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Archive for the ‘política’ Category

Que Simone de Beauvoir nunca foi unanimidade no meio intelectual francês de sua época não é novidade para ninguém. Suas posturas políticas, filosóficas e principalmente pessoais incomodavam muita gente. Além disso, num momento tão pulsante de pensamentos e questionamentos quanto o pós-guerra, os conflitos constantes transformavam facilmente amizades em inimizades e vice-versa. Entre as inimizades que nunca se transformaram em amizades (e vice-versa), está a relação de Marguerite Duras e Simone de Beauvoir.

Simone e Marguerite quase sempre estiveram lado a lado em termos políticos. Durante a Segunda Guerra, atuaram contra a ocupação nazista. Marguerite teve um papel fundamental na Resistência, como membro do Partido Comunista Francês (PCF), então clandestino, no grupo de François Mitterand. Simone integrou um dos primeiros grupos parisienses da Resistência, mas por volta de 1943 já participava muito pouco. (As obras A Dor, de Marguerite Duras e O Sangue dos Outros, de Simone de Beauvoir, tratam de suas experiências na Resistência.)

duas

Simone de Beauvoir em 1944 e Marguerite Duras em 1952.
As duas fotos foram feitas em Paris por Robert Doisneau.

Assinaram, em 1960, o Manifesto dos 121, contra a guerra da Argélia em que ambas – ao lado de Sartre, André Breton, Maurice Blanchot e tantos outros – se colocavam contra a ação violenta do governo francês e defendiam o direito de insubmissão do povo argelino contra a violência usada pela França. Em 1971, ambas assinaram o importante manifesto das 343, em que declaravam ter feito aborto – ilegal na França na época – a fim de pressionar o governo para que garantisse o direito à contracepção gratuita e ao aborto legal.

Embora ambas estivessem do mesmo lado, as relações pessoais entre elas eram conflituosas. Marguerite tinha sérias diferenças com Sartre, sobretudo porque este nunca chegou a um bom e definitivo termo com o PCF – do qual era aliado e crítico em quase todas as questões políticas e do qual a própria Marguerite se desfiliou em . Simone de Beauvoir menciona apenas uma vez Marguerite em suas memórias, quando fala, em Balanço Final. Os estudantes convidaram escritores para uma discussão na Sorbonne no dia 20 de maio de 1968. Marguerite também participou desse encontro e, a certo ponto, teria considerado que o convite havia sido uma tentativa dos estudantes de chamar mais atenção para o movimento.

No livro Marguerite Duras: A Life, de Laure Adler, algumas afirmações mostram que os conflitos entre Marguerite Duras e Sartre, e principalemente entre ela e Beauvoir, eram menos políticos do que pessoais, até mesmo narcisistas. Um pouco em tom de fofoca, a autora afirma que durante os anos 1950, Marguerite teria pedido a Sartre que publicasse na revista Les Temps Modernes alguns de seus contos. Sartre teria recusado, dizendo que ela era uma escritora ruim (este relato está na página 195, e se for verdadeiro, Sartre avaliou bem mal, hein?). Na verdade, Marguerite não tomou isso como verdadeira crítica, e considerou que a recusa foi arquitetada por Simone de Beauvoir. Segundo a autora, Marguerite detestava Simone e seu trabalho e tinha ciúmes dela, porque ambas tiveram casos com Jacques-Laurent Bost. E ele teria preferido se comprometer com Simone a se comprometer com ela.

Laure Adler conta ainda que Marguerite nunca teve amizade com outras escritoras, exceto Nathalie Sarraute (curiosamente, por algum tempo, muito próxima a Simone de Beauvoir), e detestava outras mulheres. Algumas pessoas dizem que era Simone de Beauvoir que não gostava de outras mulheres, especialmente escritoras. Duvido que a concepção que ambas tinham da liberdade e do amor seja compatível com essas explicações. (Aliás, essa é uma acusação muito recorrente contra mulheres que atingem sucesso como escritoras e pensadoras. Dizem isso para masculinizá-las e, assim, confirmar que o mundo do pensamento e da ação é prerrogativa masculina.)

Literariamente, ambas sempre tiveram também um ponto em comum. Ambas fizeram de suas vidas o tema essencial de seus escritos. Suas escolhas foram por processos criativos em que o que é escrito é o extrato da experiência de vida. É por isso que, penso, talvez a diferença fundamental e irreconciliável entre elas fosse também no âmbito literário.

Marguerite Duras sempre se posicionou como uma mulher escritora. Marguerite Duras, que associava a mulher à loucura, era mais passional, confessional, intensa e desconcertante em seu estilo. Sua escrita conturbada, perturbada, passional e seus problemas com o álcool marcam sua literatura como triste, dolorida. “A dor é uma das coisas mais importantes na minha vida”, escreveu ela uma vez. E essa importância é transposta para todas as suas obras, sempre de cunho autobiográfico.

Simone de Beauvoir é mais racional em seus escritos, tem como marca sua formação filosófica e seu compromisso com o existencialismo, que em certa medida é, sim, um desencantamento do mundo. Mas também fez de sua vida o tema principal de seus livros, e dizia que a literatura era a transformação de “uma vida que é vivida em uma vida que é refletida”. Reflexão é uma palavra fundamental para compreender seus escritos. Simone sempre se posicionou também como “sujeito da escrita” cuja contingência era ser mulher, não como uma “mulher escritora”. Essa diferença é fundamental na visão de mundo de ambas. Porque a escritora que reivindica a feminilidade fala a partir de uma suposta “essência feminina” e com uma “linguagem feminina”. A voz da escrita de Simone de Beauvoir é a da existência que precede à essência. Para ela, colocar-se como uma “mulher escritora” era de certo modo sustentar a condição de inferioridade da mulher na sociedade, como se uma mulher ocupar o lugar de sujeito da escrita fosse algo extraordinário, já que esse não seria seu lugar “natural”. Afinal, nenhum escritor se define como um “homem escritor”. O escritor é escritor e ponto. Para Simone, o lugar da escrita é um só. (Falei mais sobre essa questão aqui.)

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A partir deste mês, farei uma seleção de notícias e artigos citando Simone de Beauvoir. O objetivo é conhecer um pouco mais como o nome e o legado de Simone aparece na mídia mundial e não estou necessariamente de acordo com os conteúdos dos textos. No mês de julho inclui:

  • Baseadas nas regras que são contra o uso de símbolos religiosos nos jogos, feministas francesas da Ligue du Droit International des Femmes, fundada por Simone de Beauvoir, criticaram a autorização do Comitê Olímpico Internacional para que mulheres atletlas de países islâmicos usassem véu durante as competições de Londres 2012.  No site do Humanité.
  • LaJohn Joseph, comediante e drag queen que diz não se sentir como drag queen, fala das mulheres que foram importantes na sua construção de gênero. Simone de Beauvoir entre elas. No site do The Independent.
  • A Asociación Leonesa Simone de Beauvoir, da Espanha, que há 25 anos trabalha para na prevenção da violência contra a mulher, recebeu recursos para criar uma casa de apoio a vítimas. No Diario de Leon.
  • Em 1939, durante a Segunda Guerra Mundial, Jean-Paul Sartre foi mobilizado. Simone de Beauvoir saiu, então, de Paris e passou algum tempo na comuna francesa de La Pouëze, onde escrevia Phyrrus et Cinéas. O fato foi narrado no site francês Ouest-France, mas os detalhes podem ser conhecidos no site do Ministério da Cultura da França.

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Em entrevista à TRIP FM em junho de 2012, Laerte Coutinho falou sobre sexualidade, feminino e masculino. Ao comentar a construção social do gênero, citou Simone de Beauvoir. Veja o vídeo abaixo. A entrevista completa você ouve no site da TRIP

Vídeo enviado por Rita Alves, do blog Lado B.

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Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre, Zélia Gattai e Jorge Amado com Mãe Senhora, em Salvador, Bahia. Agosto, 1960. Foto: Fundação Casa de Jorge Amado.

Por duas vezes o carro nos levou, à noite, através daquelas montanhas-russas que são os subúrbios da Bahia, até casas longínquas onde rufavam tambores. (…) Durante uma das festas, uma jovem negra estava terminando o ciclo de iniciação. Com a cabeça raspada, vestida de branco, tremia ligeiramente, com o olhar fixo no invisível, ao mesmo tempo presente e distante, como meu pai em sua agonia. No fim, entrou em transe, partiu e voltou transfigurada por uma alegria misteriosa.

Fiz a pergunta clássica: ‘Como se explicam os transes’? Só a mãe de santo tem o direito de simulá-los, para facilitar a descida dos orixás: e me pareceu que uma das duas usou realmente dessa permissão. Todos os observadores estão de acordo em afirmar que as outras não trapaceiam, e u não tinha dúvidas disso: tanto para elas quanto para o espectador, sua metamorfose era uma surpresa; elas também não pareciam neuróticas nem drogadas: as velhas, sobretudo, irônicas e alegres, chegavam ao candomblé com todo seu bom senso cotidiano. E então? Vivaldo [da Costa Lima], muito claramente, e Pierre Verger, com menos franqueza, falaram de intervenção do sobrenatural. [Jorge] Amado e todos os outros confessavam-se ignorantes. O certo é que esses fatos nada têm de patológico, mas são de ordem cultural; encontramos experiências análogas em todos os lugares onde indivíduos estão divididos entre duas civilizações. Obrigados a se dobrarem ao mundo ocidental, os negros da Bahia, outrora escravos, hoje explorados, sofrem uma opressão que chega a lhes tirar a posse de si mesmos; para se defenderem, não lhes basta preservar seus costumes, suas tradições e suas crenças: eles cultivam as técnicas que os ajudam a se arrancar, através do êxtase, da personagem mentirosa na qual foram aprisionados; no instante em que parecem perder-se é que se reencontram: eles são possuídos, sim, mas por sua própria verdade.  O candomblé, se não transforma os seres humanos em deuses, ao menos, através da cumplicidade de espíritos imaginários, restitui a humanidade a homens rebaixados à categoria de rebanho. O catolicismo lança os pobres de joelhos diante de Deus e de seus sacerdotes. Pelo candomblé, ao contrário, eles experimentam essa soberania que todo homem deveria poder reivindicar. (…) O momento supremo de sua vida individual – quando, de vendedora de bolos ou de lavadora de pratos, ela se transforma em Ogum ou Iemanjá – é também aquele em que a filha-de-santo integra-se mais estreitamente em sua comunidade. Poucas sociedades oferecem a seus membros oportunidade semelhante: realizar sua ligação com todos, não na banalidade cotidiana, mas através daquilo que se experimenta de mais íntimo e mais precioso.

Simone de Beauvoir, A Força das Coisas. Tradução de Maria Helena Franco Martins. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010. pp. 563-564.

O trecho acima (editado), é parte das reflexões que Simone de Beauvoir fez sobre a cultura brasileira durante sua visita ao País em agosto e setembro de 1960. Na visita, Simone de Beauvoir e Sartre tiveram como cicerones Jorge Amado e Zélia Gattai. A relação cotidiana se transformou em uma bela amizade sobre a qual escrevi no texto Quando o  existencialismo descobriu a saudade, em Umbigo das Coisas.

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Assisti na última sexta-feira, 9 de dezembro, a uma das últimas apresentações do espetáculo Viver sem Tempos Mortos, em que Fernanda Montenegro interpreta um texto baseado nas memórias de Simone de Beauvoir e nas cartas que ela escreveu a Jean-Paul Sartre*. A montagem, de um respeito absoluto com a história e o pensamento da escritora, me emocionou, não apenas por dar vida a palavras que Simone escreveu, mas por conseguir captar o verdadeiro sentido que ela quis imprimir em sua vida.

O texto da peça é uma colagem de trechos dos escritos de Simone e foi produzido em conjunto por Fernanda Montenegro e pelo tradutor Newton Goldman. As frases e relatos selecionados pelos dois dramaturgos conseguem contar a história da escritora como se invadíssemos secretamente seu fluxo de consciência num momento em que ela revisita sua própria vida, sem omissões, sem disfarces, sem reducionismos, sem floreios, sem justificativas.

É desta forma que o texto consegue preservar sua origem, as memórias e relatos íntimos da escritora, e mantém intacto o despojamento de intencionalidade que diferencia as memórias das autobiografias. Ao fim do espetáculo, comecei a pensar na diferença conceitual entre autobiografia e memória e nos motivos que fizeram com que Simone de Beauvoir se dedicasse ao trabalho de uma memorialista. (Há pessoas que dizem que todas as obras de Simone são autobiográficas, uma afirmação que contém de cara dois erros: o desconhecimento de sua proposta intelectual e do conjunto de sua obra e a confusão entre autobiografia e memória.)

Fernanda Montenegro no espetáculo ‘Viver sem Tempos Mortos’. Foto: Divulgação.

Memória e acaso

Autobiografias costumam ser construções objetivas, como se o protagonista olhasse para si mesmo como um observador, e narrasse o que esse olhar descobre. O biógrafo de si mesmo produz um texto sobre sua vida, narra de modo linear e fechado a história de uma vida que encerra-se em si mesma, uma vida que se explica (e muitas vezes, se justifica). A autobiografia é uma construção intencional.

Esse trabalho nada tem em comum com o trabalho empreendido por um memorialista. Este se debruça sobre um fluxo de lembranças, recordações, sentimentos, que o revelam como um indivíduo que se insere no contexto histórico, familiar, social de sua época. A memória é uma escrita subjetiva, atrelada ao lugar que aquela pessoa ocupa no mundo, e está repleta de ambiguidades, dúvidas sem respostas, reflexões e questionamentos acerca desse que fala e da posição de onde se fala. O memorialista é um indivíduo que registra a descoberta de que é um ser no mundo, o biógrafo de si mesmo é um indivíduo que cria uma identidade imutável, a sua. Ao ler – ou ouvir, como no caso do espetáculo teatral – as memórias de alguém podemos entrar em contato com o indivíduo em sua contingência.

É curioso que aparentemente, as memórias possam parecer mais seletivas do que uma narrativa quando, na verdade, o que ocorre, é o contrário. As memórias não são lineares e não podem ser controladas inteiramente: que encadeamento de fatos e emoções nossas lembranças permitem? Depois de recordar o dia em que ela e seu grupo feminista gritaram diante de uma igreja onde se celebrava um casamento a frase “libertem a noiva” – momento que leva a plateia às gargalhadas –, qual será a lembrança seguinte de Simone de Beauvoir e como ela irá contá-la? São infinitas possibilidades e, nesse sentido, as memórias se aproximam – embora, é claro, não se igualem – a uma fala inconsciente, livre, construída a partir de associações cuja lógica de encadeamento não se controla nem se conhece.

Uma das grandes realizações da peça “Viver sem Tempos Mortos” é justamente captar essa essência das memórias em um texto construído, cujo encadeamento de relatos e pensamentos foi produzido por dois dramaturgos, objetivamente, com a motivação de contar uma história. Entretanto, essa construção é uma costura fina, invisível, e o público se sente diante da hesitação e da sutileza das infinitas possibilidades que caracterizam as memórias.

Acredito que, nesse sentido, a interpretação de Fernanda Montenegro tem um papel fundamental. A atriz (e nada vou dizer sobre Fernanda, pois acredito que seria cair em pretensões ou em lugares-comuns) poderia dar voz a Simone de modo tão absoluto. No palco, Fernanda se despe de toda caracterização, de toda a vaidade, de toda a semelhança, de toda a encenação para deixar que o texto seja “criado”  diante da plateia. A peça é, então, é o retrato de como Simone de Beauvoir relacionava-se consigo mesma e com sua época e de como ela existiu: com suas angústias, dores, sofrimentos, erros… O espetáculo consegue respeitar tudo isso sem julgamentos.

Vemos Fernanda Montenegro em sua camisa branca e sua calça preta, sentada em uma cadeira, nenhum cenário ao redor. A sensação é de estarmos diante de Simone de Beauvoir. A escritora nos conta suas memórias. Com a interpretação de Fernanda, as palavras pintam em nossa imaginação o cenário que não está no palco. Quando a fala de Simone poderia se deter por alguns instantes na justificativa de uma atitude ou uma escolha, na explicação de uma passagem de sua vida, o texto simplesmente encadeia o relato em um novo relato ou na revelação de um sentimento e segue adiante. Assim, percebemos que as memórias não têm fim e carregam em si a marca da insegurança e do acaso (palavra, aliás, que pontua alguns trechos da peça por meio da citação “O acaso tem sempre a última palavra”). Além, é claro, de funcionar em simbiose com o seu oposto, o esquecimento. E saímos do teatro certos de que Simone poderia nos dizer muito mais. E queremos mais.

Viver sem Tempos Mortos consegue, assim, contar a história da escritora e filósofa mas, principalmente, revelar sua forma particular e única de estar no mundo: seu íntimo compromisso com o grupo de intelectuais, amigos, militantes políticos, amores e ideias que abraçou ao longo da vida; sua total dedicação ao projeto intelectual de fazer da sua vida a matéria-prima de sua obra de modo a construir, sim, um pensamento marcado pela subjetividade; sua plena confiança de que é a experiência individual que define nossa relação única com o mundo e nossa possibilidade de construir uma reflexão inédita. (Falei um pouco sobre isso aqui). Reduzir Simone de Beauvoir a uma autora de autobiografias certamente é perder o sentido de toda a amplitude desse projeto intelectual e do significado de um conhecimento produzido a partir da experiência.

Algo que Simone de Beauvoir pretendeu ao escrever suas memórias foi mostrar que não há separação entre o individual (ou íntimo) e o político. Qualquer ação individual é também política, assim como nossas crenças mais íntimas. E este é o grande salto que a peça “Viver sem Tempos Mortos” consegue dar, ao explicitar como aquilo que o existencialismo chamava engajamento toma forma e sentido na vida de um indivíduo.

É essa relação entre individual e político que constitui, talvez, a chave para compreender por que Simone de Beauvoir é hoje tão incompreendida e erroneamente criticada. A lógica neoliberal, consumista, individualista da contemporaneidade é forjada para construir, cristalizar e reproduzir a separação entre individual e político. Mais do que isso, para esvaziar o político e inflar o individual, a tal ponto que até mesmo em momentos de ação “explicitamente” política – como votar ou realizar uma manifestação – a maioria das pessoas usa argumentos individualistas e exclusivistas, desconsiderando que o político nos permeia. Para quem estar no mundo é submeter-se a essa lógica, uma postura como a de Simone de Beauvoir, de compromisso intelectual, político e amoroso com suas escolhas e com a liberdade não é sequer concebível, como seria compreensível?

As memórias de Simone de Beauvoir são a lembrança de que somos seres políticos até mesmo em nossas cartas de amor. Talvez, a expressão Viver sem tempos mortos seja não só uma frase emprestada por Simone de Beauvoir dos slogans de Maio de 1968, mas também uma forma de expressar qual é o papel do intelectual ao escrever suas memórias. Porque as memórias, ainda que não sejam absolutas, completas, totais, são a narrativa dos tempos e das experiências que permanecem vivos, e de modo peculiar, em cada um de nós. Para quem acredita que essa vida tem um significado político, cabe transmiti-los e eternizá-los. É isso que faz o memorialista: não, ele não conta a sua vida, ele impede que seu tempo morra.

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* A peça Viver sem Tempos Mortos (monólogo de Fernanda Montenegro, direção de Felipe Hirsch e direção de arte de Daniela Thomas) encerra sua temporada neste domingo, 11 de dezembro de 2011. Segundo informações da assessoria de imprensa do espetáculo, Fernanda Montenegro irá dedicar-se em 2012 a dois projetos no cinema e um na televisão. Por isso, não escrevi exclusivamente sobre a peça, mas a utilizo como motor de uma reflexão sobre Simone de Beauvoir.

** Cartas, em alguns momentos de suas vidas, diárias, mesmo quando poucos quarteirões os separavam, mesmo quando passavam o dia inteiro juntos. É, esses dois tinham muito o que dizer um ao outro.

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Reproduzo abaixo texto meu publicado esta semana no portal O Pensador Selvagem.

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Recentemente, tenho lido e ouvido muitos julgamentos, de teor e tom questionáveis, a Simone de Beauvoir. E essas acusações suscitam uma pergunta: por que sua figura e seu pensamento incomodam tanto? Sua bissexualidade, vários e várias amantes, a recusa do casamento e da maternidade, a liberdade e independência em um mundo cada vez mais conservador poderiam ser uma resposta. Mas a considero simplista e insatisfatória.

Simone de Beauvoir nasceu há 113 anos. Suas obras mais influentes foram escritas entre os anos 1940 e meados dos anos 1970. O Segundo Sexo, seu livro mais importante, foi publicado em 1949. Lá se vão mais de 60 anos. Mas tantas décadas parecem não ter sido suficientes para que sua obra fosse compreendida e criticada com propriedade. Ainda hoje, muitas pessoas se recusam a ler Simone de Beauvoir porque ela era “uma libertina”. E repetem-se afirmações forjadas para atribuir a ela tudo aquilo contra o que ela lutou no plano das ideias e no plano da ação. Acusam-na de submissão, de dependência, de pregar o feminismo para as outras mulheres e não praticá-lo.

Essa resistência a Simone de Beauvoir esbarra em questões mais profundas sobre nossa sociedade: a condição da mulher, especificamente a mulher intelectual; a relação entre a experiência vivida e a escrita da memória com a subjetividade; as expectativas que recaem sobre os intelectuais. Tentarei abordar brevemente, e de forma não sistemática, alguns desses temas tendo como referência a figura de Simone de Beauvoir.

Experiência vivida, matéria-prima do pensamento

Simone de Beauvoir em seu quarto no Hotel Louisiane, Paris, 1946. Foto: Fonds Photographique Denise Bellon.

A grande maioria dos julgamentos feitos a Simone de Beauvoir, acredito, baseia-se em erro primário para qualquer reflexão: desconsiderar o fato banal de que intelectuais vivem. Ou seja, toda vida, inclusive a de uma pensadora, é um emaranhado complexo de descobertas, conquistas, falhas, inseguranças, afirmações, sofrimentos, retrocessos, sucessos. E é em meio a essa complexidade que seu pensamento e sua ação no mundo se desenvolvem, obviamente transformando-se. É, portanto, pouco racional deixar de considerar que, aos 20 anos, aquela pessoa, como qualquer um de nós, ainda não tem o terreno de todo seu pensamento arado e cultivado. Como é pouco racional ignorar que esse trabalho exige esforço.

Assim, por exemplo, há quem queira invalidar o pensamento libertário e antissexista de Simone de Beauvoir baseado em sua relação com Sartre. Afirma-se que ela se submeteu a Sartre durante toda a vida e aceitou um modelo de relação que ele impôs. Isso é incorrer no erro mencionado. Então, vamos a alguns fatos sobre essa relação.

Simone de Beauvoir e Sartre tinham 20 e poucos anos quando firmaram um pacto que previa  um relacionamento aberto, cada um dos dois podendo envolver-se com outras pessoas. Quem propôs este pacto foi Sartre. E Simone de Beauvoir o aceitou. Logo depois, eles foram nomeados para lecionar em cidades diferentes da França. O que unia a ambos: o relacionamento sexual, amoroso, e uma afinidade intelectual que provavelmente nenhum de seus críticos ou seguidores jamais experimentou com alguém. A convivência entre ambos era, ao mesmo tempo, afetiva e  instigante. Desejavam estar próximos. Sartre propôs casamento a Simone. Ela recusou. (Muito antes de conhecê-lo, já estava decidida a não se casar e não se submeteu ao desejo dele ou à paixão.)

Simone de Beauvoir sempre desejou ser livre, algo que a vida em uma família burguesa empobrecida de Paris – origem que ela jamais negou – nunca lhe permitira. Liberdade de pensamento, que exercia em suas aulas a alunas do ensino médio (ela só deu aulas em universidades durante a guerra). Liberdade sexual, envolvendo-se em alguns relacionamentos pouco mais do que casuais com homens e mulheres. Liberdade intelectual, trabalhando em seus primeiros livros, que não foram finalizados.

Sartre, no início, chocou-se com a bissexualidade de Simone. Depois, se apaixonou por uma de suas amantes, Olga, e propôs, com veemência e insistência, um novo modelo de relacionamento, que eles chamavam “o trio”. Os três aceitaram. Foram jogados em uma situação em que precisaram rever seus preconceitos e moralismos burgueses, em um turbilhão emocional repleto de sofrimento, conflito, meias-verdades, raiva, inveja. O “trio”, ela relatou tanto em A Força da Idade como em A Convidada, foi um fracasso. Todos sofreram mais do que se divertiram, todos os limites de suas liberdades foram testados, em geral ferindo um dos três. Para dizer o mínimo: Sartre era rejeitado por Olga, que provocava ciúmes em Simone, que era invejada por Sartre por ser a preferida da garota. O terceiro elemento na relação, percebia Simone, instaurava inexoravelmente uma barreira extra à liberdade e ao desejo de cada um dos integrantes do “trio”. E todos sofriam, ora por si mesmos, ora por ver pessoas queridas sofrendo. A partir dali, Simone não integraria novos trios, negando-se a manter o arranjo. Os triângulos, tal qual no início do pacto, voltaram a existir, mas as relações a três, não.

Há quem entenda o sofrimento de Simone como submissão. Considero uma percepção muito estreita do que é uma experiência de vida. O sofrimento faz parte das relações humanas. Simone nunca se esquivou dessa angústia. Afinal, primeiro como uma amante da liberdade e, depois, como existencialista, ela sabia que a angústia é inevitável. E também sabia que há uma responsabilidade a ser assumida em relação a si mesmo e aos outros.

A única vez que Sartre propôs casamento a outra mulher, sua amante norte-americana, Simone se retirou do relacionamento. Não queria submeter-se novamente aos conflitos e insucessos do “trio”. Ele desistiu do casamento. O amor necessário entre ambos sempre superou os amores contingentes. E isso não é resultado de uma magia romântica e cheia de coraçõezinhos que surgia no ar todas as vezes que um dos dois estava efetivamente envolvido em outras relações. Foram escolhas conscientes e livres de ambos.

Dizem também que Simone não conheceu o prazer sexual com Sartre e que logo ele se desinteressou sexualmente dela. Duas verdades. O que não é verdade é assumir que ela se submeteu a isso como uma vítima. Simone teve vários e várias amantes e encontrou o prazer sexual em várias relações. Quando o desejo sexual de Sartre deixou de existir, ela determinou que não precisariam mais relacionar-se por mera formalidade. Com o escritor Nelson Algren, envolveu-se no amor romantizado e “tradicional” para sua época. Ele a pediu em casamento. Ela recusou. Muitos a condenam. Além de não estar disposta ao casamento e à maternidade – ele queria filhos –, Simone sabia que sua ligação, ainda que fosse apenas intelectual com Sartre, machucava Algren. Novamente, ela era confrontada com a fórmula do “trio”, em outro contexto. Melhor que cada um abraçasse sua liberdade.

Simone de Beauvoir escreveu milhares de páginas em romances, ensaios, memórias abordando esses e outros fatos. Considerada uma das maiores memorialistas do século 20, produziu quatro volumes bem recheados, nenhum deles com menos de 300 páginas. Somente quem ignora totalmente essa produção, ou quem tenha lido sem nada compreender, pode lançar críticas como as que reproduzo aqui.

Há poucos temas que ela não aborde em detalhes em suas memórias, um deles é o processo movido contra ela pelos pais de uma aluna com a qual se envolveu sexual e afetivamente. Nesses e em poucos outros casos, ela opta por não entrar em detalhes pelo simples fato de que as pessoas envolvidas estavam vivas no momento da publicação dos livros, o que poderia criar mais escândalos.

Em cada página das memórias, a honestidade de Simone é invejável. Ela reconhece, por exemplo, as críticas mal-informadas que ela (e Sartre) fizeram a Freud, os enganos que cometeram em algumas avaliações a respeito de personagens e colegas durante a guerra, o fato de que, durante muito tempo, ela e Sartre, embora lutando contra os ideais burgueses, se submeteram totalmente e sem sequer perceber ao estilo de vida que abominavam.

Simone de Beauvoir acreditava que a matéria-prima do intelectual, além da capacidade de compreender e criticar as teorias, é a própria experiência. É a partir daí, pensava, podemos construir nossa relação com o mundo, talhar nossa subjetividade e, assim, produzir uma obra relevante intelectualmente, capaz de abordar assuntos e aspectos ainda inéditos. Simone não se negava a experimentar nada novo ou diferente. Pagava um preço caro por isso: nos anos 1930, em que uma mulher desacompanhada nem sempre era aceita nem mesmo em um café, ela optava por estar só. A solidão era a chave de sua abertura para o mundo. Nos anos 1940, foi duramente criticada por suas obras, nos anos 1950, enxovalhada por O Segundo Sexo e cobrada por não ter “agarrado” o amor de Algren.

Uma intelectual no tempo

Outra crítica comum a Simone de Beauvoir é de que ela era feminista em seus livros, mas não era feminista em seu relacionamento com Sartre. Dizem que ela pregava o feminismo para outras mulheres e não o praticava.

Em suas memórias, Simone de Beauvoir afirma que jamais foi feminista e que O Segundo Sexo, publicado em 1949, nunca foi concebido como um livro feminista. Por isso, quem cobra dela uma postura feminista em todos os episódios de sua vida age de má-fé, tentando invalidar seu pensamento e suas ações de forma falaciosa. Simone de Beauvoir só se alinha ao feminismo nos anos 1970.

Portanto, dizer que ela pregava o feminismo para as outras mulheres e não o praticava é, no mínimo, sucumbir a um banal anacronismo. Não, ela não podia viver a juventude de acordo com algo que ela só reconheceu e valorizou na velhice. Sim, os intelectuais mudam e se transformam ao longo do tempo, e isso não invalida seu pensamento. Quando passou a participar de ações do movimento feminista, ela mesma disse que isso demonstrava que suas ideias haviam se enriquecido e aprimorado.

A mulher e as divindades intelectuais

Simone de Beauvoir, Paris, 1952. Foto: Elliott Erwitt/Magnum.

As críticas inadequadas a Simone de Beauvoir, na minha opinião, mostram como ainda é difícil – para pessoas que cultivam o pensamento pouco aberto a ideias inovadoras, diferentes e sempre em transformação – aceitar o papel de uma mulher intelectual nos dias de hoje. A mulher é sempre o Outro, lembra Simone de Beauvoir em O Segundo Sexo, o diferente. E o lugar do intelectual, nós sabemos, é o lugar do um, do poder, da dominação. Aceitar que uma mulher ocupe esse lugar implica superar um preconceito. A resistência ao reconhecimento do papel intelectual de uma pensadora é a expressão desse preconceito: só posso atribui-la ao sexismo que é, para dizer o mínimo, uma fraqueza intelectual em qualquer pessoa.

Entretanto, o julgamento que ataca Simone de Beauvoir não é apenas aquele forjado no sexismo. Há um outro substrato nas acusações levianas que enumerei aqui e em outras que não há espaço para detalhar. Esse substrato é a necessidade de fazer de intelectuais verdadeiros deuses, modelos de comportamento, pessoas infalíveis que têm soluções infalíveis e que não podem ser questionadas. Pessoas que sentem essa necessidade não estão em busca de ideias e propostas, muito menos de reflexão. Sua expectativa é de que os intelectuais lhes ofereçam fórmulas prontas. Se esses deuses falham – e os verdadeiros intelectuais sempre falham porque não são os donos da verdade nem das respostas certas, apenas pessoas honestamente dispostas a fazer perguntas – são invalidados, considerados ruins, incompetentes.

Há uma manobra ideológica e outra, inconsciente, por trás disso.

Todas as vezes que acusamos veementemente alguém de ser aquilo que é indesejável, ruim, incompetente, negativo, criamos uma imagem positiva de nós mesmos. Somos exatamente o oposto daquilo que acusamos o Outro. Mas Freud já nos ensinou que, em geral, aquilo de que acusamos o Outro é aquilo que não suportamos constatar em nós mesmos.

Simone e Sartre construíram um sistema de pensamento que enfatiza: todos somos livres e a liberdade nos confronta a cada segundo com a angústia de fazer escolhas e com o sofrimento de nos responsabilizarmos por elas. Esse é um pensamento radical que implica, a quem adotá-lo honestamente, viver na insegurança, na incerteza e em constante contato com sua própria falibilidade e a ambiguidade.

Acredito que essa é a principal causa a todas as críticas levianas feitas a Simone de Beauvoir (e a Sartre). Quando as pessoas se referem a ela (ou a ele) em termos como “rever o passado”, “desconstruir mitos”, “derrubar messias”, na verdade estão fazendo uso de termos ideológicos. Buscam desqualificar o pensamento libertário, radical, transformador que, por definição, se constrói com base na exploração de visões de mundo, atitudes e comportamentos fora dos padrões e na diversidade de ideias e de ação. Nesse sentido, criticar Simone de Beauvoir (e Sartre) é muito mais construir empecilhos para que os intelectuais de hoje se inspirem ou busquem referências em suas ideias e possam pensar algo novo e tão transformador como eles pensaram em suas épocas.

Quem resiste a pensadores como Simone de Beauvoir e Sartre teme que alguém possa continuar a trilhar os caminhos que eles abriram. Teme palavras como liberdade, ambiguidade, imperfeição, descoberta, independência e, principalmente, responsabilidade e consciência. Teme o debate de ideias. Busca fórmulas que sustentem o status quo, o mainstream ou, para dizer de forma simples, “as coisas como elas estão”. Talvez possam encontrar algo assim em alguma religião. Jamais encontrarão isso em pensadores livres e, felizmente, imperfeitos.

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Foto: Slate

Simone de Beauvoir morreu em 14 de abril de 1986. Não vou evocar aqui o que essa perda representa para a filosofia, o feminismo ou o pensamento contemporâneo. Simone cumpriu seu papel como mulher, pensadora, amante, sujeito político, ficcionista, ensaísta, memorialista. E não nos cabe supor quem ela seria hoje, o que diria, o que faria “se estivesse viva”. Simone morreu.

O legado que ela deixou em seus livros, em sua forma de estar no mundo e ocupar-se dele como matéria-prima de cada palavra dita ou escrita, entretanto, permanece. Ainda podemos e devemos ler Simone, refletir sobre suas idéias, confrontá-las com as questões que o mundo hoje nos propõe. Não para dizer “Simone estava certa” ou “Simone estava errada”. Isso não existe. Existe apenas a possibilidade de tentar aprender com ela a pensar o mundo, a cultura, nossas contingências.

Já escrevi aqui e aqui sobre algumas das questões que tornam sua obra atual. Mas acho que posso acrescentar que Simone nos mostrou que para pensar e viver é necessário mergulhar na diferença, sair dos padrões, assumir que o indivíduo é único apesar de todas as pressões externas que podem impeli-lo à alienação, à servidão, ao conformismo, à reprodução de normas e regras sociais.

Reconhecer, aceitar e respeitar a diferença são as únicas formas de construirmos nossa existência no mundo. Não significa que nunca teremos preconceitos, nem que agiremos sempre corretamente, sem causar males ao mundo. Significa apenas que estaremos cientes de nossos preconceitos, de nossas contradições, e de como tudo isso influencia nossas motivações. Conscientes, talvez possamos mudar algo. Simone nos mostrou ainda que sujeitar-se aos padrões e regras sociais, às pressões e às crenças, sem efetivamente valorizá-las, é uma forma fantasiosa de abrir mão do indivíduo único que somos, porque a responsabilidade por nossos atos e escolhas é pessoal e intransferível.

Talvez por essa posição que, quando estendida a todas as áreas da vida, nada tem de simpática, Simone ainda hoje seja criticada e não tolerada por alguns grupos. Hoje, 103 anos após seu nascimento, 25 anos após sua morte, 62 anos após a publicação de seu ensaio filosófico mais importante, O Segundo Sexo, Simone é um incômodo para quem se apega a pensamentos prontos, ao conservadorismo e ao moralismo. E se isso acontece, é porque ela foi pouco compreendida. Ou melhor, é porque o que ela nos diz sobre nós mesmos foi pouco compreendido.

Simone de Beauvoir incomoda porque intelectualmente era ousada e, ao mesmo tempo, séria e precisa. Porque era uma burguesa em constante luta contra sua classe e os (maus) hábitos que a constituem. Porque sua vida amorosa, sua busca constante pela quebra de tabus e de regras de exclusividade no amor, não a livraram do sofrimento, do ciúme, da insegurança. E porque, sinceramente, não podemos perdoá-la por ter vivido a liberdade com que todos sonhamos e ter nos mostrado que uma vida assim não é um idílio, um paraíso, uma salvação. Liberdade é um conceito fundamental no pensamento de Simone: para ela, liberdade é a incerteza, o risco, a ambiguidade.

Simone incomoda porque não fez o que nós gostamos de pensar hoje que ela deveria ter feito: não foi boazinha, não evitou escrever sobre temas “feios” como aborto, masturbação, dominação, submissão, e pior, em nenhum momento de sua vida se desfez em desculpas por essas impropriedades. Ela incomoda porque não propôs fórmulas e não seguiu nenhuma. E como podemos respeitar uma intelectual que não nos serve de modelo? Uma figura pública em que não conseguimos projetar nem a imagem da mulherzinha nem a da pensadora irrepreensível, da heroína libertária ou da fêmea submissa, da mulher imoral ou da santa. Ela incomoda porque recusou acomodar-se nos extremos e se dedicou justamente a explorar os pontos em que os opostos, as diferenças, os limites se misturam.

Simone mergulhou naquela zona de fronteira em que nada é nem exatamente certo nem errado, nem bonito nem feio, nem limpo nem sujo e, assim, ela nos incita à procura de nossas as próprias respostas, sem nos dar garantias de que as encontraremos. Incomoda porque não toma para si o peso do mundo. Ao contrário, ela nos devolve esse peso. É o peso da liberdade.

Hoje faz 25 anos que Simone morreu. Mas mantê-la presente em nossas memórias, em nossos pensamentos e nos debates intelectuais ainda é um aprendizado de vida para todos nós.

Túmulo de Simone de Beauvoir e Sartre no Cemitário de Montparnasse, onde pessoas de todo o mundo deixam presentes, flores e bilhetes para o casal. Este blog é meu longuíssimo bilhete para Simone. Foto: Wikimedia

 

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