiu rotas, construiu sua própria vida fora dos traçados obrigatórios para uma mulher de sua classe social e de sua época. Em seus últimos anos de vida, Simone de Beauvoir tornou-se caminhante também ao integrar algumas passeatas do movimento feminista francês.

Há 26 anos, Simone de Beauvoir não é mais caminhante, mas permanece um caminho de acesso à muitas reflexões sobre a condição da mulher, as ambiguidades da existência e da ação política, a relação com o Outro e a existência como Outro, a experiência de combinar memória, história, ação no mundo e criação literária. E ainda mais, um convite à descoberta da autonomia, da própria liberdade e do compromisso com desejos pessoais e coletivos. Ler ensaios, memórias, diários, cartas, romances e novelas escritos por Simone é iniciar-se nesses caminhos. A travessia está feita, o restante da descoberta cabe a cada um construir.

Por isso escolhi homenageá-la hoje falando sobre a ponte que leva seu nome e publicando aqui as fotos desse caminho concreto, dessa ponte – a 37ª a ser construída sobre o Sena. Acho que um caminho a ser percorrido a pé ou de bicicleta, convidando à observação, ao prazer e à reflexão representa tudo que Simone de Beauvoir foi em vida e é hoje para quem explora suas obras.

As fotos abaixo, com exceção da primeira, cuja origem já não me lembro mais, foram feitas por Laura Farina em abril de 2011.

Passarelle Simone de Beauvoir vista do alto

Acesso à ponte, margem direita do Sena

Escadaria, margem direita do Sena

Trecho da Passarelle sobre o Parc Bercy

O parque, visto do alto da ponte

Caminhantes, acessando o caminho

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