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Archive for the ‘O segundo sexo’ Category

Há tempos não escrevo aqui, mas não poderia deixar de registrar esta data. Simone de Beauvoir morreu há 30 anos.

Poucos dias depois da morte de Beauvoir, a intelectual e feminista francesa Élisabeth Badinter publicou no Nouvel Observateur um texto emocionado e simples – “Mulheres, vocês lhe devem tudo” -, em que nos fala sobre o legado de Beauvoir. E considerei que a melhor homenagem que eu poderia fazer hoje seria traduzir trechos desse artigo, que nos lembra da principal mensagem que Beauvoir nos deixou.

Hoje, as mulheres ocidentais estão de luto. Não apenas os milhões de leitoras de O segundo sexo, mas também todas as outras que se beneficiaram da análise inconscientemente revolucionária de Simone de Beauvoir e de sua luta permanente para a igualdade de género.

[…]

Ao contar a história da opressão das mulheres, destruindo o conceito de natureza feminina, Simone de Beauvoir nos libertou de uma camisa de força milenar. Lembro-me de que, ao ler [O segundo sexo] senti que realmente tinha asas. Sua mensagem, tão clara e certa, ouvido por toda minha geração. Façam como eu, dizia ela, não tenham medo. Conquistem o mundo: ele é seu.

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Simone de Beauvoir em Copenhagen em 1983, ao receber o prêmio Sonning.

 

 

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  1. Lançado na França em maio de 1949, o primeiro volume de O segundo sexo foi um fenômeno editorial. Na primeira semana, 22 mil exemplares foram vendidos.
  2. Logo depois desse sucesso de vendas, o livro foi retirado de várias livrarias, devido às reações hostis contra a obra e a autora.
  3. Colette Audry, escritora, professora e militante socialista francesa que era amiga de Simone de Beauvoir, sempre teve um projeto de escrever um livro sobre mulheres. Quando O segundo sexo foi publicado, ela se tornou uma das principais defensoras da obra. Audry viajou pela França dando conferências sobre o livro da amiga. (Sororidade rocks!)
  4. François Mauriac – sim, o autor de Thérèse Desqueyroux, aquele livro incrível – foi um dos principais opositores da obra. Ele organizou um debate convocando intelectuais franceses a criticarem a obra nos jornais e revistas franceses logo após o lançamento. (Vale registrar que Mauriac era um dos principais nomes da intelectualidade de direita e católica na França naquele momento.)
  5. Trechos do livro foram publicados – antes do lançamento – na revista Les Temps Modernes, que Beauvoir dirigia juntamente com Jean-Paul Sartre. As vendas da revista, nas edições em que os trechos foram publicados, bateram recordes. A edição com trechos do volume 1 vendeu 513.418 exemplares; a edição com trechos do volume 2 vendeu 459.237 exemplares.
  6. Em 1956, o livro entrou para o Index, a listra de livros proibidos criada pela igreja católica para controlar as leituras dos fiéis. Os mandarins, que Beauvoir lançou em 1954, também entrou para a lista no mesmo ano.
  7. Também em 1956, O segundo sexo foi proibido em Portugal e na Rússia.
  8. Por causa do livro, alguns setores da intelectualidade comunista francesa apelidaram Beauvoir de “sufragete da sexualidade”.
  9. Entre os grupos intelectuais mais influentes na França no momento – católicos e protestantes (ambos de viés direitista), comunistas e existencialistas (ambos de esquerda) – os mais receptivos e objetivamente críticos à obra foram os protestantes. Até mesmo dentro do existencialismo Beauvoir desagradou alguns intelectuais (especialmente Camus, que afirmou que Beauvoir atingiu a honra do “macho” francês. Beauvoir conta esse episódio em A Força das Coisas.)
  10. As organizações femininas na época procuraram se desconectar da polêmica gerada pelo livro. Em sua maioria ligadas à igreja católica e ao partido comunista, essas associações não concordavam com duas das principais pautas da agenda política inaugurada pelo livro no contexto da sociedade francesa da época: o direito à contracepção gratuita e o direito ao aborto legal.

Estes itens foram listados a partir da leitura do livro Les Années Beauvoir, de Sylvie Chaperon. Mas há um artigo da autora, anterior ao livro, que foi traduzido para o português pelo periódico Cadernos Pagu e que traz mais detalhes sobre a recepção de O segundo sexo na França: “O “auê” sobre O segundo sexo” (download do pdf).

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