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  1. Lançado na França em maio de 1949, o primeiro volume de O segundo sexo foi um fenômeno editorial. Na primeira semana, 22 mil exemplares foram vendidos.
  2. Logo depois desse sucesso de vendas, o livro foi retirado de várias livrarias, devido às reações hostis contra a obra e a autora.
  3. Colette Audry, escritora, professora e militante socialista francesa que era amiga de Simone de Beauvoir, sempre teve um projeto de escrever um livro sobre mulheres. Quando O segundo sexo foi publicado, ela se tornou uma das principais defensoras da obra. Audry viajou pela França dando conferências sobre o livro da amiga. (Sororidade rocks!)
  4. François Mauriac – sim, o autor de Thérèse Desqueyroux, aquele livro incrível – foi um dos principais opositores da obra. Ele organizou um debate convocando intelectuais franceses a criticarem a obra nos jornais e revistas franceses logo após o lançamento. (Vale registrar que Mauriac era um dos principais nomes da intelectualidade de direita e católica na França naquele momento.)
  5. Trechos do livro foram publicados – antes do lançamento – na revista Les Temps Modernes, que Beauvoir dirigia juntamente com Jean-Paul Sartre. As vendas da revista, nas edições em que os trechos foram publicados, bateram recordes. A edição com trechos do volume 1 vendeu 513.418 exemplares; a edição com trechos do volume 2 vendeu 459.237 exemplares.
  6. Em 1956, o livro entrou para o Index, a listra de livros proibidos criada pela igreja católica para controlar as leituras dos fiéis. Os mandarins, que Beauvoir lançou em 1954, também entrou para a lista no mesmo ano.
  7. Também em 1956, O segundo sexo foi proibido em Portugal e na Rússia.
  8. Por causa do livro, alguns setores da intelectualidade comunista francesa apelidaram Beauvoir de “sufragete da sexualidade”.
  9. Entre os grupos intelectuais mais influentes na França no momento – católicos e protestantes (ambos de viés direitista), comunistas e existencialistas (ambos de esquerda) – os mais receptivos e objetivamente críticos à obra foram os protestantes. Até mesmo dentro do existencialismo Beauvoir desagradou alguns intelectuais (especialmente Camus, que afirmou que Beauvoir atingiu a honra do “macho” francês. Beauvoir conta esse episódio em A Força das Coisas.)
  10. As organizações femininas na época procuraram se desconectar da polêmica gerada pelo livro. Em sua maioria ligadas à igreja católica e ao partido comunista, essas associações não concordavam com duas das principais pautas da agenda política inaugurada pelo livro no contexto da sociedade francesa da época: o direito à contracepção gratuita e o direito ao aborto legal.

Estes itens foram listados a partir da leitura do livro Les Années Beauvoir, de Sylvie Chaperon. Mas há um artigo da autora, anterior ao livro, que foi traduzido para o português pelo periódico Cadernos Pagu e que traz mais detalhes sobre a recepção de O segundo sexo na França: “O “auê” sobre O segundo sexo” (download do pdf).

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Que Simone de Beauvoir nunca foi unanimidade no meio intelectual francês de sua época não é novidade para ninguém. Suas posturas políticas, filosóficas e principalmente pessoais incomodavam muita gente. Além disso, num momento tão pulsante de pensamentos e questionamentos quanto o pós-guerra, os conflitos constantes transformavam facilmente amizades em inimizades e vice-versa. Entre as inimizades que nunca se transformaram em amizades (e vice-versa), está a relação de Marguerite Duras e Simone de Beauvoir.

Simone e Marguerite quase sempre estiveram lado a lado em termos políticos. Durante a Segunda Guerra, atuaram contra a ocupação nazista. Marguerite teve um papel fundamental na Resistência, como membro do Partido Comunista Francês (PCF), então clandestino, no grupo de François Mitterand. Simone integrou um dos primeiros grupos parisienses da Resistência, mas por volta de 1943 já participava muito pouco. (As obras A Dor, de Marguerite Duras e O Sangue dos Outros, de Simone de Beauvoir, tratam de suas experiências na Resistência.)

duas

Simone de Beauvoir em 1944 e Marguerite Duras em 1952.
As duas fotos foram feitas em Paris por Robert Doisneau.

Assinaram, em 1960, o Manifesto dos 121, contra a guerra da Argélia em que ambas – ao lado de Sartre, André Breton, Maurice Blanchot e tantos outros – se colocavam contra a ação violenta do governo francês e defendiam o direito de insubmissão do povo argelino contra a violência usada pela França. Em 1971, ambas assinaram o importante manifesto das 343, em que declaravam ter feito aborto – ilegal na França na época – a fim de pressionar o governo para que garantisse o direito à contracepção gratuita e ao aborto legal.

Embora ambas estivessem do mesmo lado, as relações pessoais entre elas eram conflituosas. Marguerite tinha sérias diferenças com Sartre, sobretudo porque este nunca chegou a um bom e definitivo termo com o PCF – do qual era aliado e crítico em quase todas as questões políticas e do qual a própria Marguerite se desfiliou em . Simone de Beauvoir menciona apenas uma vez Marguerite em suas memórias, quando fala, em Balanço Final. Os estudantes convidaram escritores para uma discussão na Sorbonne no dia 20 de maio de 1968. Marguerite também participou desse encontro e, a certo ponto, teria considerado que o convite havia sido uma tentativa dos estudantes de chamar mais atenção para o movimento.

No livro Marguerite Duras: A Life, de Laure Adler, algumas afirmações mostram que os conflitos entre Marguerite Duras e Sartre, e principalemente entre ela e Beauvoir, eram menos políticos do que pessoais, até mesmo narcisistas. Um pouco em tom de fofoca, a autora afirma que durante os anos 1950, Marguerite teria pedido a Sartre que publicasse na revista Les Temps Modernes alguns de seus contos. Sartre teria recusado, dizendo que ela era uma escritora ruim (este relato está na página 195, e se for verdadeiro, Sartre avaliou bem mal, hein?). Na verdade, Marguerite não tomou isso como verdadeira crítica, e considerou que a recusa foi arquitetada por Simone de Beauvoir. Segundo a autora, Marguerite detestava Simone e seu trabalho e tinha ciúmes dela, porque ambas tiveram casos com Jacques-Laurent Bost. E ele teria preferido se comprometer com Simone a se comprometer com ela.

Laure Adler conta ainda que Marguerite nunca teve amizade com outras escritoras, exceto Nathalie Sarraute (curiosamente, por algum tempo, muito próxima a Simone de Beauvoir), e detestava outras mulheres. Algumas pessoas dizem que era Simone de Beauvoir que não gostava de outras mulheres, especialmente escritoras. Duvido que a concepção que ambas tinham da liberdade e do amor seja compatível com essas explicações. (Aliás, essa é uma acusação muito recorrente contra mulheres que atingem sucesso como escritoras e pensadoras. Dizem isso para masculinizá-las e, assim, confirmar que o mundo do pensamento e da ação é prerrogativa masculina.)

Literariamente, ambas sempre tiveram também um ponto em comum. Ambas fizeram de suas vidas o tema essencial de seus escritos. Suas escolhas foram por processos criativos em que o que é escrito é o extrato da experiência de vida. É por isso que, penso, talvez a diferença fundamental e irreconciliável entre elas fosse também no âmbito literário.

Marguerite Duras sempre se posicionou como uma mulher escritora. Marguerite Duras, que associava a mulher à loucura, era mais passional, confessional, intensa e desconcertante em seu estilo. Sua escrita conturbada, perturbada, passional e seus problemas com o álcool marcam sua literatura como triste, dolorida. “A dor é uma das coisas mais importantes na minha vida”, escreveu ela uma vez. E essa importância é transposta para todas as suas obras, sempre de cunho autobiográfico.

Simone de Beauvoir é mais racional em seus escritos, tem como marca sua formação filosófica e seu compromisso com o existencialismo, que em certa medida é, sim, um desencantamento do mundo. Mas também fez de sua vida o tema principal de seus livros, e dizia que a literatura era a transformação de “uma vida que é vivida em uma vida que é refletida”. Reflexão é uma palavra fundamental para compreender seus escritos. Simone sempre se posicionou também como “sujeito da escrita” cuja contingência era ser mulher, não como uma “mulher escritora”. Essa diferença é fundamental na visão de mundo de ambas. Porque a escritora que reivindica a feminilidade fala a partir de uma suposta “essência feminina” e com uma “linguagem feminina”. A voz da escrita de Simone de Beauvoir é a da existência que precede à essência. Para ela, colocar-se como uma “mulher escritora” era de certo modo sustentar a condição de inferioridade da mulher na sociedade, como se uma mulher ocupar o lugar de sujeito da escrita fosse algo extraordinário, já que esse não seria seu lugar “natural”. Afinal, nenhum escritor se define como um “homem escritor”. O escritor é escritor e ponto. Para Simone, o lugar da escrita é um só. (Falei mais sobre essa questão aqui.)

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