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Archive for the ‘política’ Category

O Segundo Sexo é um livro destruidor de mitos. Em cada uma de suas páginas, Simone de Beauvoir dedica todo seu cuidado de pesquisa e sua inteligência a mostrar que a imagem que se contruiu ao longo dos séculos da mulher como símbolo de beleza, de pureza, de perfeição, do bem, da virtude, do amor maternal, da “natureza” acolhedora e benévola não passa de uma armadilha. É com essas palavras que se opera uma das estratégias de dominação: transformar a mulher em algo diferente do humano, mantê-la na condição de outro, aprisioná-la na posição de passividade, evitar sua resistência ao poder que a oprime. A mulher é enredada em uma farsa.

Em troca de sua liberdade, presentearam-na com os tesouros falazes de sua ‘feminilidade’. Balzac descreveu muito bem essa manobra quando aconselhou ao homem que a tratasse como escrava, persuadindo-a de que é rainha.

O Segundo Sexo, volume único. São Paulo: Nova Fronteira, 2010, pp. 923-924.

Por isso, neste Dia Internacional da Mulher, acho que a melhor comemoração é dedicar alguns minutos para uma reflexão. Queremos ser “rainhas” em um mundo de desigualdades? Queremos ficar presas a uma imagem falsamente elogiosa mas, na verdade, violenta, porque destroi nossa liberdade de luta e nossa autonomia sobre nossos corpos e nossas mentes? Deixo aqui alguns parágrafos de outro trecho de O Segundo Sexo em que Simone de Beauvoir nos convida a essa reflexão.

O mito da mulher desempenha um papel considerável na literatura; mas que importância tem na vida quotidiana? Em que medida afeta os costumes e as condutas individuais? Para responder a essas perguntas seria necessário determinar as relações que mantém com a realidade.

Há diversas espécies de mitos. Este, sublimando um aspecto imutável da condição humana que é o “seccionamento” da humanidade em duas categorias de invidíduos, é um mito estático; projeta em um céu platônico uma realidade apreendida na experiência ou conceitualizada a partir da experiência. Ao fato, ao valor, à significação, à noção, à lei empírica, ele substitui uma ideia transcendente, não temporal, imutável, necessária. Essa ideia escapa a qualquer contestação porquanto se situa além do dado; é dotada de uma verdade absoluta.

Assim, à existência dispersa, contingente e múltipla das mulheres, o pensamento mítico opõe o Eterno Feminino único e cristalizado; se a definição que se dá desse Eterno Feminino é contrariada pela conduta das mulheres de carne e osso, estas é que estão erradas. Declara-se que as mulheres não são femininas e não que a Feminilidade é uma entidade. Os desmentidos da experiência nada podem contra o mito. Entretanto, de certa maneira, este tem sua fonte nela. Assim é exato que a mulher é outra e essa alteridade é concretamente sentida no desejo, no amplexo, no amor; mas a relação real é de reciprocidade; como tal, ela engendra dramas autênticos: através do erotismo, do amor, da amizade e suas alternativas de decepção, ódio, rivalidade, ela é luta de consciências que se consideram essenciais, é reconhecimento de liberdades que se confirmam mutuamente, é a passagem indefinida da inimizade à cumplicidade. Por a Mulher é por o Outro absoluto, sem reciprocidade, recusando contra a experiência que ela seja um sujeito, um semelhante.

(…)

Como as representações coletivas e, entre outros, os tipos sociais definem-se geralmente por pares de termos opostos, a ambivalência parecerá uma propriedade intrínseca do Eterno Feminino. A mãe santa tem como correlativo a madrasta cruel; a moça angélica, a virgem perversa: por isso ora se dirá que a Mãe é igual à Vida, ora que é igual à Morte, que toda virgem é puro espírito ou carne votada ao diabo. Não é evidentemente a realidade que dita à sociedade ou aos indivíduos a escolha entre os dois princípios opostos de unificação; em cada época, em cada caso, sociedade e indivíduos decidem de acordo com suas necessidades. Muitas vezes projetam no mito adotado as instituições e os valores a que estão apegados. Assim, o paternalismo, que reclama a mulher no lar, define-a como sentimento, interioridade e imanência; na realidade, todo existente é, ao mesmo tempo, imanência e transcendência; quando não lhe propõem um objetivo, quando o impedem de atingir algum, quando o frustram em sua vitória, sua transcendência cai inutilmente no passado, isto é, recai na imanência; é o destino da mulher, no patriarcado; não se trata, porém, da mesma vocação tal como a escravidão não é a vocação do escravo. Percebe-se claramente, em Comte, o desenvolvimento dessa mitologia. Identificar a Mulher ao Altruísmo é garantir ao homem direitos absolutos à sua dedicação, é impor às mulheres um dever-ser categórico.

O Segundo Sexo, volume único. São Paulo: Nova Fronteira, 2010, pp. 343-345.

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Uma das grandes forças deste documentário de 2007, dirigido por Virginie Linhart, é mostrar por que o livro O Segundo Sexo é também dirigido aos homens, não apenas às mulheres. O vídeo, em cinco partes, traz entrevistas com conhecidas estudiosas da obra de Simone de Beauvoir na França, como Élisabeth Badinter e Danièle Sallenave, além de contar em detalhes como o fato de ela ter escrito o livro foi uma superação individual do determinismo de classe e de gênero. Em francês, com legendas em espanhol, o documentário é ainda mais profundo do que os vídeos que postei anteriormente. (Na verdade, muitos dos trechos daqueles vídeos foram tirados daqui.)

 

 

Nesta segunda parte, gostei particularmente de descobrir que o filósofo François Noudelmann pensa o mesmo que eu sobre a velha história de Jean-Paul Sartre ter sido aprovado em primeiro lugar na agrégation de 1929 e Simone de Beauvoir, em segundo. O trecho está bem no início do vídeo, que também traz Sylvie Le Bon de Beauvoir, a filha adotiva de Simone, comentando uma frase deste trecho de A Força da Idade, sobre o amor com Sartre.

 

 

No trecho abaixo, destaque para o amor de Simone e Nelson Algren (do qual falei um pouco neste texto) e o engano de algumas interpretações que tentam reduzir toda a vida da escritora e filósofa ao que ela manifestou em suas cartas para ele.

 

 

No quarto vídeo, Judith Butler comenta a tradução inglesa do livro:

 

 

Na quinta parte, destaque para a análise de Élisabeth Badinter.

 

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Estes vídeos do programa Arquivo N, da Globonews, são preciosos. Não apenas por contar a história, recuperar fotos, reproduzir trechos obrigatórios de O Segundo Sexo e retratar a importância e a má recepção que teve o livro.

O programa reuniu vários trechos de entrevistas concedidas por Simone de Beauvoir na França, imagens raras e cenas de uma conversa/entrevista que ela fez com Sartre. Acho que os vídeos só pecam por apresentar uma análise superficial de O Segundo Sexo e por reproduzir uma reportagem da TV francesa de 1971 totalmente ideológica.

Mas, antes de pensar nisso, vejam com que desapego Simone reconta sua história, a mesma que ela registrou em seus livros de memórias. E, principalmente, aproveitem a  oportunidade de ver Simone de Beauvoir e de ouvir sua voz. É emocionante.

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Simone no fim dos anos 1970. Foto: Janine Niépce/Rapho

Em 9 de janeiro de 1908 Simone de Beauvoir nasceu em Paris. Hoje, 103 anos depois, publico aqui uma carta que escrevi para ela em 2010.

Querida Castor,

O trem já estava na plataforma quando cheguei à estação e precisei correr com as malas. Meu plano era escrever para você do café da estação, aproveitar a luz que entrava pelos vitrais do alto da fachada e iluminava as mesas envoltas na fumaça fina e nas vozes preguiçosas das pessoas que aguardavam suas partidas ou a chegada de alguém. Imaginava que isso daria uma atmosfera poética à minha carta. Mas me atrasei e, por isso, escrevo no trem em movimento dentro desse túnel infinito, percurso sem paisagem, sem céu.

Todas as vezes que estive em Paris, mas desta vez em especial, estive à sua procura. Levei flores para você e Sartre no Montparnasse, apesar de minha aversão aos cemitérios. Fui à Biblioteca Nacional, à Sorbonne, a seu apartamento da rue Schoelcher, aos tantos endereços de hotéis em que você morou, ao La Coupole, La Rotonde, Jockey, Dôme… Queria ouvir as conversas que, invariavelmente, passariam pelo seu nome e seus costumes pouco ortodoxos. Passei várias tardes no Café de Flore olhando suas fotos, imaginando você, seu sorriso, seu olhar. Sentava-me numa das mesas com um caderno aberto, caneta na mão para, talvez, colher algumas das suas ideias que, por magia, eventualmente circulassem no ar perfumado de bebida e solidão.

Buscava a Simone que me inspirou nos anos de adolescente a ter “projetos”, a ter disciplina, saber o que queria. Hoje, sou menos segura dos meus desejos do que aos treze anos, quando conheci você, ainda que só por meio das suas palavras nos livros. E aqui, aproveito para agradecer por ter escrito tantos, porque assim você poderá me acompanhar pelo resto de meus dias.

Na verdade, Simone, acho que o que eu buscava nessa visita de tantos dias era tocá-la, materializar essa afeição que tenho por você. Mas falhei. Porque só agora me dou conta: quando lia seus livros, não era você que eu conhecia melhor. Era a mim mesma. Cada uma das histórias, cada aventura, cada episódio, cada reflexão, tudo isso sempre me falou daquilo que eu queria ser, ou não queria, dos meus desejos, das minhas dúvidas. Por isso, muitas vezes, ao percorrer os caminhos que você percorreu, enxergava não só você, mas também a mim. De alguma forma, Castor, você viveu tudo o que eu sonhei viver. E inventou histórias que eu sonhei protagonizar. Por muitas e muitas vezes, me vi idêntica a você ou às mulheres de suas histórias. A Xavière de amores efêmeros e interesses constantes, a Françoise das traições silenciosas e consentidas, a Régine que esperava um olhar que a libertasse do medo de viver, a Elisabeth, a Anne, a Nadine. Histórias que você contou e pelas quais eu descobri muito do mundo, muito de você, e muito de mim mesma.

Tenho muito a lhe falar. Queria contar coisas sobre as mulheres de hoje, sei que você gostaria de saber. Muita coisa mudou, é verdade. Mas eu precisaria que você me ajudasse a pensar sobre o que permanece. Há ainda mulheres que, 60 anos depois de seu Segundo Sexo, acreditam que nascem mulheres e mães e se dilaceram com seus filhos não nascidos. Ainda são vistas nas ruas e na televisão para defender leis que aprisionam gerações a seus corpos e destinos ao acaso de uma gravidez. Ainda ensinam suas filhas a serem mais bem-comportadas e doces do que os meninos, e ainda repetem, porque ouviram, que ginecologistas, professores e líderes homens são mais preparados e competentes. E que as candidatas mulheres não são suficientemente astutas para a política. Ainda há mulheres que não confiam seus corpos a si mesmas, nem suas mentes.

Sei que isso não deixaria você triste, porque você iria me perguntar sobre as coisas boas. E há muitas. Cada vez mais mulheres são candidatas, professoras, escritoras, ginecologistas e líderes. As feministas continuam ativas e cada vez mais. A França teve sua primeira candidata a presidente em 2007. Ela não se elegeu, mas deixou marcas fortes na política. A candidatura recebeu atenção de todo o mundo. Foi pioneira entre os grandes países. A Alemanha tem uma chanceler. Os EUA não conseguiram ainda ter sua primeira mulher candidata, embora tenha havido uma pré-candidata. (Hoje, 9/1/2011, quando publico esta carta que escrevi em janeiro de 2010, aproveito para contar que o Brasil também teve sua primeira candidata a presidente no ano passado. Ela foi eleita, tomou posse há nove dias, e promete honrar a luta pela igualdade.)

Enfim, eu teria muito a dizer. Por hoje, fico por aqui. A carta se alongou. E de todas as coisas que eu queria dizer, a principal guardei para o fim.

Quero agradecer a você por cada ação que teve, por cada palavra que colocou no papel, pelo modo como viveu e refletiu sobre o vivido. Sei que tudo isso me livrou do medo de ser mulher, ou do erro de me acomodar no lugar que o mundo ainda reserva às mulheres. Sei que por ter descoberto você, tenho orgulho de ser mulher. Obrigada por ter existido. E obrigada por ter permanecido em cada palavra que disse ou escreveu. Saiba que em cada uma de suas obras descubro novas ideias e inspirações. Encontro respostas e, principalmente, novas perguntas e motivos para ir adiante em muitas frases suas. E sei que há milhões de mulheres e homens mundo afora que também se sentem assim.

Um beijo, Simone.

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O trecho abaixo conclui a primeira parte de A Força da Idade, segundo livro de memórias de Simone de Beauvoir. Após refletir sobre seu amadurecimento intelectual, Simone reconhece sua alienação e se vê desafiada ao engajamento político. Uma mudança provocada pelo início da Segunda Guerra Mundial. Antes de falar sobre a guerra, Simone faz uma análise de si mesma e de sua trajetória de vida dos 20 aos 30 anos e das críticas que recebeu por O Segundo Sexo. Um trecho de honestidade intelectual invejável, que ela escreveu em 1960.

Sei que lendo esta biografia certos críticos vão triunfar: dirão que desmente brutalmente O Segundo Sexo, já o disseram a propósito de minhas memórias. É que não compreenderam meu velho ensaio e talvez mesmo dele falem sem o ter lido. Escrevi porventura algum dia que as mulheres eram homens? Pretendi não ser uma mulher? Meu esforço foi, ao contrário, o de definir em sua particularidade a condição feminina que é minha. Recebi uma educação de moça; terminados meus estudos, minha condição continuou a ser a de uma mulher no seio de uma sociedade em que os sexos contituem duas castas nitidamente separadas. Em numerosas circunstâncias, reagi como a mulher que era.

Por razões que expus precisamente em O Segundo Sexo, as mulheres, mais do que os homens, experimentam a necessidade de um céu por cima da cabeça; não lhes deram essa têmpera que faz os aventureiros, no sentido que Freud dá à palavra; elas hesitam em discutir a fundo o mundo, como hesitam também em aceitá-lo. (…) Viu-se entretanto que eu atribuía pouca importância às condições reais de minha vida: nada travava a minha vontade, pensava. Não negava a minha feminilidade; não a assumia tampouco. Não pensava nela. Tinha as mesmas liberdades e as mesmas responsabilidades que os homens. A maldição que pesa sobre a maior parte das mulheres – a dependência – foi-me poupada. Ganhar a vida não é em si um fim, mas somente assim se alcança uma sólida autonomia interior. (…)

Sei hoje que, para me descrever, devo dizer primeiramente: “Sou uma mulher”; mas minha feminilidade não constituiu para mim nem um incômodo nem um álibi.

Simone de Beauvoir em A Força da Idade, páginas 363-364. Nova Fronteira, 2010.

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Olga [aluna de Simone em Rouen, que mais tarde entraria para a rede de relações do casal Beauvoir-Sartre] mantinha-me a par de sua vida; falava-me de seus camaradas e perguntou-se de uma feita o que queria dizer ao certo judeu. Respondi com autoridade: “Não existe judeu; há apenas homens.” Ela contou-me mais tarde o êxito que tivera ao entrar no quarto do violinista [um dos amigos judeus de Olga, então com aproximadamente 17 anos] declarando: “Vocês não existem, meus amigos, foi minha professora de filosofia que disse.” Em numerosos pontos eu era – Sartre também, embora em  grau menor – deploravelmente abstrata. Conhecia a realidade das classes sociais, mas por reação contra as ideologias de meu pai, protestava quando me falavam de francês, de alemão, de judeu:  só existiam pessoas, singulares. Tinha razão de recusar o essencialismo. Já sabia a que abusos arrastavam noções como as de alma eslava, caráter judaico, mentalidade primitiva, eterno feminino. Mas o universalismo a que me ligava impelia-me para longe da realidade. O que me faltava era a ideia de “situação” que, só ela, permite definir concretamente conjuntos humanos sem os escravizar a uma fatalidade intemporal. Mas ninguém então [em termos teóricos], em se saindo da luta de classes, me fornecia isso.

Simone relata no trecho acima (trecho de A Força da Idade, pp 168-169, Nova Fronteira, 2010) o episódio, que aconteceu em 1935, e que já revelava a força do antissemitismo na Europa antes da Segunda Guerra Mundial. Aos 27 anos, ela não tinha uma forte percepção da política e buscava adaptar o pouco que conhecia pelos jornais a sua visão universalista do mundo e da liberdade. Naquele momento ela  percebeu que ao conceito de “essência” precisava contrapor o de “situação”, para poder refletir sobre a condição dos grupos, das minorias, e sobre o preconceito (em geral justificado pela ideia de uma essência inerente a alguns grupos).

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A frase de abertura do volume dois de O Segundo Sexo é também a mais famosa de toda a extensa obra de Simone de Beauvoir. Uma frase que, há mais de 60 anos, inspira gerações de mulheres a mergulhar no verdadeiro significado da condição feminina. No livro, Simone de Beauvoir evidenciou, pela primeira vez, que ser mulher não é algo naturalmente dado, mas uma construção social, histórica e cultural.

Hoje, a obra é alvo de críticas. Muitos intérpretes atribuem a Simone uma postura radical em relação aos homens; outros a acusam de misantropia. Em meio às críticas, a ousadia intelectual de Simone ao atribuir à condição feminina raízes culturais, históricas e sociais pode passar despercebida. Não deveria.

Como Simone de Beauvoir explica, foi exatamente assim – sem perceber, sem refletir, sem observar, sem participar – que as mulheres se tornaram “o segundo sexo”. Aquele que só se define em relação ao primeiro sexo, o masculino. Assim, a história e a cultura construíram das mulheres uma imagem invertida, tal qual um reflexo no espelho. Ao longo dos milênios e séculos, as mulheres só existiram em referência aos homens, como homens ao contrário, a versão fracassada, sem força, impotente e desprovida de poder do masculino.

Poder, potência, força, sucesso. Palavras que Simone investiga e que descobre serem concebidas como privilégios do sexo masculino até mesmo por muitas mulheres. Foi essa descoberta que levou os críticos a apontarem radicalismo e misantropia na obra. Quem faz essas acusações se esquece de que a ferocidade de suas palavras é consequência direta do contexto em que a obra foi escrita: a Europa do pós-Segunda Guerra.

Simone não é contra os homens, mas contra o fato de exercerem a dominação em palavras, gestos, atitudes e políticas. E isso acontece ainda hoje. Simone não é contra as mulheres, mas contra o fato de se submeterem voluntariamente à dominação. E isso também acontece ainda hoje, principalmente diante da justificativa de que biologicamente homens e mulheres são diferentes.

Publicado em 1949 na França, e depois traduzido para mais de 30 idiomas, o livro de Simone de Beauvoir mostrou que a imagem da mulher frágil, infantilizada, incapaz física ou intelectualmente, perniciosa, perigosa, suja, pode ser transformada. Simone desvenda a trama histórica da submissão feminina para, no fim da obra, falar sobre a construção da mulher independente. É uma reflexão difícil, que só 20 anos depois da publicação do livro foi assimilada pelo movimento feminista, nos anos 1970. Historicamente, a condição feminina tem sido reduzida à diferença biológica entre os sexos. E a própria Simone só foi incitada a confrontar essa redução alguns anos antes de escrever O Segundo Sexo.

Uma curiosidade que gosto sobre o livro é que para fazer a longa pesquisa para escrevê-lo, Simone agiu como uma investigadora anônima. Acordava cedo quase todas as manhãs para integrar a fila de estudantes que disputavam uma cadeira nas salas da Bibliothèque Nationale de France e buscavam acesso a sua valiosa coleção de livros. Simone de Beauvoir já era, então, famosa. Seus romances A Convidada, publicado em 1943, e O sangue dos outros, de 1944, fizeram sucesso. Suas ideias sobre liberdade, seu engajamento intelectual, as excentricidades de sua vida sexual e o relacionamento com Jean-Paul Sartre a colocavam em evidência. Ela poderia ter usado suas prerrogativas para obter as informações com mais tranquilidade. Mas isso seria agir contra suas próprias ideias sobre igualdade.

Precursor de estudos aprofundados sobre gênero, o livro perpassa vários campos do conhecimento humano: biologia, psicanálise, materialismo histórico, literatura, sociologia, filosofia, sexologia. Com sua pesquisa, ela desejava saber o que essas formas de reflexão diziam sobre a mulher. Como o pensamento era então quase totalmente dominado pelos homens, o que ela encontra não é nada lisonjeiro. Descobriu que em muitas teorias, ditas científicas ou filosóficas, a mulher aparece associada a satã, ao erro, ao perigo, ao mal, ao pecado, à fraqueza. Talvez por isso, Simone ouse nomear, em seu livro, com total franqueza, os laços sociais entre homens e mulheres na vida pública e também na vida particular. Não que ela ignore o amor e a paixão, mas o que ela encontra em sua investigação são outras palavras menos românticas: submissão, opressão, exploração, dependência, servidão (inclusive voluntária).

Com essas palavras fortes e com outras que, na Europa do pós-guerra, ainda eram tabus, como lesbianismo, menstruação, clitóris, masturbação – todas usadas sem eufemismos ou concessões –, Simone de Beauvoir chocou a França e o mundo. Ao menos no início, O Segundo Sexo foi negativo para Simone.

Ela foi acusada de ser contra os homens – nada mais falso para uma mulher que amou tantos e tão intensamente; de pregar a dissolução da família – que, é verdade, ela enxergava com restrições por ser a base na qual se reproduzem a submissão e a opressão da mulher. Recebeu insultos à sua sexualidade, à sua moral, à sua honra. Curiosamente, não à sua inteligência ou à solidez de suas ideias. O Segundo Sexo fez de Simone também persona non grata entre alguns políticos franceses. Esquerda e direita reagiram, e muito mal, à sua obra.

Hoje, passados mais 60 anos da publicação da primeira edição, nada disso importa. O livro é uma viagem profunda pela história da mulher, pelos fatos, mitos e experiências em torno do feminino. Para o bem e para o mal, ainda hoje, as ideias de Simone de Beauvoir assustam e chocam algumas mulheres e muitos homens. Ela escreveu O Segundo Sexo há 60 anos, mas ainda hoje o processo de tornar-se mulher pode ser vivido como um diálogo com as ideias que ela expôs ali.

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